Crítica | Os Jantares Que Não Dei, de Bettina Orrico

Os Jantares Que Não Dei nos apresenta um percurso literário repleto de memórias e receitas.  Por meio de sua experiência no campo da culinária, bem como a formação sofisticada culturalmente, haja vista o seio familiar bem estabilizado socialmente, Bettina Orrico monta um painel de vinte jantares com personagens que participaram da sua vida direta e indiretamente. Ela recepciona, com vigor, amigos ilustres e artistas com os requintes da imaginação.

Como é isso? Essa deve ser a pergunta do leitor. Esclareço: em vinte refeições imaginárias, criadas para pessoas da mais profunda admiração da autora, somos apresentados às suas experiências culinárias, sempre com uma crônica prévia explicando brevemente como o artista da vez esteve na vida de Orrico. Construídos harmoniosamente, cada jantar reúne entrada, prato principal e sobremesas.

Ao longo das 170 páginas, a cronista nos oferta 100 receitas, esboçadas rapidamente numa primeira ideia para o livro em 1991, registrada em seu diário de anotações. Para Bettina Orrico, o segredo de um jantar bem sucedido é refletir sempre sobre o convidado. Quem você vai receber? Sua refeição precisa ser a “cara” do ilustre visitante. Em seu livro, passeiam Chico Buarque, Oscar Niemeyer, Zeca Baleiro, Beatriz Segall, Dorival Caymmi, Manoel de Barros, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Raul Cortez, Paul Bocuse e até mesmo pessoas da sua juventude, tais como a babá e cozinheira Maria da Conceição e Dom Paulo Evaristo Arns.

A escritora esteve com alguns desses convidados para o banquete. Outros fazem parte do campo da imaginação, numa mescla de ficção e realidade, questão delimitada claramente pelos relatos de Orrico. Chico Buarque ela conheceu pessoalmente em Roma. Beatriz Segall por meio de uma amiga, bem como os desempenhos da atriz em peças teatrais. Já João Ubaldo Ribeiro ela “conheceu” na leitura de Viva o Povo Brasileiro. Zeca Baleiro foi durante uma travessia de carro para o trabalho, surpreendida por uma majestosa canção que tocava numa rádio. Assim, os personagens gravitam em torno de receitas variadas, dentre elas, salada de feijão tricolor, doce de banana em rodinhas, cocada de forno, lulas refogadas, salada marroquina, etc.

Nascida em Salvador, na Bahia, a autora estudou na escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia e depois foi complementar sua formação em São Paulo. Depois, passou três anos entre a Itália, Portugal e Suíça, envolvida em exposições de pinturas, tendo a arte culinária como fazer paralelo e diletante, até que em 1973, ao receber um convite para produzir fotografias gastronômicas num projeto da Editora Abril, acabou se envolvendo com o processo e ficou “na casa”, tornando-se colunista de culinária na revista Cláudia, publicação direcionada ao público feminino.

Com ilustrações delicadas de Maria Eugenia e produção gráfica assinada por Luís Alvim, Os Jantares Que Não Dei peca apenas por trazer crônicas muito curtas, tendo foco maior nas receitas. Como dito no prefácio de Marcia Neder, editora da revista Cláudia, o livro “nos faz sentir o delicioso cheiro que emana do vapor inexistente”. Apaixonada pelo que escreve, Bettina capricha nas receitas, seu campo de maior prestígio, os pratos principais do conjunto da obra. Ela nos faz sentir o cheiro dos pratos, num convite para jantar. As crônicas, por sua vez, entradas desses jantares requintados, ficam um pouco a desejar, mas nada que estrague a experiência de leitura, um percurso leve e suave.

O foco da obra é a seguinte questão: se você tivesse oportunidade, para quem ofereceria um jantar? Eu, sem dúvida, também construí a minha lista enquanto lia o livro e escrevia essa crítica. Pensei em preparar algo para as atrizes Cláudia AbreuDeborah Secco, Rafaela Mandelli, Christine Baranski, Glenn Close, Jodie Foster, Nicole Kidman e Sandra Bullock, numa oportunidade para dialogar com as suas experiências dramatúrgicas. Como amante da música pop e da longevidade de Cher e Madonna, convidaria imaginariamente as divas para um jantar que sem viria acompanhado de questões sobre suas carreiras e produções.

Se nós podemos apelar para a imaginação, o mundo não tem limites, não é mesmo? Essa seria a minha oportunidade de dialogar com Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Pedro Almodóvar e Woody Allen, além de ter a honra de jantar ao lado de Baz Luhrmann e pedir que pausadamente, ele me contasse curiosidades sobre os bastidores de produção de Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Philip Glass também seria um convidado da lista. Com ele eu faria questão de conversar sobre a composição da enigmática trilha sonora do drama As Horas. E você, caro leitor, quem convidaria para um jantar imaginário?

Os Jantares Que Não Dei (Brasil, 2008)
Autor: Bettina Orrico.
Editora: BEI Editora
Páginas: 170.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.