Crítica | Os Filhos da Meia-Noite

midnights children imagem destacada

estrelas 3,5

Todo mundo no mínimo já ouviu falar de Salman Rushdie. Afinal, ele é o autor britânico de origem indiana que, ao publicar Versos Satânicos, em 1989, atraiu a ira dos fanáticos religiosos muçulmanos, que passaram a colocar sua cabeça a prêmio. Mas, antes de alcançar essa dúbia fama, Rushdie já era celebrado na indústria literária e, em 1980, publicou o épico Os Filhos da Meia-Noite, obra bastante laureada por tratar de eventos históricos envolvendo a Índia ao longo de décadas de maneira indireta e sob o olhar de um homem que nasce exatamente à meia-noite do dia 15 de agosto de 1947, dia da independência de seu país do jugo britânico.

Esse homem, que é o narrador do filme (na voz do próprio Rushdie), conta a história de maneira cronológica, indo para trás até 1919, com seu avô, um médico, conhecendo sua avó, filha de um rico indiano de origem muçulmana. Produzido com base em roteiro do próprio Rushdie e da diretora Deepa Mehta, a fita é pródiga em criar atmosferas de alegorias, quase que de contos-de-fada, especialmente nesse encontro inicial do avô do narrador com sua paciente e futura esposa, em que ele tem que examiná-la sem ver seu rosto e através de um buraco cortado em uma colcha. Estranhamente surreal, mas facilmente crível ao mesmo tempo.

Mas o ponto nodal do épico de Rushdie é mesmo o nascimento de Saleem Sinai (Satya Bhabha quando adulto e Darsheel Safary quando criança) no momento fatídico da independência da Índia e na mesma exata hora do nascimento de Shiva (Purav Bhandare quando jovem e Siddharth já adulto), filho do mendigo Wee Willie Winkie (Samrat Chakrabarti). É que a enfermeira Mary (Seema Biswas), seguindo o conselho de um revolucionário por quem é apaixonada (historicamente, o momento é o de criação do Paquistão, fato que gerou o cisma que até hoje existe entre os dois países), troca os bebês, fazendo o rico tornar-se pobre e o pobre tornar-se rico, igualando a “balança”.

Acontece que reduzir essa mágica história a apenas esse aspecto é um crime. Saleem, como não demorarmos a descobrir, assim como todas as crianças nascidas nas 24 horas seguintes àquela meia-noite, tem poderes especiais e elas se falam em uma reunião de espíritos. Se Saleem apenas imagina tudo aquilo ou se tudo acontece de verdade pouco importa para a evolução da narrativa. O que é impossível é descrever a introdução alucinante de personagens ao longo das décadas e o trabalho surpreendentemente eficiente de Deepa Mehta em manter todos coesos, sem prejudicar mortalmente a experiência como um todo. Na verdade, o grande personagem da obra não é uma pessoa ou duas, mas sim uma nação: a Índia. E, de certa forma, também, “seus filhotes”, o Paquistão e, mais tarde, Bangladesh.

É a intercalação de momentos históricos significativos em uma narrativa envolvendo amores, paixões, desilusões, mortes, nascimentos que faz de Os Filhos de Meia-Noite uma agradável experiência cinematográfica. Mas tudo seria em vão não fosse o excelente trabalho de Giles Nuttgens na fotografia. Sentimos, pela escolha das cores e posicionamento de câmeras, o calor das mais diversas situações em que esse sentimento deve se sobressair, assim como a frieza dos momentos tristes. Vemos o nascimento de uma nação sob as lentes embaçadas de sonho, que criam uma aura sobrenatural a toda a película, tornando mais fácil aceitar o conflito entre transcedentalidade e realidade de algumas passagens criadas na obra original de Rushdie.

Acontece que, ao longo de seus 146 minutos, a projeção perde muito em fluidez. Se a primeira hora é de uma beleza estonteante, repleta de informações relevantes tratadas na tela com suficiente celeridade para prender o espectador à tela, a hora seguinte começa a perder o ritmo e os temas se repetem, o que contribui para um distanciamento da narrativa. Ainda que os 25 minutos finais novamente criem interesse pelos acontecimentos, uma montagem mais econômica e menos reverente ao texto original teria contribuído sobremaneira para que Os Filhos da Meia-Noite pudesse ser considerado uma pequena joia esquecida.

Do jeito que acabou ficando, o filme consegue ao menos aguçar a curiosidade sobre o trabalho de Rushdie e sobre seu personagem principal: o país de seus antepassados. É quando temos vontade de ver mais material histórico sobre a Índia, como Gandhi ou o fenomenal Passagem para a Índia. No meu livro, isso já é uma vitória para qualquer filme.

Os Filhos da Meia-Noite (Midnight’s Children, Canadá/Reino Unido, 2012)
Direção: Deepa Mehta
Roteiro: Salman Rushdie, Deepa Mehta (baseado em romance de Salman Rushdie)
Elenco: Rajat Kapoor, Vansh Bhardwaj, Anupam Kher, Shabana Azmi, Neha Mahajan, Dhritiman Chatterjee, Kusum Haidar, Zaib Shaikh, Charles Dance, Anita Majumdar, Samrat Chakrabarti, Shahana Goswami, Rakhi Kumari
Duração: 146 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.