Crítica | Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas

“Se o Aquaman pode ter um filme, qualquer um pode.”

“Vocês não são heróis de verdade”, diz o Superman, durante uma breve aparição. A mudança drástica de Os Jovens Titãs em Ação!, animação lançada em 2013, para a série original, exibida entre 2003 e 2006, irritou imensamente os antigos fãs do programa, deixando de lado qualquer vertente mais madura existente na clássica para abraçar uma comédia situacional extremamente colorida, mas sem grandes complicações narrativas, diminuindo duração e aumentando o nonsense. Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas, antes de tudo, entende essa situação da série com a parcela do público que a rejeitou, embora ainda permaneça com os olhos vidrados nas crianças, especialmente no trabalho sobre o nonsense – que, ainda assim, é perfeitamente adequado a um público mais adulto, preparado para doses espirituosas de cores e piadas infantis. Quando o longa-metragem prossegue por uma veia cômica auto-depreciativa, o verdadeiro motor narrativo da obra, que coloca os cinco personagens da equipe para desesperadamente tentarem ter um filme sobre eles mesmos, o olhar é diretamente direcionado para as pessoas que disseram que a nova série dos Jovens Titãs não é uma série de super-heróis de verdade.

Os diretores Aaaron Horvath e Peter Rida Michail, com isso, encontram uma natureza metalinguística para trabalhar os personagens, conversando diretamente com o espectador, até mesmo em usos contidos de quebra da quarta parede – todos excepcionais. Estamos falando, no final das contas, de um filme sobre uma equipe de super-heróis que quer tentar ter um filme. A maneira auto-depreciativa que o roteiro trata os seus protagonistas também pode ser levado em conta, a favor da obra obviamente, quando olhamos para a relação do espectador com eles, que se tornam automaticamente mais relacionáveis. A grande carta na manga da animação, contudo, é a sua vertente cômica quando voltada ao próprio universo cinematográfico de heróis, tanto o da Marvel quanto o da DCmuito além das piadas relacionadas aos próprios Titãs. Em seus momentos mais inspirados, Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas consegue ser mais engraçado – e, pontualmente, mais afiado – que Deadpool 2, comparação óbvia quando ambos os filmes são lançados no mesmo ano, embarcando em uma área da comédia que referencia a si mesmo como outras mitologias e universos da cultura popular.

A alma – não o conteúdo – das cenas pós-créditos do filme do Mercenário Tagarela, impulsionando essa comparação, é, particularmente, trazida para dentro da animação dos Titãs, o que não faz o menor sentido para um desenho voltado a crianças, mas funciona completamente bem, sendo uma das poucas vezes em que o filme trabalha os dois lados da barreira da faixa etária – a outra é no final, surpreendendo o espectador. Já as brincadeiras “mais fáceis” com esses universos, tentando encontrar problemáticas no humor do filme, são menores – mas ainda existentes – em Os Jovens Titãs em Ação! do que eram em Deadpool 2 – por exemplo, uma sobre o próprio Deadpool, presente nos trailers, que é, por falta de outros termos, manjada. Porém, Os Jovens Titãs em Ação! é, em alguns níveis, curiosamente mais ousado, contendo, desde a magnífica abertura do filme, até mesmo uma referência aos Muppets inesperada. Mas Os Jovens Titãs em Ação! é definitivamente uma animação para crianças, enquanto, Deadpool 2, por mais imaturo que fosse, envolvia referências sexuais, a drogas e muita violência gráfica. A faixa etária é, dessa forma, um enorme diferencial, mas não, necessariamente, uma barreira para a comédia.

Como uma segunda alternativa para o humor, o nonsense é a saída mais divertida para continuarmos a rir com os personagens, especialmente nos números musicais variados da obra – um deles é cheio de referências -, apesar da melodia e das letras serem pouco inspiradas. Uma das sequências, a psicodélica, até reitera, no final dela, essa quebra da barreira entre o infantil e o adulto. Ao lado disso, o trabalho visual da animação também é muito bem arrojado, encontrando espaço para, em cenas de ação, remeter, às vezes, aos traços da série animada do Batman. As cores também são imensamente propícias a uma criação visual exuberante. O envolvimento da animação com as crianças, o maior foco da obra, além desse, também encontra um segundo âmbito, apesar desse acabar criando certas resoluções cômicas repetitivas, como, por exemplo, a situação envolvendo o Homem-Balão (Greg Davies), recorrendo a um humor escatológico, diferenciado do restante do filme. Outras gags desse tipo, embora não sejam escatológicas, como a música que os Titãs cantam sobre eles mesmos ou a pronúncia do nome do antagonista, são muito mais interessantes.

A redundância, contudo, recai sobre a narrativa da obra, reforçando incessantemente que os Jovens Titãs não são heróis de verdade e cansando o espectador. Convencer Jade Wilson (Kristen Bell), a produtora dos filmes desses personagens, que eles são dignos para terem uma produção estreladas por eles é o mote para o desenvolvimento da narrativa. Ademais, Slade (Will Arnet) é o arqui-inimigo que os Titãs querem para eles – pois o grupo precisa de um antagonista -, mas seria o rival que eles merecem? Em razão do plano mirabolante que o personagem possui, a resposta é provavelmente positiva. Enquanto, em outras situações e filmes, uma arquitetação dessas seria infantil demais – e é -, aqui, a situação é completamente diferente, funcionando justamente por ser improvável e aleatória. Até mesmo a grande reviravolta da obra, extremamente previsível, convence pela solução cômica atrelada a ela. Ao passo que o grupo é escrachado por super-heróis, vilões e produtores, Robin (Scott Menville) é o mais afetado, sendo uma peça central desse tabuleiro. Os demais personagens, porém, acabam relegados a mais um conjunto do que uma individualidade. A dublagem em português brasileiro, porém, agrega bastante valor a nossa relação com a obra.

A despreocupação da obra encontra paralelo com a própria despreocupação dos Titãs em serem heróis de verdade. Quando as coisas mudam de foco, levando-se mais a sério, o maior problema do filme surge, sem conseguir valorizar as relações entre os personagens. O filme, de certa forma, é do Robin, porém, se a crise existencial do personagem funciona por entendermos, conhecidos dos quadrinhos, que o personagem é mais relevante que o Alfred, mas duramente mais subestimado, o longa-metragem em si não colabora para que qualquer vertente dramática funcione. Mesmo assim, Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas nunca consegue ser desonesto com o espectador, deixando claro a não-importância dada a, por exemplo, valores morais ensinados na conclusão de uma obra infantil. O filme continua a não se levar a sério, sem nem ao menos tentar vincular o Robin ao Batman efetivamente. O diálogo da despretensão com uma intenção discursiva, enfim, está longe da perfeição. Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas, novamente em uma comparação, tem algumas das mesmas falhas, proporcionalmente diferentes, que Deadpool 2 teve em relação ao valor dramático. Mesmo assim, a obra é, definitivamente, divertidíssima.

  • Contém uma cena pós-créditos. Muito boa, aliás.

Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas (Teen Titans Go! To the Movies) – EUA, 2018
Direção: Aaron Horvath, Peter Rida Michail
Roteiro: Michael Jelenic, Aaron Horvath
Elenco: Greg Cipes, Scott Menville, Khary Payton, Tara Strong, Hynden Walch, Will Arnett, Kristen Bell, Nicolas Cage, Jimmy Kimmel, Kal-El Cage, Halsey, Lil Yachty, Stan Lee, Wil Wheaton, Greg Davies
Duração: 84 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.