Crítica | Os Incríveis 2

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Começar a sequência de Os Incríveis, animação aclamadíssima lançada em 2004, da exata ponta solta deixada pelo original é uma jogada empolgante para muitos espectadores familiares com esse universo de super-heróis e super-vilões, ao mesmo tempo que a decisão tomada, selecionada entre as centenas de ideias que o espaçamento de 14 anos entre uma obra e outra proporcionou, também revela uma zona de conforto de Brad Bird, retornando à direção e ao roteiro. O cineasta, conhecido por projetos extremamente bem recebidos como O Gigante de Ferro e Ratatouille, assim como o longa-metragem que introduziu a família de super-heróis mais incrível de todas para o mundo, olha para o futuro mais próximo possível quando o assunto é criatividade, retomando pontos narrativos da obra anterior para explorá-los no novo, reconstruindo o antigo. Apesar de uma passagem de tempo ter sido possível, similar a que aconteceu nos bastidores, redefinindo todas as relações entre os membros do núcleo familiar e, portanto, virando de cabeça para baixo as dinâmicas existentes no cenário sessentista do filme, Brad Bird opta por jogar no seguro, mas não faz uso dessa facilidade por descaso, utilizando-a como possibilidade para renovar e encorpar as temáticas relacionadas ao item que realmente importa: a família.

Em uma segunda instância, contrapondo as temáticas envoltas do cerne familiar às temáticas inerentes ao sub-gênero retratado no filme, o de super-herói, Os Incríveis 2 mostra uma instabilidade ao querer discursar sobre direitos dos heróis e a ambiguidade existente nas atitudes deles quando em combate. Dessa forma, o próprio antagonista do filme, o Hipnotizador, não guarda muitos segredos ao espectador que sejam realmente inéditos ao sub-gênero ou que funcionem na mesma proporção que as abordagens sobre família. O roteirista Brad Bird, nesse caso em específico, não parece estar tão inspirado quanto no filme original. Mesmo assim, o longa-metragem tem seus méritos na exploração da mitologia do super-herói, trazendo ao personagem Winston Deavor (Bob Odenkirk), que está lado a lado de sua genial irmã Evelyn Deavor (Catherine Kenner) em importância dentro da empresa que preside, a relação de idolatria do civil pela lenda, em específico, pela Mulher-Elástica (Holly Hunter), convidada a protagonizar um programa intencionado a tornar os heróis legais novamente. Dessa forma, a trama principal do filme, guiando-o em termos de cenas de ação e adrenalina, apesar de não ser incrível, continua funcionando, sugerindo reviravoltas interessantes e motivações compreensíveis, além de ser um prato cheio de entretenimento da mais alta qualidade.

A responsabilidade carregada por esses profissionais – ou seriam marginais – é trabalhada pelo argumento, mas o filme ganha a carga emocional e o envolvimento real do espectador quando a narrativa é levada para o lado do Senhor Incrível (Craig T. Nelson), rejeitado dessa fase inicial do projeto publicitário de Deavor. O protagonismo é compartilhado entre os dois personagens, mas em ambientes diversos. Portanto, o herói, que também é pai, permanece em casa cuidando de seus filhos, enquanto Helena, que também é mãe, combate o crime pela cidade, na esperança de que a aceitação pública possibilite os heróis se tornarem uma realidade novamente. A ideia é realmente muito boa, subversiva, compreensível sob um ponto de vista narrativo, mas o sucesso da iniciativa não permanece apenas no campo hipotético dela, visto que Brad Bird cria e recria situações que possibilitam um entendimento, por parte do espectador, dos distintos significados existentes em uma inversão dessas, evidenciando o impacto de Os Incríveis 2. Nas ruas, a Mulher Elástica sente-se engrandecida, adorada por vários outros super-heróis que enxergam o futuro nela, como é o caso de Karen (Sophia Bush), simpática nos diálogos que troca com a personagem. Em casa, o trabalho árduo também é uma constante para Roberto Pêra, tendo que lidar com as desavenças amorosas de Violeta (Sarah Vowell), os difíceis deveres de casa de Flecha (Huck Milner), além da inesperada descoberta dos poderes de Zezé – o ponto mais alto do filme.

As duas situações são colocadas para comparação e, muitas vezes, as problemáticas ao alcance do Senhor Incrível são mais desgastantes e complicadas que as dispostas à Mulher Elástica. A empolgação de Helena é celebrada pelo espectador, diante de cenas de ação maravilhosas, de um capricho técnico invejável, mantendo a excelência da Pixar. Em cena marcante, a disposição de luzes, causada pelo Hipnotizador, contribui para um momento estético impressionante, chamativo e agoniante. Em termos estéticos, aliás, a criação de mundo de Os Incríveis continua formidável, melhorada ainda mais devido o alto nível da computação gráfica, aproximando a realidade do ficcional, próximo ao caráter estético dos quadrinhos dos anos 60. Em comparação ao longa anterior, Os Incríveis 2 explora mais os cenários suburbanos da cidade, com a noite sendo um ajudante na idealização das cenas. O cansaço de Roberto, por outro lado, também é muito bem explorado pela narrativa, com uma movimentação nos planos muito mais imperceptível, sugerindo tédio. Sendo assim, Os Incríveis 2 assume uma postura cômica ainda mais afiada que a do filme anterior, justamente por trabalhar a incompetência inicial de Roberto no que tange tomar conta da sua própria família.

O filme decide, enfim, abraçar sem medo uma vertente humorística ao trabalhar as dinâmicas familiares envolvendo Zezé, com um papel extremamente maior que o do original. Contudo, o personagem acaba, dessa forma, deixando Flecha um pouco de lado, enquanto que no caso de Violeta, o retorno impagável de Toninho Rodrigues (Michael Bird) impulsiona a presença da personagem. Além disso, nessa missão estabelecida para Roberto, ajudantes aparecem e permitem as cenas permanecerem espirituosas, sem cansarem de si mesmas, renovando-se, como é o caso da maior participação de Gelado (Samuel L. Jackson) e o retorno de Edna Moda, com voz do próprio Brad Bird – um prato cheio para risadas. O destaque dramático, porém, vai para o arco do Senhor Incrível. Antecedendo a primeira missão, Helena reencontra sua antiga moto, um fato desconhecido aos olhos de seu marido, negligenciando a carreira profissional da mulher que se casou. A ignorância do Senhor Incrível é posta à prova, com a frustração de um primeiro momento dando, aos poucos, lugar para um orgulho. A maior equipe, afinal, é a família. Sendo assim, Brad Bird retoma os personagens do mesmo ponto que o filme anterior parou, provando, com isso, uma habilidade em renovar as dinâmicas familiares do super-grupo, interessado na diversão, na comédia, no espetáculo audiovisual – a ótima trilha sonora de Michael Giacchino é notável – e, acima de tudo, nas relações humanas que descreve em cena.

Os Incríveis 2 (Incredibles 2) – EUA, 2018
Direção: Brad Bird
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Kenner, Brad Bird, Jonathan Banks, Michael Bird, Sophia Bush, Phil LaMarr, Paul Eiding, Isabella Rossellini, Bill Wise
Duração: 118 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.