Crítica | Os Invasores de Corpos – A Invasão Continua (1993)

estrelas 4

Invasores de Corpos, novela de Jack Finney publicada em 1955, possui caráter atemporal e graças a esta particularidade, nos permite visualizá-la em diversos momentos históricos, desde a sua versão de 1956 ao dinâmico filme de 2007. A obra de Finney é, salva as devidas proporções, shakespeariana, pois se encaixa em qualquer época e lugar. A primeira versão tinha o macarthismo e o medo do chamado Terror Vermelho e o segundo a contracultura e as questões políticas entre os anos 1960 e 1970.

Nesta terceira incursão há, mesmo que de maneira não proposital, alegorias para os medos sociais dos anos 1990, entre eles, a tensa questão da AIDS, uma celeuma cheia de incertezas na época. O filme aborda a inquietante viagem de Marti Malone (Gabrielle Anwar) de Washington para uma base militar interiorana. Ela está de mudança, juntamente com o seu pai, Steve (Terry Kinney), um pesquisador, além da companhia do seu meio-irmão e da indesejável madrasta. A viagem tem em vista uma oportunidade de trabalho cedida ao seu pai, baseada numa análise ecossistêmica.

No meio do caminho um acontecimento estranho demonstra que as coisas não vão bem. “Te pegam quando você está dormindo”, é o que um homem diz a Marti enquanto ela faz o seu intervalo de viagem em um dos sanitários do posto de gasolina. Ao chegar em seu novo lar, a mocinha flerta com Tim (Billy Wirth), o bonitão do pedaço, e faz amizade com Jenn (Christine Elise), a garota descolada da região.

Durante a viagem somos informados pela câmera eficiente de Ferrara que a jovem lê o romance O Jardim Cimentado, de Ian McEwan, uma obra que mescla elementos da tradição gótica inglesa e através de um tom áspero e visceral, demonstra o comportamento de jovens diante da ausência dos pais, mimetizando posturas adultas. Desta forma, tal cena curtinha traça uma ilação de forte caráter metafórico, sendo uma de várias ao longo do filme.

Para os que já conhecem a história não há muitas delongas: logo Marti descobrirá que está inserida em um espaço corrompido por uma invasão alienígena que transforma as pessoas ao redor em seres desumanos, sem emoção e capacidade de interação. Tal como uma espécie de reconfiguração do conceito de “comunidade imaginada”, todos se tornam semelhantes, sem o processo de individualização e separatismo típico da humanidade.

Graças ao excelente trabalho de direção do competente Abel Ferrara, no auge da sua carreira nos anos 1990, esta versão é bem concebida, dinâmica, reflexiva e inteligente. Foi uma época produtiva, com currículo preenchido pelos polêmicos O Rei de Nova York, Vício Frenético e Olhos de Serpente. Primeira produção em estúdio do cineasta conhecido por seus trabalhos independentes, o cineasta orquestra uma narrativa que centra os seus personagens em um microcosmo e neste espaço coloca os conflitos gravitarem.

Os alienígenas parecem materializar o psicológico perturbado dos seus personagens e a tensão circula em torno de uma família em degradante processo de desumanização. Adaptar a novela de Jack Finney para um espaço familiar em que a mãe morta acabou de ser substituída e situá-la numa base militar, local que geralmente não desperta desconfiança, foi uma jogada de mestre dos envolvidos na produção, num filme que pode não ser a melhor adaptação, mas sem sombra de dúvida é intensa e bem desenvolvida.

Os Invasores de Corpos – A Invasão Continua (Body Snatchers) – EUA, 1993.
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Stuart Gordon, Raymond Cistheri, Larry Cohen
Elenco:Gabrielle Anwar,Terry Kinney,Billy Wirth, Christine Elise, R. Lee Ermey, G. Elvis Phillips, Reilly Murphy, Kathleen Doyle, Forest Whitaker, Meg Tilly.
Duração: 87 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.