Crítica | Os Guardiões (2017)

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Tendo infestado o cinema hollywoodiano, a horda de filmes de super-heróis certamente acabaria se alastrando por outros países. Eis que Os Guardiões, resposta da Rússia para os longa-metragens americanos do subgênero, chega aos cinemas, nos entregando uma versão genérica de Os Vingadores, apresentando-nos a um material feito exclusivamente para os cinemas e não baseado em nenhuma revista em quadrinhos pré-existente. Qualquer um que tenha assistido aos trailers dessa obra já poderia ter alguma noção do que veria aqui e já adianto que o resultado final é tão assustador quanto o seu material promocional.

Depois de uma breve introdução precedendo a cartela do título (que aparece uma segunda vez pouco depois), que nos mostra, rapidamente, a criação dos heróis em questão, somos apresentados ao cientista August Kuratov (Stanislav Shirin), que utiliza seus poderes elétricos para tomar conta do arsenal militar sofisticado desenvolvido na Rússia, incluindo robôs autônomos de guerra. Para impedir os planos desse vilão, são reunidos quatro indivíduos com super-poderes, todos criados justamente por esse cientista: Arsus (Anton Pampushnyy), que pode se transformar em um urso; Khan (Sanjar Madi), uma espécie de ninja russo com super velocidade; Ler (Sebastien Sisak), que controla a terra ao seu redor e Kseniya (Alina Lanina), com o poder de tornar-se invisível na água. Juntos, eles são chamados de Os Guardiões.

Apesar de ser uma história de origem, o roteiro de Andrey Gavrilov deixa bem claro, desde o início, que não quer perder tempo com a introdução de seus personagens e já na meia hora inicial vemos todos eles juntos, como se tivessem sido chamados para uma festa e não para colocar a vida em risco – aspecto esse que tenta ser justificado pela sede de vingança que todos eles nutrem. Isso, naturalmente, gera uma grande artificialidade na narrativa, algo que apenas aumenta com a progressão da história, que não se preocupa nem um pouco em desenvolver seus personagens, pulando direto para a ação sem grandes floreios.

O grande problema é que a falta de refinamento do roteiro se estende, também, para essas sequências, todas muito artificiais, seja pelo excesso de (péssima) computação gráfica ou pelas coreografias risíveis, tudo sem qualquer peso evidente, fazendo parecer como se os atores simplesmente dançassem em tela. Em razão disso, Os Guardiões é um filme que sequer nos entretém, a não ser pelas involuntárias risadas provocadas pelo alto teor de ridículo do filme, que, muitas vezes, mais parece uma obra amadora com bom orçamento do que uma efetiva tentativa de competição com os blockbusters americanos.

Não bastasse isso, ainda temos atuações verdadeiramente tenebrosas, como se ninguém ali estivesse realmente disposto a embarcar nesse projeto, questão salientada pela direção de Sarik Andreasyan, que não sabe trazer qualquer carga dramática para suas cenas, chegando a parecer que a decupagem toda foi feita, de cabeça, durante as filmagens. Isso gera uma forte sensação de apatia em relação a tudo o que é exibido na tela, distanciando-nos ainda mais de qualquer chance de imergirmos nesse universo tão falso quanto os efeitos especiais ou personagens que compõem essa história.

A cereja do bolo é a trágica mixagem de som, que praticamente esconde necessários efeitos sonoros a favor da trilha, muitas vezes transformando as sequências em péssimos videoclipes, tirando, claro, o já quase inexistente peso dramático da fita. É como se o designer de som não soubesse quando exatamente empregar o silêncio, inserindo-o nas situações mais inapropriadas e criando um resultado que causa grande estranhamento no espectador, a tal ponto que esse problema fica evidente mesmo considerando todos os outros que já fazem o máximo para estragar essa obra.

Essa resposta russa aos filmes de super-heróis americanos, portanto, nada mais é do que uma aventura vazia, não sendo, sequer, capaz de nos entreter. Antes mesmo da metade da projeção já torcemos para que ela acabe. Trata-se de uma verdadeira tragédia, que erra em todos os sentidos possíveis, contando com apenas um ponto positivo: a alta probabilidade de jamais vermos uma sequência dessa versão genérica de Os Vingadores.

Os Guardiões (Zaschitniki) — Rússia, 2017
Direção:
 Sarik Andreasyan
Roteiro: Andrey Gavrilov
Elenco: Anton Pampushnyy, Sanjar Madi, Sebastien Sisak, Alina Lanina, Valeriya Shkirando, Vyacheslav Razbegaev, Stanislav Shirin
Duração: 89 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.