Crítica | Os Farofeiros

“Não, não é Búzios não, é Maringuaba.”

Não há nada mais mercadológico que a comédia brasileira atual. Ao mesmo tempo, também não há nada mais ofensivo. Uma comparação com filmes “infantis”, em certos patamares, é um caminho mais simplificado de entendimento do que está acontecendo na indústria quando uma obra como Os Farofeiros é lançada. As animações tendem a ser “voltadas” para crianças, mas, em uma grande parte dos casos, estão longe de serem produções infantis. O Rei Leão possui uma envolvente “superficialidade”; a diversão pela diversão, número musicais grandiosos; porém não cisma com vícios de unidimensionalidade, entre outros. Existe um esmero em se trabalhar a narrativa, por exemplo. Os Farofeiros, por outro lado, se permite ausentar dessa obrigação de não ser um longa-metragem de uma nota só, por acreditar copiosamente que o seu público é incapaz de assistir a algo do tipo.

O problema não está nele, muito pelo contrário, mas nos realizadores, que ditam o que devemos assistir e, mais do que isso, brincam com as nossas percepções irresponsavelmente. Há uma hostilidade inerente a uma produção que manipula a ótica do espectador de uma maneira tão desonesta como essa. Indo além, Os Farofeiros debocha na cara dura do suburbano, usando estereótipos como pretexto para caricaturas, mas deixando-as por lá, nesse espaço que não vai além da camada inicial observável. Para um filme cheio de efeitos sonoros bocós, próximos ao que eram usados no Batman de 1966, dava realmente para se esperar algo além? O cômico é pastelão, mas a piada, na verdade, é direcionada a você, sobre você. É possível dizer, depois de algumas risadas, algumas verídicas e outras envergonhadas, que valeu a tentativa de se produzir uma farofada dessa?

Podemos, dessa forma, problematizar, com justiça, diversos aspectos relacionados à história de três famílias e um homem solteiro, todos passando as férias em um cenário presumidamente inóspito para a alegria. O dia-a-dia deles é parte de um objeto de “estudo”, caso seja possível se referir a uma ótica adoecida como uma pesquisa elaborada. O público, em consequência, se relaciona com os cenários apresentados. O relacionável, porém, se limita ao situacional e não ao comportamental. A conexão do público com as atitudes de certos personagens, levados ao exagero para propósitos de storytelling clássicos, não tem autenticidade. As figuras vestem o uniforme de uma caricatura passiva, que se mantém, até o final, da mesma forma como começou, indo para uma outra linha de pensamento apenas em última hora, na busca por uma lição “moral” cafajeste, solidificando o desastre da proposta e da execução.

Com a premissa de que Alexandre (Antônio Fragoso) está prestes a ser promovido, uma viagem completamente alucinada, mas crível, encontra barreiras quando ele recebe a tarefa de, ao retornar das férias, demitir um de seus outro três companheiros de viagem, como se não existisse mais ninguém na empresa a não ser essas quatro pessoas. O caráter de redundância, então, é uma constante por todo o longa-metragem, visto que, até o fim do segundo ato da obra, não há qualquer desenvolvimento de personagem, apenas a descoberta paulatina de que Alexandre vai ter de demitir alguém. Em seguida, observamos os três amigos tomarem uma postura idêntica, retirando a existência da individualidade caricatural de cada um para dar margem a outra repetição narrativa: a dos puxa-sacos fazendo coisas de puxa-sacos, sem qualquer distinção entre os puxa-sacos.

Enquanto isso, Antônio Fragoso reage roboticamente aos acontecimentos, emulando suas falas e não as interpretando. A própria veia humorística abraça os gags como um amigo de longa data, todavia, como a vida os distanciou, a intimidade sumiu e deu margem para um desconforto lúgubre entre o cinema e a comédia. O ostensivo tratamento da sexualização não descansa até ofender a todos. São vergonhosas as cenas dos homens – e das mulheres também – babando por figuras de gêneros opostos bonitas. Renata (Danielle Winnits), por algum motivo, retira a sua aliança do dedo no surgimento de um galã sem camisa, o que não faz o menor sentido. O que isso quer me dizer? Qual será o efeito dessa atitude em termos de enredo? Qual é o papel de Winnits no filme além do overacting excessivo, problemático algumas vezes, funcional em poucas?

Além disso, as pontuações relacionadas à homossexualidade nos revelam um texto amador, amontoado de frases de efeito, que ou só fazem sentido na cabeça de Lima (Maurício Manfrini), ou ofendem alguma pessoa. As trocas em cena entre ele e a personagem de Cacau Potássio, porém, são boas – a piada envolvendo o nome de seu filho é excepcional -, mesmo que distorcidas quando observamos nada além de exposição cômica. Afinal, apenas uma camada é atribuída para qualquer um dos personagens. Na conclusão do longa-metragem, contudo, o roteiro insiste em trazer uma visualização de que os personagens passaram realmente por uma jornada de aprendizado. Do que adianta se apresentar figuras indo de um ponto inicial para um ponto final se a caminhada de um para o outro é inexistente ou majoritariamente especulativa, sem base para que a coerência seja levado do papel para as telas?

A linguagem adotada também encontra muitos mais pontos baixos que altos, como o segmento dos mosquitos animados. São incompreensíveis as razões que levaram Roberto Santucci a pensar que tal “novidade” iria funcionar, completamente destoante do restante da obra. O ataque dos mosquitos, por si só, bastava, nessa associação do situacional com a vida particular do público da obra, que encontrará paralelo com a ofensiva maligna desses insetos. O diretor, pensando assim, experiente em tratar o povão como uma massa alienada, até que encontra certos elementos referenciais interessantes, como a cena de Winnits saindo de uma piscina grotesca. A personagem começa a falar, aleatoriamente, latim. Muito da aura levemente divertida concedido pelo ambiente curioso se perde, contudo, quando vamos falar de outra aresta problemática de Os Farofeiros.

Tanto o “arco” de Rocha (Charles Paraventi) quanto o “arco” de Diguinho (Nilton Bicudo) são machistas, mesmo querendo contrariar o machismo. Os realizadores, novamente, não entendem nada. Sem permitir que a sua filha seja olhada perversamente pelas pessoas, Rocha busca privá-la de contato com o mundo. No final das contas, ela não deveria ser culpada pelas atitudes dos outros e, portanto, essa é uma desconstrução que se faz, de uma maneira, obviamente, jogada, da mentalidade do personagem. A primeira nota, porém, é deixada de lado quando o próprio Rocha devora mentalmente a namorada de Diguinho, Elen (Aline Riscado). O texto de Os Farofeiros é completamente hipócrita, sem, nos finalmentes, julgar por definitivo o maior dos problemas: os homens que sexualizam o corpo da mulher perversamente. A ignorância está na base da obra.

Por falar nessa personagem, apesar de existir um interesse no roteiro em quebrar as concepções de beleza, presumidamente necessárias para um relacionamento amoroso funcionar, falta o tato, por parte do diretor, em se distanciar esse namoro exótico da eventualidade, meramente consequente do se fazer o certo. O que a obra faz: Elen, em última instância, se interessou por Diguinho simplesmente por ele não olhar para os seus peitos. Uma atitude que deveria ser regra torna-se o ponto primordial para um interesse amoroso? A uma mensagem passada por Os Farofeiros é bastante contraditória, impulsionada ainda mais para um lado negativo em razão da falta de química entre ambos os atores, o vago olhar da intimidade dos dois e a péssima performance de Bicudo. Mas tudo bem, eu dei tantas risadas… de desconforto.

Por último, a narração, sendo feita pela criança, é aleatória, pincelada sem coerência rítmica, e desnecessária, sem conferir nada ao conjunto que se perderia caso a obra tratasse a viagem como o mero presente. Mais uma vez, Roberto Santucci parece não entender nada de linguagem, mas é malandro o suficiente para elaborar artimanhas cinematográficas presumidamente poderosas. Os Farofeiros, enfim, contém uma suposta metalinguagem inteligente, diferente na teoria, visto a inércia de grande parte desses produtos comerciais em adentrar técnicas cinematográficas diferentes, mas prepotente no que tange ao conteúdo embasado nela. A crítica a quem crítica a comédia nacional não poderia ser mais problemática, mostrando a perversão da manipulação alienadora.

Em tal momento do longa, reitera-se uma zona de conforto, que diz muito da própria sociedade brasileira, inconformada com a existência de uma metamorfose ambulante. A comédia nacional está estagnada em um mesmo patamar há muito tempo. O que se deriva da agenda de lançamentos são obras indistintas. Como já apontado, o humor não precisa ser requintado, muito pelo contrário. O demérito não se encontra em uma fórmula que deveria necessariamente mudar, apesar de existir outras vertentes inexploradas por aqui, mas em uma fórmula tratada por olhos irresponsáveis, que subestimam a inteligência do público e não se atém a valores cinemáticos básicos que, por bem ou por mal, ajudam a contar uma boa história. “O cinema brasileiro é só sacanagem e violência”, é dito por uma personagem. Quem me dera se o cinema brasileiro fosse isso e não isto.

As caricaturas existem. A galhofa existe. O humor físico existe. Os Farofeiros tem todos esses aspectos, mas manipula suas características cômicas para que o espectador as veja como funcionais dentro de um escopo extremamente defeituoso. O pior não é nem isso, mas o caráter auto-indulgente, buscando justificar alguns deslizes e omitir a existência de outros. A obra não é nem humilde o suficiente para ser mais um retorno genérico a temática do pobre, em uma visão fetichista dos realizadores sobre uma classe, no final das contas, sendo humilhada, mas não sentindo. Santucci é, de certa forma, um grande gênio do mal. Qual é o fim de uma obra dessa? Rir? A risada precisa ser vazia, deslocada do restante do cerne, inoperante no que se refere a contar uma história? Questione, pois nesse caso, definitivamente não valeu uma tentativa dessa.

Os Farofeiros – 2018
Direção:
Roberto Santucci
Roteiro:
Paulo Cursino
Elenco:
 Maurício Manfrini, Cacau Protásio, Danielle Winits, Antônio Fragoso, Nilton Bicudo, Aline Riscado, Elisa Pinheiro, Charles Paraventi, Felipe Roque, Théo Medon, Melissa Nóbrega, Duda Batista, Ana Cecília Banal, Gabriel Rocha, Nathália Costa
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.