Crítica | Os Intocáveis (1987)

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A Lei Seca dos Estados Unidos, ou Prohibition, que durou de 1920 até 1933, foi um período em que a produção, o transporte e o consumo de bebidas alcoólicas eram vetados por todo o território norte-americano. É neste contexto, mais especificamente no ano de 1930, que se passa este Os Intocáveis, filme dirigido por Brian De Palma. A trama acompanha Eliot Ness (Kevin Costner), um agente federal que chega à cidade de Chicago para combater a venda ilegal de bebidas, cuja é arquitetada e comandada pelo chefão Al Capone (Robert De Niro). Após uma tentativa de apreensão que resulta em fracasso, o recém-contratado policial resolve montar uma equipe para batalhar contra a venda de bebidas alcoólicas – equipe esta formada por Jim Malone (Sean Connery), George Stone (Andy Garcia) e Oscar Wallace (Charles Martin Smith). Juntos, os quatro homens formam um grupo que passa a ser conhecido como Intocáveis.

Escrito por David Mamet e baseado no livro de Oscar Fraley e Eliot Ness, e na série de televisão The Untouchables (1959-1963), Os Intocáveis é um filme que trata seus personagens como verdadeiros heróis americanos. Pouco importa para o roteirista contra o que exatamente eles lutam, pois o que vale é o fato de que eles enfrentam algo que é errado perante a Lei; neste aspecto, o grupo que dá título ao filme representa a Lei na sua forma mais pura e correta. E isto é formidável, tendo em vista que o título que o grupo recebeu foi em função justamente da firmeza dos seus integrantes frente às tentativas de suborno e a pressões de diversos tipos que sofriam de variados membros da sociedade (desde políticos até os próprios colegas de profissão).

Aproveitando esta abordagem feita dos personagens, De Palma não mede esforços para que o espectador os enxergue da maneira heroica com que foram concebidos. Assim, usando como muleta a evocativa trilha sonora de Ennio Morricone, é uma pena que em alguns momentos o cineasta escancare esta característica do material que tem em mãos, como quando o grupo faz uma visita repentina aos Correios da cidade. Neste sentido, o diretor também pesa a mão na própria concepção do universo de sua obra: se por um lado as ruas de Chicago são retratadas de tal forma que surgem maiores, desabitadas e mais limpas do que o habitual (indicando o quão menor a população era naquela época), por outro ele exagera na exposição do estilo de vida representado pelo american way of life tão em voga nos anos 1920 e 1930 – e as cenas embaladas pela trilha de Morricone que envolvem a família de Ness são particularmente desconfortáveis de se ver.

Mas se a trilha é mal utilizada por De Palma nestes instantes, o mesmo não pode ser dito do restante do filme. Seja na construção de momentos mais tensos e agitados, seja em momentos mais sentimentais e tocantes, o cineasta acerta em cheio, e o trabalho do genial compositor é irrepreensível e de grande importância para o funcionamento da narrativa.

Novamente quanto à estratégia dos realizadores do filme em enxergarem seus personagens como heróis, não há duvidas de que, se há alguém que consegue construir um policial pai de família com um tom heroico que funciona sem soar batido e clichê, este alguém é Kevin Costner. O ator surge em cena na pele de seu Eliot Ness com enorme carisma e com um ar pacífico, calmo e determinado, de tal forma que é praticamente impossível não aderir à sua causa. E se Andy Garcia e Charles Martin Smith pouco podem fazer em seus limitados papéis como, respectivamente, George Stone e Oscar Wallace – basta que saibamos que eles estão ali para fazer o bem –, o mesmo não se pode dizer sobre Sean Connery como o veterano Jim Malone, em um trabalho que lhe rendeu o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Interpretando seu papel de maneira natural e confortável (o que é importante para que não desconfiemos de tudo o que sabe), Connery entrega uma atuação enérgica e intensa, mas sem, com isso, abrir mão do carisma e do humor na composição de seu personagem – o que faz com que seus momentos de raiva e fúria surjam ainda mais perigosos para os capangas de Capone.

E por falar em Al Capone, um dos maiores gângster de todos os tempos, é uma pena que o trabalho que Robert De Niro entrega seja bastante irregular. Se o ator é hábil ao usar o humor para esconder a faceta impiedosa de seu personagem quando este está com seus subordinados, ele falha ao compor Capone quando este está em público, ao surgir sempre de maneira caricata e forçada (como se cada fala sua tivesse que ser uma piada), comprometendo o seu trabalho como um todo. Como se isto não bastasse, De Palma não consegue transmitir para o espectador o verdadeiro império que o poderoso gângster construiu – perceba que, ao longo da projeção, diversas cenas tentam ilustrar a influência de Capone em todos os lugares, mas sem alcançar a magnitude necessária para causar o impacto desejado.

Mas a principal característica deste Os Intocáveis é, sem dúvida alguma, a forma extremamente estilizada com que o universo e os personagens que o habitam são retratados: a câmera de De Palma é de um esplendor invejável, contando com movimentos elegantes e enquadramentos econômicos e memoráveis; os figurinos belíssimos de Marilyn Vance (fornecidos por ninguém menos do que o estilista italiano Giorgio Armani), em particular os ternos, possuem textura e composição de encher os olhos; e a direção de fotografia de Stephen H. Burum banha os cenários e os figurinos com cores quentes e intensas, tornando a experiência visual fornecida pelo longa um espetáculo à parte. Também, perceba o cuidado do departamento de arte do filme ao compor os cenários vistos ao longo da projeção, desde os luxuosos aposentos de Capone até as escadarias gastas da estação de metrô, passando pelo humilde apartamento de Malone.

O espectador não consegue desgrudar os olhos da tela. Não apenas pela estética apurada do filme, mas também pela direção precisa de De Palma. Além do ritmo envolvente que fornece ao seu trabalho, o cineasta demonstra domínio absurdo sobre a construção de cenas tensas e angustiantes – ironicamente, deliciosas de se ver. Assim, a cena que se passa no apartamento de Malone, onde uma câmera subjetiva é utilizada; os eventos que se desenrolam na casinha da fronteira dos EUA com o Canadá; e a icônica sequencia na estação de trem ilustram muito bem a habilidade de De Palma por trás das câmeras. E estas cenas são tão bem conduzidas que, infelizmente, algumas outras empalidecem diante delas — como a perseguição vista no terceiro ato.

E desta forma chegamos ao fim deste Os Intocáveis. É surpreendente constatar que mesmo tantos anos depois desde o seu lançamento, o filme não envelheceu em praticamente nada. De fato, o longa possui deslizes, mas para cada deslize existe uma estratégia certeira dos seus realizadores. Em suma, um trabalho extremamente vigoroso e recheado de energia, com um aspecto visual primoroso, uma direção hipnotizante, um elenco eficaz e diversos momentos memoráveis. Um grande trabalho dos anos 80 que sobreviveu bem ao tempo e continua sendo uma excelente pedida quando se trata de Cinema de qualidade.

Os Intocáveis (The Untouchables, EUA, 1987)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Mamet (baseado no livro de Oscar Fraley e Eliot Ness e no seriado The Untouchables)
Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson, Vito D’Ambrosio, Steven Goldstein, Robert Swan
Duração: 119 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.