Crítica | Os Famosos e os Duendes da Morte

estrelas 4

O trabalho do diretor Rio Grandense Esmir Filho representou um respiro necessário na segunda fase do cinema brasileiro pós-retomada. Com uma obra intimista e distante do que geralmente se esperava das produção advindas depois do merecido sucesso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, sua notoriedade começou a ser construída com o viral Tapa na Pantera e só foi continuada e construída pela qualidade ímpar de seus curtas, tão ovacionados nos festivais brasileiros.

Em seus dramas, o universo adolescente é representado sobre a ótica da redescoberta, em visceralidade palpável e onírica, tendo a mudança do corpo e da identidade como os protagonistas. Diferente da consideração de um Larry Clark, por exemplo, a juventude não está encerrada no fatalismo do crescimento, amadurecer é inevitável, difícil, mas não necessariamente um trauma, esse é o ponto mais cativante de suas tramas, a singeleza de seu olhar somos as dificuldades inevitáveis de qualquer passagem.

Os recursos utilizados por ele, como dito, se relacionam com o a fantasia, vista como forma de ser entender e vivenciar a existência, a estranheza toma lugar  comum ao ordinário cotidiano e o realismo passa a constituir outra maneira , uma mais poética, de ser, mais próxima ao que sente o sujeito e como isso ajuda a vivenciar o mundo que o cerca. Em seu primeiro longa, Os Famosos e os Duendes da Morte (nome muito auspicioso, diga-se) essa performance chega ao máximo, relacionando vários signos tipicamente seus como a sensação de deslocamento no caminhar para a vida adulta ou mesmo o papel da respiração ao transmitir emoção. Já começando pelo título, ve-se sua relação com frenesi do jovem contemporâneo na predileção por títulos americanos, como Tambourine Man, no uso de redes sociais como forma de real socialização, inclusive, ‘experienciação’, algo muito interessante já que, além de falar sobre algo que vive, Esmir trabalha tais temas com dignidade, organicamente inclusas na narrativa. Para além de um mero retoque contextualizador, o blog, o msn, são extensões do sujeito pós industrial e se postulam como importante meio de expressão.

A narrativa não prima pela certeza, ha várias quebras de diegese ao longo dela, as vezes em momentos impróprios, o que acaba atrapalhando o ritmo, empacando a história em diversas pontos, como naqueles em que se suspende a música e o filme ganha status de videoclipe, porém, não é o excesso que marca sua cinematografia. Tacitamente baseada em Tarkóvski, ao contrário, com seus cenários lúgubres e aquela bruma que parece ser uma espécie de moldura do espaço e ao tempo, quase impedido de passar,  cíclico e não direto o interior e mais destacado que o passar do sol. Seu andamento quebra com a lógica cronologia, tanto no tom vagaroso que da importância a noção psicológica e espaços uterinos, como o do quarto, ambiente de nostalgia, sacrifício do tempo presente ao passado, revisto interminavelmente pelo browser de vídeo. A redenção representará a chegada da maturidade.

Talvez mais próximo do filósofo Albert Camus, ou mesmo Bergman, o suicídio que ampara a história e serve de motivação a obra é aos poucos assimilado, mais ainda demorado  de ser digerido, reforçando a ideia de solidão e isolamento á ser vencido, como se andar mais devagar fosse necessário para se escutar algo de mais bonito. È no plano simbólico onde reside o lado mais interessante da direção, capaz de realizar panos belíssimas e tecnicamente impressionantes, como o plano sequência envolvendo o menino Julien, bem interpretado por Ismael Caneppele, ou as videoartes protagonizadas por Tuane Eggers, mesmo que a melhor atuação ainda caiba á veterana Áurea Baptista, soberba em suas sutilizas como mãe.

Se seu final proporciona uma caminhada indistinta, afinal não se sabe o que reserva o futuro, a expectativa de uma nova vida e construída no presente, sem problemas se você chorar. E nisso, o roteiro acerta, excetuando certos problemas no seu ritmo a história se desenvolve de modo muito satisfatório, principalmente em seu terceiro ato, que se opõe a certa morosidade típica do segundo ato. Porém, será nos seus personagens que o filme atingirá seu apogeu, seu drama nada gratuito comunica-se não somente com quem foi, como eu, adolescente na época, mas com quem já passou por qualquer época de indecisão.

Diferente, único, poético, essa pequena obra-prima se sucede tão bem por ser, antes de tudo, sutil e inventiva ao reimaginar e expandir padrões já utilizados em produções anteriores trazendo uma espécie de cinema sonho em que o fantástico e o imaginativo não sejam nem acima nem além, mas sim constituidores de um mundo organizado, antes de tudo, pela subjetividade particular.

Os Famosos e os Duendes da Morte (Brasil, 2009)
Direção: Esmir Filho
Roteiro: Esmir Filho e Ismael Caneppele
Elenco: Áurea Baptista, Ismael Caneppele, Tuane Eggers, Henrique Larré, Samuel Reginatto
Duração: 101 min.

PEDRO ROMA . . . Antes de tudo, cinéfilo inveterado e amante de todo tipo de filme, mesmo que eu prefira um pouco mais russos e tchecos, em geral. Aspirante a cineasta, atualmente curso cinema e espero poder ganhar um longo podcast sobre mim um dia, haha. Para além das brincadeiras, quero contribuir de forma ativa com o pensamento cinematográfico, começando pela critica é claro, podendo colocar em palavras toda a emoção que sinto nesse prazeroso e ao mesmo tempo intrigante ato de simplesmente sentar e ver um filme.