Crítica | Os Incríveis

estrelas 4,5

É muito interessante que vários dos melhores filmes de super-heróis, sub-gênero hoje tão popular, sejam filmes que não foram realmente baseados em algum super-herói preexistente ou mesmo quadrinhos. São os casos de RoboCop – O Policial do Futuro, Darkman – Vingança Sem Rosto e Corpo Fechado. Eles têm toda a atmosfera de filmes do gênero, mas são criações independentes, cada uma delas livre das amarras de um material que, provavelmente, carrega o peso de um exércitos de fãs que fazem questão de comentar cada detalhe de seu herói preferido. E talvez essa qualidade independente é que transforme essas obras em bons exemplos do sub-gênero, muito superiores a dezenas de outras tradicionais, retiradas diretamente dos quadrinhos.

Os Incríveis é outro exemplo de um filme de super-herói sem super-herói, sem quadrinhos por detrás. E, sendo um desenho animado em computação gráfica, ele ao mesmo tempo se aproxima mais da aura desse tipo de obra, pois há total liberdade do diretor e roteirista Brad Bird para trabalhar sua narrativa como, também, permite críticas e comentários – além de diversas piscadelas – às obras que formaram a amálgama da fita.

E que obras seriam essas? Ora, para leitores de quadrinhos, essa identificação é imediata e as duas referências diretas que podem ser feitas é com Watchmen, seminal graphic novel de Alan Moore, de 1986, e com as histórias do Quarteto Fantástico, grupo criado por Stan Lee e Jack Kirby, em 1961. Mas é claro que outros vários paralelos podem ser traçados com outras fontes dos quadrinhos, mas não é meu objetivo aqui fazer isso.

De Watchmen, Brad Bird tirou, realmente, a essência de Os Incríveis. O mundo a que ele nos apresenta é um mundo que já teve super-heróis, mas que suas ações foram limitadas e, finalmente, proibidas, depois que ações judiciais pedindo indenizações foram movidas contra os heróis, pelos estragos causados às pessoas e cidades. Agora, os heróis vivem escondidos debaixo de suas identidades secretas até que o surgimento de um novo super-vilão os força a saírem da aposentadoria. É claro que o peso de Watchmen é retirado quase que por completo, mas Bird não procura fazer algo bobo, simplista. Afinal, estamos falando da Pixar em seu auge imaginativo, não é mesmo?

Para começar, o evento catalisador das ações judiciais contra os heróis, que nos é mostrado em um flashback que seria depois repetido no incomparável Up – Altas Aventuras, é nada menos do que o Sr. Incrível (voz de Craig T. Nelson) impedindo um homem de se suicidar. Brad Bird não poderia ter escolhido tema mais pesado que, apesar de ele não explorar muito – claro! – não deixa de dar o tom um pouco sombrio à história, mesmo que, depois, ele seja colocado em segundo plano. O mesmo vale para o sensacional momento em que Edna E. Mode (voz de Brad Bird, por incrível que pareça!) explica o porquê de ela não criar um uniforme novo com capa para o Sr. Incrível, outra referência direta a Watchmen e ao triste fim do pobre Dollar Bill.

Em sua vida civil, o Sr. Incrível é, apenas, o analista de seguros Bob Parr, completamente fora de forma, desgostoso com o emprego e casado com Helen Parr, a Elastigirl (voz de Holy Hunter). Ambos são pais de Dashiell ‘Dash’ Parr, um elétrico menino cujo poder é correr super-rápido, Violet Parr, uma tímida adolescente cujo poder é ficar invisível e criar campos de força invisíveis, além de um bebê chamado Jack Jack, que, aparentemente, não tem poderes. Esse núcleo familiar, claro, é a homenagem de Brad Bird ao Quarteto Fantástico, que representa a família super-heroística por excelência, com todos os seus problemas e também soluções.

O desespero do Sr. Incrível para voltar a ser “super” o leva a abraçar, cegamente, uma misteriosa oferta de emprego que, claro, é manipulada pelo super-vilão que mencionei, o Síndrome (Jason Lee), que tem ligação com seu passado. A estrutura narrativa criada por Bird não economiza minutos na explicação sobre o passado dos heróis, dos problemas causados pelas destruições, sobre a vida civil da família e também de Lucius Best, ex-Frozone (Samuel L. Jackson), melhor amigo de Bob Parr. São 40 minutos de puro brilhantismo e originalidade do roteiro, que estabelece o universo e catapulta a ação que, depois, fica confinada à ilha de Síndrome antes de voltar novamente à cidade.

O ritmo estabelecido pelo roteiro e pela montagem dinâmica de Bird e Stephen Schaffer vai em um crescendo impressionante até a chegada da família integral à tal ilha, momento que marca uma certa repetição das ações já vistas com o Sr. Incrível algumas vezes. Mesmo relevando-se essa questão, Bird, porém, faz questão de esticar a aventura e trazer a ameaça do lunático super-vilão para a cidade grande, o que permite a entrada de Frozone e seu poder congelante novamente na narrativa. Esse é o momento em que o resquício de peso e de sobriedade do começo da história se perde completamente, abrindo lugar para uma gigantesca e genérica luta de nossos  heróis contra o monstro mecânico de Síndrome.

Os temas começam a se repetir, a ação se pasteuriza e entramos perigosamente no pantanoso terreno do “já vi isso antes”. No entanto, Bird consegue manter a chama da atenção acesa ao engrenar mais fortemente nas piadas e na ação exagerada, moldada para demonstrar todas as possibilidades da computação gráfica. Com isso, ele desvia a atenção do espectador do relógio e nos coloca novamente no meio da narrativa.

Os trabalhos de voz de todos os envolvidos, especialmente de Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sam Jackson e do próprio Brad Bird são de tirar o chapéu, demonstrando mais uma vez que a Pixar sabe realmente o que faz. O que me leva ao trabalho de design e de computação gráfica. Os Incríveis foi o primeiro desenho do estúdio com foco exclusivo nos seres humanos, deixando peixes-palhaço, brinquedos, insetos e monstros de lado. O risco era enorme e a saída foi criar geniais caricaturas dos personagens, como o tamanho gentilmente abrutalhado do Sr. Incrível, a elegância da meia-idade de Elastigirl e a magreza esperta de Frozone, além de, claro, a tampinha Edna E. Mode e o design infantil/nerd de Síndrome. São personagens que nos cativam imediatamente e o roteiro nos faz nos importarmos por cada um deles.

Além desse cuidado no design, que coloca seres humanos “reais” na tela mesmo que eles sejam caricatos, há, ainda, todo o trabalho da computação gráfica da Pixar em renderizá-los com toda a textura que a tecnologia da época permitia, além de criar ambientes – a cidade, a ilha, a casa dos Parr – com muita personalidade e originalidade. Reparem desde o “batmóvel” do Sr. Incível na sequência inicial até seu hilário carro civil. Reparem no exagero asséptico da base secreta de Síndrome, com uma sala de jantar ao lado de lava escorrendo pela parede e, mais para a frente, o ataque do robô de Síndrome à cidade. Não há nada estranho ou fora do lugar. A Pixar novamente triunfa em seu domínio da tecnologia.

Com todos os elementos positivos, o alongamento do filme e a repetição de situações se tornam aspectos menos relevantes nessa obra super-heroística da Pixar, que trabalha elementos tão bem estabelecidos no universo dos quadrinhos e acrescenta diversas camadas de pura diversão. Os Incríveis diverte, emociona e surpreende em iguais medidas e Brad Bird, que antes dirigira o fantástico Gigante de Ferro, acerta mais uma.

Os Incríveis (The Incredibles, EUA – 2004)
Direção: Brad Bird
Roteiro: Brad Bird
Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Samuel L. Jackson, Jason Lee, Dominique Louis, Eli Fucile, Spencer Fox, Sarah Vowell, Elizabeth Peña, Brad Bird
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.