Crítica | Os Meninos Que Enganavam Nazistas (2017)

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estrelas 3,5

Baseado no livro autobiográfico de Joseph Joffo lançado em 1973, Os Meninos Que Enganavam Nazistas (no original, Un Sac de Billes ou Um Saco de Bolinhas de Gude, brinquedo que assumirá o símbolo de resistência da criança judia) mostra a Segunda Guerra Mundial pelos olhos de dois irmãos que precisam ir de Paris até a Zona Livre da França, onde deveriam encontrar-se com seus pais e irmãos mais velhos. Dirigido por Christian Duguay, o filme traz claras referências à primeira adaptação desta história para o cinema, em 1975, mas em outros aspectos, flerta com a visão que o diretor Louis Malle trouxe para a França ocupada em Adeus, Meninos (1987), tendo, igualmente, a perspectiva de crianças judias sobre o conflito.

Embora o filme comece com a França já ocupada, não existe ainda uma grande e agressiva força militar nazista matando, perseguindo e impedindo os judeus franceses a seguirem suas atividades cotidianas. Isso vem pouco tempo depois e a adaptação das crianças a esta nova realidade é um dos pontos da obra que mais marcam o espectador. Em uma das cenas, logo após os pais darem a missão aos filhos menores, para irem sozinhos até a Zona Livre, há um doloroso e rápido jantar que fica na nossa mente e que será recobrado pelo roteiro em momento mais adiante da fita. O caráter de road movie bélico e a inevitável dualidade deste olhar infantil — mesmo diante do momento histórico há oportunas e excelentes cenas de humor — tornam os personagens mais simpáticos e próximos de nós, de modo que é impossível não se apegar à história e não se emocionar quando os irmãos ou família sofrem e são separados mais outra vez.

Duguay realiza um excelente trabalho dramatúrgico com Dorian Le Clech (Joseph) e Batyste Fleurial (Maurice) e os próprios atores entregam excelentes performances, mantendo uma aplaudível interação que realmente nos convence de que são irmãos, ajudando o público a se aproximar de seus dissabores e sofrer com eles pelo que enfrentam ao longo do caminho. Na primeira parte, da saída de Paris até a chegada a Nice, o enredo tem um ritmo fluído e funciona quase sem problemas. A direção de fotografia majoritariamente escura e a grave trilha sonora contribuem para a fixação de uma atmosfera de medo, completando a ameaça histórica. Só após a chega à cidade litorânea, que traz consigo nova paleta de cores para a fotografia e interessante alteração nos figurinos (excelentes, o filme inteiro) é que o roteiro vai progressivamente diminuindo o ritmo, até chegar às sequências menos interessante da obra, que é a permanência dos irmãos em uma escola cristã e parte da prisão de Joseph no Excelsior Hotel, um antro de nazistas.

Sem exageros de planos gerais sobre paisagens e sem abuso de close-ups para tornar o sofrimento algo banal, o filme consegue engajar moralmente o espectador. O ato final, quando Jo está trabalhando como jornaleiro e Maurice, disfarçadamente, para a Resistência Francesa, marca a volta do longa aos trilhos, com um andamento orgânico das coisas, trazendo boas e más surpresas e mais alguns pontos de maturidade para os irmãos. A paixão de Jo pela filha do colaboracionista e a atitude “adulta demais” que ele tem nessa fase são breves incômodos que deixamos de lado quando levamos em consideração o arco maior, com momentos como a notícia da libertação da França, a volta de Joseph para Paris e a descoberta que encerra o filme em uma cena amparada pelo lirismo e simbolismo da bolinha de gude como perda da inocência, manutenção da promessa de querer viver e símbolo de resistência.

Questões como irmandade e humanidade em tempos de guerra; o papel da sorte (ou livramento divino) e a importância da família são elementos que deixam a película inspiradora e esperançosa, a despeito das perdas e tristezas. É um olhar para a guerra, para o horror atravessado por centenas de milhares de pessoas, mas também a demonstração de que a humanidade, os esforços em conjunto e a vontade de se ver livre de qualquer julgo é mais forte. O final do filme é amargo, mas daquele tipo de amargor que agrada e emociona. Por se tratar de uma história real, mesmo que consideremos a licença de adaptação e as mudanças de ações verdadeiramente históricas para tornar a fita mais atraente, o que temos em Os Meninos Que Enganavam Nazistas é um entretenimento que faz refletir. Apesar de todos os seus clichês e miolo não tão interessante quanto os dois atos iniciais, uma coisa é certa: será difícil segurar algumas lágrimas ao final.

Os Meninos Que Enganavam Nazistas (Un sac de billes) — França, Canadá, República Checa, 2017
Direção: Christian Duguay
Roteiro: Christian Duguay, Benoît Guichard (baseado no roteiro original de Jonathan Allouche e Alexandra Geismar e na obra de Joseph Joffo)
Elenco: Dorian Le Clech, Batyste Fleurial, Patrick Bruel, Elsa Zylberstein, Bernard Campan, Kev Adams, Christian Clavier, César Domboy, Ilian Bergala, Emile Berling, Jocelyne Desverchère, Coline Leclère, Holger Daemgen
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.