Crítica | Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe

O mais novo longa-metragem do diretor Noah Baumbach, responsável por filmes como A Lula e a Baleia e Enquanto Somos Jovens, exibido no Festival de Cannes em maio desse ano, acaba de ser lançado em streaming pela Netflix. Na trama, após se separar de sua esposa, Danny (Adam Sandler) deve enfrentar a retomada de um convívio com seu pai Harold (Dustin Hoffman), que mesmo alegadamente revelar-se como ausente em sua infância, não traz para si o intuito de um dia se redimir com seu filho. A predileção de Harold por Matthew (Ben Stiller), filho mais novo de três, é clarividente, colocando tanto Danny quanto a outra irmã Jean (Elizabeth Marvel) em segundo plano diante de seu olhar. Os dois, no entanto, não são movidos a essa condição de renegados, tomando a frente na organização de uma exibição do trabalho artístico de Harold, esquecido embaixo de poeira.

Pai de três filhos, Harold Meyerowitz é o centro do enredo, sustentando-o ao ser a peça-chave que interconecta as relações entre todos os personagens. Não é por menos que a grande estrela do filme é o veterano Dustin Hoffman, o qual oferece um retrato muito singelo da velhice, ainda mais contrastada com um passado de erros. O olhar do ator, ao ficar muitas vezes vago em tela, nunca deixa-se soar vazio. Hoffman conduz seu papel com maestria, transmitindo em sua performance um desconforto situacional; seu tempo em tela é muitas vezes aliado com algum desentendimento ou transtorno oriundo tanto de uma presumida ‘ingenuidade” acarretada pela velhice, quanto de uma frustração por não ter o reconhecimento artístico que alega lhe ser devido. Sem maquiar uma redenção para cima do personagem, Baumbach explora a predileção de pais por filhos de forma extremamente crua, realista, e muitas vezes identificável. O filme todo é bastante universal, assumindo uma postura que dialoga com o que muitos vivem na realidade. O passado de erros, no entanto, não substitui uma necessidade de perdão pulsante que permeia a obra, tendo Danny, primordialmente, tendo de encarar com outros olhos um homem que, mesmo em seus 80 e poucos anos, sempre o teve com desfeita.

Sendo assim, a verdadeira margem para as tensões em Os Meyerowitz encontra-se na tempestuosa relação entre Matthew e Danny, colocada em constante choque após Harold ser internado em um hospital por problemas sérios de saúde. Ben Stiller invoca muito bem a ideia dos filhos repetirem os erros de seus pais, levando para a tela um personagem frio, sem os mesmos pesares que Danny carrega nas costas. Como aproximador de Matthew ao público, o ótimo monólogo do personagem, perto do final do filme, é um eficaz indicativo da boa interpretação de Stiller, mas tal acaba sendo colocado no lugar errado, em uma cena dentro de um espaço não tão particular quanto deveria, em defeituoso contraste com o tom cômico que lhe é sobrepujado. A personagem de Elizabeth Marvel também é outra que acaba tendo seu peso dramático varrido para debaixo do tapete por uma ideia inicial erroneamente cômica.

Aliás, como um todo, o tom da obra possui deveras contradições, aliadas a significativas quebras de ritmo. A narrativa episódica, por sua própria existência, anuncia uma dificuldade a mais para o diretor, que deveria manejar muito bem tais “episódios” para que eles não tornassem o filme uma colcha de retalhos. Felizmente, Noah consegue dar um efeito mais orgânico ao seu longa pela maior parte do tempo de tela. Todavia, a montagem apresenta sinais sérios de desnorteação perto do final do filme, com fade-outs excessivos, desnecessários e desreguladores de ritmo. A utilização do lado cineasta de Eliza (Grace Van Patten), filha de Danny, como artifício de humor, é, apesar da tentativa de suavização do pessimismo que assola o filme, pouco crível, visto o teor pornográfico de suas produções, o qual não seria traduzido aos membros da família de modo tão acessível quanto fora.

A conexão entre Eliza e Danny é o que impulsiona o espectador em seus primeiros minutos, devido a excepcional cena de abertura do filme, na qual o personagem de Adam Sandler procura uma vaga para estacionar o carro, e um pouco mais à frente, no momento musical entre os dois. Nota-se, contudo, uma exposição do roteiro em partes como esta. Por exemplo, na frase “nós as escrevemos quando eu tinha nove anos.“; A “nova” informação (a música foi composta quando Eliza tinha nove anos) já estava subtendida indiretamente na própria canção (dada a sua melodia leve, a letra mais infantil e o verso “mamãe, papai e garota formam três“). Ademais, o vínculo entre pai e filha é deixado de lado, propositalmente, para colocar o foco em Danny, sendo relevante para a narrativa apenas o fato de que Danny fora responsável pela boa criação de Eliza, uma pontuação martelada diversas vezes no filme.

A interpretação de Adam Sandler é, como muitos veículos já apontaram, definitivamente uma surpresa, por mostrar um bom nível que não era mais possível se enxergar no ator. Sua atuação no medíocre Sandy Wexler opõe-se fortemente a esta, primeiramente, por não regurgitar sua ilusão de criança em corpo de homem, costumeira de seus filmes. Os exageros nos ataques de fúria de seus personagens ainda existem, melhores pontuados pelo ator e melhores justificados pelo roteiro. A elevação de seu ânimo para o estresse completo, entretanto, ainda apresenta um pouco de artificialidade, sendo todas presas à explosão abrupta, e nenhuma à raiva gradual. Sua performance quando mais íntima, de fato, convence muito, sendo intensificada pelo roteiro eficiente, que ainda apresenta bons desempenhos de Emma Thompson e Candice Bergen, além de uma participação hilária de Adam Driver.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe é mais uma produção do cineasta Noah Baumbach a trazer dinâmicas familiares para as telas. Dessa vez, o diretor pode não ter tido tanto êxito quanto em A Lula e a Baleia, mas consegue trazer um olhar extremamente válido a ser apreciado e refletido. Apesar da competente trilha sonora de Randy Newman e da tradicional fotografia de Robbie Ryan, o elenco é certamente o ponto mais alto da obra, que infelizmente acaba sendo enfraquecido por um roteiro repleto de falhas sutis, e por uma inconsistente montagem. A surpreendente performance de Adam Sandler e a sempre deslumbrante de Dustin Hoffman certamente irão valer a experiência, mas Baumbach, sobretudo, oferece das histórias de vida dos Meyerowitz um sadio estudo realista sobre questões familiares demasiadamente problemáticas, e ainda não solucionadas, mesmo em voga há tanto tempo.

Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe (The Meyerowitz Stories: New and Selected) — Estados Unidos, 2017
Direção:
Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach
Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Elizabeth Marvel, Emma Thompson, Grace Van Patten, Candice Bergen, Rebecca Miller, Judd Hirsch, Adam Driver, Sigourney Weaver, Michael Chernus, Gayle Rankin, Danny Flaherty, Adam David Thompson, Ronald Alexander Peet, Sakina Jafferey
Duração: 112 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?