Crítica | Os Melhores Anos de Nossas Vidas

Apenas um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a produção cinematográfica americana apostou forte nas histórias de patriotismo e nacionalismo. Um caminho de certa forma natural e esperado, mas que não foi seguido pelo aclamado diretor William Wyler. Pelo contrário, em Os Melhores Anos de Nossas Vidas, ele aponta para as marcas deixadas pela guerra e para o trauma capaz de causar naqueles que dela participaram.

O filme conta a história de três veteranos que voltam para sua pequena cidade natal e precisam lidar com a rotina pós-guerra. O fim de uma guerra naturalmente origina a esperança da volta para os entes queridos, para uma vida normal. No entanto, Al, Fred e Homer logo percebem que não é bem assim. Já no táxi que compartilham podemos perceber que, cada um a seu jeito, tentam atrasar o reencontro com seus familiares. Nos próximos dias, eles se dão conta que tudo está diferente: as pessoas, os lugares, os preços, os comportamentos. Voltar da guerra é como sair de um coma cujas lembranças são vivas e trágicas.

O que temos diante de nós é, portanto, uma obra sobre desajuste, inadequação, desarranjo. Al tem dificuldades em lidar com o crescimento dos filhos e, consequentemente, com a passagem do tempo que ele não pode assistir e participar – acaba, então, encontrando na bebida o descarrego da frustração. Fred reencontra sua suposta esposa, que na verdade estava mais interessada em sua imagem de soldado do que em ter que encarar a realidade de estar casada com um veterano sem habilidades específicas, a quem resta voltar ao antigo emprego servindo soda em uma loja por $32,50 semanais. Já Homer se incomoda com a simpatia exagerada de sua família, a qual não consegue, inicialmente, disfarçar o choque com os ganchos no lugar das mãos do ex-soldado, perdidas em combate — o ator Harold Russell era um amador que de fato perdeu as mãos durante a guerra; ele venceu o Oscar de melhor ator coadjuvante por esse papel.

O próprio Wyler era um veterano de guerra, tendo servido o Exército americano na Inglaterra. Ele perdeu a audição de um ouvido em batalha. Talvez isso ajude a explicar como a história de Homer ganha um foco diferenciado: ele é o único que volta com uma marca “material” da guerra, e o fardo psicológico parece ser bem maior. Ele entra numa espiral defensiva na qual tenta de qualquer forma afastar sua noiva, supondo que ela não conseguirá lidar com sua nova condição.

Como um típico filme hollywoodiano dos anos 1940, Os Melhores Anos de Nossas Vidas confia muito na força de sua história. No entanto, a parceria de Wyler com o diretor de fotografia Gregg Toland — o mesmo de Cidadão Kane — cria um efeito de profundidade que permite a Wyler registrar a força de cada um dos três enredos individuais simultaneamente. Entrou para os manuais de linguagem cinematográfica a cena na qual ao mesmo tempo em que, num primeiro plano, Homer tenta aprender a tocar piano com seus ganchos, Fred faz uma ligação fundamental para o desenrolar de sua história numa cabine nos fundos do bar. O mesmo ocorre na cena final do casamento de Homer e Wilma, onde são colocados em foco tanto o suspense do “ele irá conseguir colocar a aliança?”, quanto a tensão sentimental entre Fred e Peggy.

Apesar de seus 170 minutos deixarem a obra um tanto arrastada, impressiona a capacidade de Wyler de não cair no épico sentimental. Pelo contrário, seus personagens não são mostrados como extraordinários, mas sim homens comuns tendo que lidar com uma cicatriz deixada por decisões questionáveis daqueles que detém o poder. É exatamente por essa força crítica contra um patriotismo banal, aliada à primazia e eficiência técnica do efeito de profundidade, que Os Melhores Anos de Nossas Vidas sustenta sua relevância atual.

Os Melhores Anos de Nossas Vidas (The Best Years Of Our Lives) — EUA, 1946
Direção:
William Wyler
Roteiro: Robert E. Sherwood (baseado na obra de MacKinlay Kantor)
Elenco: Fredric March, Myrna Loy, Dana Andrews, Teresa Wright, Virginia Mayo, Cathy O’Donnell, Harrold Russell, Hoagy Carmichael, Gladys George, Ray Collins, Roman Bohnen, Steve Cochran, Minna Gombell, Walter Baldwin
Duração: 170 minutos.

RODRIGO GIORDANO . . . Acredito que o exercício crítico é uma continuação da experiência artística; é como se não quiséssemos deixar o filme partir, mas mesmo assim nunca o alcançamos completamente. Formado em Ciências Sociais, e mundialmente conhecido como chato. Sempre me arrependo das notas que dou.