Crítica | Os Mercenários

estrelas 2,5

Se você estiver procurando um filme com alguma inteligência, boa atuação, talvez um romance ou algo infantil, por favor vá procurar em outro lugar. Afinal de contas, esse filme se chama Os Mercenários ou, em tradução direta do título em inglês, “Os Descartáveis”. Além disso, seu diretor é o nada sutil brucutu Sylvester Stallone, que também dirigiu Rocky 2, 3, 4 e 5 e Rambo 4, obras que, definitivamente, não estão na lista dos melhores de ninguém (ainda que certamente estejam na lista de guilty pleasures de muita gente!).

Somem a isso o fato que Stallone é, também, o protagonista de Os Mercenários, junto com outros sensíveis atores como Dolph Lundgren, Jet Li, Jason Statham, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin e Terry Crews. Aliás, cabe uma correção: essa gente nem pode ser qualificada como verdadeiros atores. Eles são canastrões musculosos cujas expressões faciais variam de “raiva” para “muita raiva”. Quando eles tentam chorar, como Stallone em Rocky I e II e no primeiro Rambo, dão lugar a um espetáculo que nos marca a memória, mas de maneira negativa, vale deixar claro.

Os Mercenários é um filme despretensioso, uma desculpa para reunir na tela atores de extrema fama durante a prolífica década de 80, que nos brindou com obras pitorescas e muito divertidas – e algumas genuinamente muito boas, até excelentes – como os Rambos (todos menos o último), Predador, Comando para Matar, Cobra e Duro de Matar. São obras que, para quem viveu a década e gostava desse tipo de divertimento, marcaram uma vida. Nunca me esquecerei da polêmica da censura em torno de Cobra e minha corrida ao cinema para assisti-lo antes que o tirassem do circuito. Não me esquecerei também meu pai considerando Comando para Matar um de seus filmes preferidos, ao lado de verdadeiros clássicos como Zorba, o Grego e Noites de Cabíria. Também não esquecerei da surpresa que tive quando da revelação do monstruoso rosto do predador no filme de mesmo nome. E os pés descalços de Bruce Willis atravessando um mar de vidro em Duro de Matar? Essas memórias cinematográficas me trazem um sorriso no rosto. E olha que não estou nem colocando aqui semi-trasheiras como Comando Delta e Braddock, o Super-Comando com Chuck Norris e O Último Dragão Branco e Ciborgue com Jean-Claude Van Damme.

Mas estou divagando. Stallone quis trazer de volta esses filmes bélicos e violentos da década de 80 e, com isso, juntando uma peça aqui e ali, teve a ideia para Os Mercenários. A trama? Vocês querem mesmo saber? Bom, o fiapo de trama, que, na verdade, pouco importa, conta a história de um grupo de, adivinhe, mercenários que saem pelo mundo para matar, destruir e explodir, não necessariamente nessa ordem. Eles são então contratados por Mr. Church (Bruce Willis em uma ponta – mais sobre ela em um minuto) para derrubarem uma ditadura latino-americana e eles fazem exatamente isso com o máximo grau de destruição gratuita, armas gigantes e mortes espetaculares. Como curiosidade, parte do filme foi feito em Mangaratiba, no Rio de Janeiro, e a brasileira Gisele Itié (péssima atriz, aliás) é a mocinha.

O filme é exatamente aquilo que se poderia esperar de uma ideia como essa, mas só se você não quiser algo inspirado. Ele cumpre a sua função de ser uma obra nostálgica, juntando toda a testosterona disponível. No entanto, o sensível desleixo em sua execução acaba incomodando e impedindo que ele seja um divertimento realmente eficiente, como foram os vários filmes da década de 80 que mencionei acima.

Para começar, os diálogos são idiotas ao limite, com frases de efeito sem efeito e piadas que não funcionam. Não é necessário um grande cérebro para escrever frases soltas um pouquinho melhores, mas Stallone, creio, estava muito confiante na desnecessidade de quaisquer outras considerações, tendo em vista o elenco e a contagem de corpos-por-segundo desse filme. Quando Stallone tenta escrever algo mais complexo (ele foi o co-roteirista), acaba criando o constrangedor momento em que Mickey Rourke (sim, ele está no filme também) faz um monólogo sobre os horrores da guerra. A lágrima no final, então, é de dar câimbras na barriga de tanto rir. Pena que não é para ser um momento engraçado.

Outro ponto que afeta profundamente a apreciação do filme é a qualidade da produção em si. Ficou claro que Stallone queria imprimir uma sensação de filme oitentista, mas tem filmes dessa época que, mesmo vistos nos dias de hoje, basicamente não têm falhas em termos de fotografia, efeitos especiais e superposição de imagens. Em Os Mercenários, há problemas claramente visíveis por todos os lados e isso mostra pouco caso e preguiça por parte de Stallone, algo que, por exemplo, não transparece tão obviamente no mais recente Rambo. Além disso, a direção é burocrática, com fotografia escurecida para tentar esconder os defeitos.

Mesmo com todas essas graves questões, Os Mercenários ainda consegue reunir um número razoável de cenas memoráveis, como o ataque aéreo de Statham e Stallone, os arremessos de faca de Statham, Crews usando sua delicada arminha que pulveriza corpos em série, Lundgren, o gigante sueco, saindo na pancada com Jet Li, o baixinho chinês, o míssil  arremessado à mão por Couture e a a perseguição de carros em que Stallone, mais uma vez, destrói um belíssimo bólido customizado (lembram do que acontece com o Mercury 1950 em Cobra?).

E, claro, não poderia deixar de fora o tão esperado momento Planet Hollywood. Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis contracenando pela primeira vez. É uma cena curta, completamente anti-climática e com a única boa piada do filme. Mas é um momento, digamos, histórico.

Em suma, Os Mercenários é uma diversão descerebrada aceitável para quem gosta do gênero, mas que tinha potencial de ser um clássico menor como são vários dos filmes que o inspirou. Ficou muito abaixo do que se poderia esperar, mas, mesmo assim, especialmente para os saudosistas, pode valer o preço do ingresso.

Os Mercenários (The Expendables, Estados Unidos, 2010)
Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Sylvester Stallone, Dave Callaham
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, Terry Crews, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Mickey Rourke, David Zayas, Giselle Itié
Duração: 103 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.