Crítica | Os Inocentes – 1ª Temporada

Simon Duric e Hania Elkington, criadores e desenvolvedores de Os Inocentes, arriscaram alienar seus potenciais espectadores com uma série que demora muito a engrenar e que apresenta uma premissa e um mistério que, nesses dias cínicos de hoje, trazem pouca novidade. Apenas minha teimosia e o fato de que a temporada tem apenas oito episódios me fizeram chegar até o final, o que, no final das contas vale o esforço, pois a obra fica consideravelmente mais interessante e engajante a partir de sua segunda metade.

A série usa como premissa dois adolescentes apaixonados que colocam em movimento um plano de fuga no dia em que June McDaniel (Sorcha Groundsell) completa 16 anos, já que seu pai adotivo, sempre extremamente rígido, prometera levá-la – e a seu irmão mais velho Ryan (Arthur Hughes) com uma deformidade no braço e sofrendo de agorafobia – para uma ilha perdida na costa escocesa sem nenhuma razão aparente. Harry Polk (Percelle Ascott) e June, então, em pleno processo de fuga para Londres com Ryan acobertando-os, depara-se com uma estranha e atabalhoada tentativa de sequestro de June no meio da estrada, o que serve de gatilho para uma descoberta bizarra: a menina tem o poder de transmutar-se na pessoa em que toca. Não é, apenas, um poder mutante simples como o que super-heróis como os X-Men têm, mas sim algo que, para acontecer, exige não só uma espécie de transe catapultado pelo medo por parte de June, como deixa a pessoa em quem ela se transforma em um estado catatônico até que ela volte ao normal. Em outras palavras, não é algo que nem de longe justificaria o uso de um collant colorido com um X bem grande no peito para fazer justiça por aí, em uma pegada estilo Corpo Fechado sobre poderes sobrenaturais.

O realismo da premissa é interessante e bem-vindo, mas o problema inicial é a distância, frieza e, diria, até mesmo antipatia do casal de pombinhos. Demora para que a paixão deles realmente funcione em cena, com a química entre Groundsell e Ascott só desabrochando depois que alguns episódios já passaram. Mas ela vem e ela acaba sim mostrando que os dois jovens atores têm potencial e que seus personagens realmente parecem o que a premissa promete. No entanto, ultrapassado em esse aspecto, há a estrutura narrativa que é cansativa em razão de sua repetição. Ela é, basicamente, composta de encontros dos dois com pessoas que não conhecem e que se oferecem a ajudar, mas que guardam segredos por trás. Com exceção do primeiro encontro deles, com o assustador (mas muito burro) Steinar (Jóhannes Haukur Jóhannesson), que é o gatilho para a descoberta do bizarro “poder” de June, e que funciona como o proverbial aviso que todos os pais dão aos filhos na linha de “não confiem em estranhos”, todos os demais esticam demais o conceito da “inocência” da dupla, como o título indica. Afinal, mesmo considerando o confinamento da garota, era de se esperar que a lição com Steinar a tornasse pelo menos minimamente cautelosa, com o mesmo valendo para Harry. Isso se glosarmos o fato de que eles continuam fugindo desesperadamente de suas respectivas famílias mesmo com June transformando-se como se transforma e considerando que eles não exatamente têm sentimentos antagônicos a seus familiares.

Paralelamente aos eventos na Inglaterra, somos apresentados a uma idílica ilha (não é exatamente uma ilha, mas ela é chamada assim) em meio a um belíssimo fiorde norueguês onde moram três mulheres com as mesmas habilidades que June passando por um tratamento para controlar as transformações capitaneado por Bendik “Ben” Halvorson (Guy Pearce). Se a fotografia das sequências na ilha britânica mergulham de cara no lado soturno e sombrio, enfatizando a claustrofobia da situação impossível de Harry e June, na Noruega ela enfatiza a impressão de paraíso, com um filtro suave que empresta aquela sensação de sonho constante, com os quatro em uma harmonia ímpar. No entanto, a conexão de Ben com Steinar não é escondida e, por isso, sabemos que há algo podre por ali e que muito aos poucos vai sendo descortinado.

Ainda que o elenco consiga desenvolver-se, notadamente com a participação crescente de um Guy Pearce sinistro, mas que nunca deixa entrever de verdade o que seu personagem quer, a “resolução” do arco narrativo é estranha e, quando começa a acontecer efetivamente – com todos já reunidos na ilha misteriosa – torna-se meteórica, o que trai o ritmo anterior e ao mesmo tempo traz uma certa ilogicidade e um anti-clímax de certa forma irritante, quando finalmente entendemos o que Ben quer. Mesmo que relevemos esses problemas no final, há que levarmos em consideração que há um efetivo encerramento de uma história que, infelizmente, abre espaço para, literalmente nos 10 ou 15 minutos finais, uma outra correria comece para abrir novamente um caminho para “puxar” uma segunda temporada. É como se a temporada original tivesse sido pensada não como uma série, mas sim como uma minissérie ou série limitada e que, depois de mostrada aos produtores (leia-se investidores), um final escancaradamente aberto tivesse que ter sido costurado às pressas. Era de se esperar um gancho para uma nova temporada? Claro que sim, pois ninguém é tão inocente quantos os protagonistas. O problema é a maneira forçada e, mais ainda, razoavelmente divorciada de todo o restante, com que isso acontece. As mesmas situações desses minutos finais poderiam servir de início de uma nova temporada, sendo desnecessário deixar tudo tão aberto assim para criar aqueles sentimentos bobos de desespero por saber qual será o destino dos personagens.

Os Inocentes, mesmo com seus problemas, é uma série competente em criar atmosfera e em explorar tanto seu elenco júnior como o veterano. Mas é particularmente difícil mergulhar na história, sentir-se fisgado por ela, com a necessidade provável, em muitos casos, de pelo menos metade de sua duração ter que ser desbravada com insistência para que o espectador possa chegar em seu recheio que, porém, não será maravilhoso, apenas adequado.

Os Inocentes (The Innocents, Reino Unido – 24 de agosto de 2018)
Criação: Simon Duric, Hania Elkington
Direção: Farren Blackburn, Jamie Donoughue
Roteiro: Hania Elkington, Simon Duric, Stacey Gregg, Corinna Faith
Elenco: Sorcha Groundsell, Percelle Ascott, Sam Hazeldine, Nadine Marshall, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Laura Birn, Ingunn Beate Øyen, Arthur Hughes, Guy Pearce
Duração: 401 min. (oito episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.