Crítica | Os Matadores (1997)

estrelas 4

Os Matadores é a prova cabal do que reforço constantemente com os estudantes de cinema a que me refiro cotidianamente nas aulas de componentes curriculares diversos: não é preciso efeitos especiais, orçamentos bilionários e grandes atrizes populares, mas vazias de conteúdo. Se você tiver um bom roteiro, uma câmera e várias ideias na cabeça, a sua produção pende a ir muito além das expectativas. Esta é a sensação ao conferir o primeiro filme de Beto Brant, cineasta crítico e com apuro estético aguçado, oriundo do campo dos curtas-metragens e bem sucedido no terreno industrial que começou a se aquecer nos meados da década de 1990, período que por convenção, intitulou-se Cinema da Retomada.

Lançado em 1997, com orçamento de U$400 mil, Os Matadores trata de dois segmentos narrativos. O de quem conta e o de quem ouve. Basicamente assim: na primeira vertente, um homem conta as artimanhas do matador Múcio (Chico Diaz), enquanto a segunda trata do rapaz que interpreta as narrações do contador. Apresentado em flashback, somos submetidos ao ambivalente personagem exterminador numa zona árida que fica na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. Ao passo que o filme avança, conhecemos a história da endinheirada (Maria Padilha) que mantém o caso com o matador, bem como as suas ações e a sua trágica trajetória.

Toninho (Murilo Benício) e Alfredão (Wolney Assis) trocam estas memórias locais enquanto esperam a encomenda para o abate numa região chamada Bela Vista. A premiada edição de Willen Dias se encarrega de concatenar o que é passado e presente, captando bem a densidade da narrativa, centrada na ambivalência do personagem interpretado pelo sempre ótimo Chico Diaz. Como apontado pelo cineasta na época do lançamento, ele não é bom, nem santo, nem mau, mas ambíguo, num perfil que o transforma numa miscelânea de perverso e generoso.

O roteiro foi escrito com base no conto homônimo de Marçal Aquino, um colaborador que sempre esteve presente nas realizações do cineasta. Beto Brant declarou, também na época do lançamento, que o conto do amigo nasceu de uma pesquisa realizada na região. “Marçal, gostei de você, você é um cara legal. Se tem alguém lá em São Paulo que você tem diferença, eu resolvo para você. Me arruma uma foto e não tem problema”. Com esse denso relato, Aquino aqueceu a sua escrita. Publicado na coletânea de contos Miss Danúbio, junção que tem como fio condutor temas como infidelidade, incomunicabilidade e a solidão, é uma das referências do contista brasileiro contemporâneo, tendo sido republicado em outra coletânea, intitulada Família Terrivelmente Felizes, lançada em 2001.

Como apontado anteriormente, o filme cumpre muito bem o seu papel enquanto narrativa fílmica, pois em paralelo aos elementos dramatúrgicos já mencionados, a produção demonstra cautela na construção dos elementos visuais. A direção de arte de Tulé Peake capta bem o clima necessário, juntamente com a eficiente direção de fotografia de Marcelo Durst e a trilha sonora de Andre Abujamra.

Com o bom material literário de base, a equipe pode empregar com eficiência  o que conhecemos no campo da linguagem cinematográfica como estética acre, isto é, filmes com aspectos rudes, mordazes, mesclados de componentes geográficos nada acolhedores, tampouco tomados por brandura, ao contrário, austeros até mesmo no comportamento dos personagens e nos espaços em que circulam, com destaque para os enquadramentos de um bar, o plano geral que capta os matadores numa cenografia árida, tal como as suas vidas, somadas a insalubridade dos ambientes internos, alguns iluminados por uma forte luz amarela que nos denota calor e incomodo.

Competente em seu oficio de diretor, Beto Brant possui uma história peculiar. Em seu relato no livro O Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90, de Lúcia Nagib, ele narra que morou desde sempre em São Paulo e tinha interesse em seguir pelos meandros da Agronomia, mas após ver um espetáculo teatral de um primo, se interessou pelos métodos de atuação, além dos estudos dramatúrgicos e criação de personagens. Daí nasceu o seu interesse por críticas sociais contundentes e densas, desaguadas no fluxo crescente do cinema brasileiro.

Com 90 minutos que mesclam momentos de adrenalina com pequenas pausas de marasmo. A primeira incursão de Brant no formato longa-metragem não decepciona e tem até um gostinho de road-movie. Seu maior desafio foi se adequar ao processo de produção de um filme mais longo, com cronograma inicial de cinco semanas, diferente da sua última realização, um curta-metragem formulado em dois dias. No ano seguinte, Brant se firmaria com outro filme bem conceituado no campo brasileiro, o tenso Ação Entre Amigos, produção que era apenas o preâmbulo do que seria O Invasor, outro ótimo filme que fez bastante sucesso em 2001, tema para outra reflexão.

Os Matadores — Brasil, 1997
Direção: Beto Brant
Roteiro: Lúcia Murat, Fernando Bonassi, Marçal Aquino,
Elenco: Adriano Stuart, Chico Díaz, Maria Padilha, Murilo Benício, Wolney Assis, Adriano Stuart, Stênio Garcia, Celso Frateschi
Duração: 118 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.