Crítica | Os Novos 52 – Parte 1

A DC Comics iniciou, em 31 de agosto de 2011, sua maior aposta em muitos anos: a reformulação total de seu universo. Uma espécie de recomeço para todas as suas séries mas sem exatamente apagar completamente o que veio antes. Para fazer isso, selecionou 52 títulos entre já existentes e completamente novos e deu a eles um número um, incluindo a clássicos que nunca tiveram a cronologia zerada como Action Comics e Detective Comics. O primeiro título lançado foi Liga da Justiça e, então, nas 4 semanas seguintes, a editora lançou as demais 51 revistas.

Como características principais desse novo universo temos a reformulação da origem e de uniformes de alguns heróis clássicos (Superman é o que realmente chama mais a atenção pois ele perdeu a famosa “cueca por cima da calça”), a integração de universos diferentes dentro da continuidade normal (Monstro do Pântano do selo Vertigo, antes DC, definitivamente volta ao universo comum, assim como outros personagens) e uma espécie de “compressão temporal”, digamos assim, em que a premissa básica sobre os heróis no mundo é que eles não existiam há mais de 5 anos. As revistas são divididas entre aquelas que se passam no começo do estabelecimento dos heróis, época em que, de acordo com a premissa, eles eram temidos e odiados e outras que se passam hoje em dia, com os heróis já com sua reputação determinada.

Definitivamente, foi uma proposta arriscada mas que não deixava de ser interessante. É claro que, por detrás disso tudo, havia a sana de capitalizar em cima de propriedades que já não estavam dando tanto dinheiro, já que o lançamento de “números 1” sempre vende mais que o normal. É por isso que as revistas da DC e da Marvel sofreram tantas renumerações ao longo das décadas. Com o novo universo DC, 52 novos títulos “número 1” seriam despejados no mercado quase que simultaneamente, algo de difícil digestão pelo público leitor, especialmente considerando que se tratava de uma reformulação do Universo DC.

Mas a proposta acabou gerando muita publicidade e o primeiro número de Liga da Justiça, por exemplo, teve vendas de mais de 200 mil exemplares, algo incrivelmente alto para os Estados Unidos, mas que, se comparado com a nossa Turma da Mônica, que vende 400 mil por mês só da versão “jovem” da série, é bem baixo. Mas temos que considerar que, nos EUA, a forma de distribuição de quadrinhos é bem diferente. Com a estratégia de recomeço, a DC resolveu, também, pela primeira vez, lançar todos os seus títulos simultaneamente em formato digital, para o horror das comic shops nos EUA.

No entanto, existe uma desconfiança geral sobre a estratégia. Esse novo universo vem logo depois de uma estória envolvendo realidades paralelas com Flash, chamada Flashpoint e isso pode significar que a DC esteja, na verdade, fazendo uma espécie de test drive. Se tudo der certo, eles continuam com o universo novo. Se der errado, assim como o “sonho” de uma temporada inteira de Bob Ewing em Dallas ou como aquela tentativa fracassada de novo universo na Marvel chamada Heroes Reborn, eles voltam atrás apenas se aproveitando de elementos que “deram certo” no novo universo.

Como a Panini lançará, a partir de junho desse ano, os Novos 52 aqui no Brasil, achamos melhor trazer aos nossos leitores nossas impressões sobre cada um dos títulos lançados, bem como uma breve menção ao statusatual de cada revista. A proposta é apresentar, em quatro postagens, brevíssimos comentários sobre os títulos seguindo a ordem de lançamento semanal nos EUA ano passado. Vamos lá:

1. Action Comics # 1 (Grant Morrison, Rags Morales e Rick Bryant)

Essa revista talvez seja a que traz mais novidades. Ela enfoca o começo da “era dos heróis” e trata de Clark Kent ainda se adaptando aos seus super poderes. Ele não é exatamente Superboy, mas sim uma versão não tão adulta de Superman que nem mesmo uniforme usa. Veste uma bota de peão de obra, calça jeans, uma camiseta com o famoso símbolo e uma capinha pendurada no pescoço. Ele é totalmente seguro de si, mas ainda sangra, fica cheio de hematomas e não consegue voar, só pular que nem o Superman original. Muito boa essa caracterização, algo diferente para variar.

Como não poderia deixar de ser, Lex Luthor é apresentado e ele não foge tanto da caracterização mais moderna do personagem. Mas sua animosidade em relação à Superman parece ter uma origem diferente, mais relacionada com a origem alienígena do herói. Há boas estórias por detrás dessa intrigante premissa.

Essa vale o investimento (continua sendo publicada).

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2. Animal Man # 1 (Jeff Lemire, Travel Foreman e Dan Green)

Nunca li Animal Man antes. Nunca me interessou. Mas sei quem ele é: Buddy Baker, um cara que tem poder de se conectar com os animais e usar seus poderes. É o “Manimal” dos quadrinhos, com um grande “A” bem na frente do uniforme laranja tradicional que, na reformulação, torna-se azul e branco (mas o “A” continua).

De toda forma, a estória, escrita por Jeff Lemire do excelente Sweet Tooth da Vertigo é, no mínimo, intrigante, envolvendo um “defeito” nos poderes do herói, misturado com um macabro sonho que ele tem com sua família (ele tem mulher e um casal de filhos pequenos). A arte de Travel Foreman é um pouco estranha, mas não chega a comprometer.

Tem potencial (continua sendo publicada).

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3. Batgirl # 1 (Gail Simone, Ardian Syaf e Vicente Cifuentes)

Barbara Gordon está de volta ao manto da Batgirl mas, ainda bem, sua tragédia pessoal contada em A Piada Mortal não é esquecida, mas sim reiterada e reduzida no tempo, com base na tal “compressão temporal” que mencionei. Quem não conhece A Piada Mortal, sugiro fortemente a leitura, ainda que não seja essencial para entender esse número 1.

Livre de sua prisão pessoal e com um uniforme novo bem bacana, mas ainda próximo do original, Barbara resolve sair de casa para ter sua própria vida, ao mesmo tempo em que um novo e estranho inimigo chamado Mirror aparece com o nome dela na lista de alvos. A revista se desenvolve bem, com roteiro bem amarrado de Gail Simone e linda arte de Ardian Syaf.

Essa vale o investimento (continua sendo publicada).

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4. Batwing # 1 (Judd Winick e Ben Oliver)

Esse herói definitivamente não é do meu tempo. Foi criado em 2011 por Grant Morrison para a série Batman Incorporated e, agora, ele ganha uma revista solo.

Batwing é David Zamvimbi, policial do Congo (África) que, patrocinado por Batman, virou um vigilante mascarado, uma variação mais tecnológica do próprio homem-morcego. Nessa revista, ele tem que lidar com Massacre, um inimigo enfurecido que mata a torto e a direito. Trama bem objetiva de Judd Winick e arte bem mais ou menos de Ben Oliver.

Tem potencial, mas não muito (continua sendo publicada).

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5. Detective Comics # 1  (Tony Daniel e Ryan Winn)

 Escrito e desenhado por Tony Salvador Daniel aqui temos o tradicional Batman contra o tradicional Coringa, mas de uma maneira muito mais adulta e séria do que usualmente os vemos, pelo menos fora das graphic novels. Essa revista inicia alguns mistérios interessantes e tem um final bem intrigante que, se a DC seguir em frente dessa mesma maneira, pode gerar uma estória realmente épica e muito macabra.

Acertadamente, Batman é o herói que sofreu menos mudanças nessa reformulação toda. Manteve o uniforme e personalidade quase intactos além dos mesmos brinquedos tecnológicos e inimigos. Para que mudar algo que já estava dando certo, não?

Essa vale o investimento (continua sendo publicada).

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6. Green Arrow # 1  (J.T. Krul, Dan Jurgens e George Pérez)

A caracterização de Oliver Queen, aqui, é a de um Batman vestido de verde e com arco e flecha. Não é o Oliver Queen que me lembro. Assim, o resultado é extremamente clichê, ainda que a arte de Dan Jurgens com cores de George Pérez tente compensar um pouco a falta de imaginação do roteiro de J. T. Krul.

Um mínimo de roteiro teria ajudado muito essa revista mas o que vemos é uma repaginação do herói que retira dele todas as suas virtudes e acaba deixando-o genérico e sem qualquer apelo. Uma pena pois poderia ser muito mais do que é.

Não vale a pena ler (continua sendo publicada).

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7. Hawk  & Dove # 1  (Sterling Gates, Rob Liefeld)

Eu me lembro dessa dupla quando eles eram dois irmãos. Um deles – o Dove – morreu na famosa Crise nas Infinitas Terras da DC e meu conhecimento parou ali. E o interessante nessa revista é que “Crise” é mencionada como se tivesse ocorrido nesse novo universo. Será mesmo? Muito estranho.

De toda forma, essa revista é, basicamente, Hawk reclamando da vida o tempo todo e Dove guardando um mistério sobre sua origem.  No meio disso tudo, os dois brigam contra zumbis em uma trama muito pouco inspirada e desenhada nas (des)proporções, digamos, exageradas, de Rob Liefeld.

Não vale a pena ler (cancelada no número 8).

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8. Justice League # 1 (Geoff Johns, Jim Lee e Scott Williams)

Aqui, a proposta da DC é nos mostrar a origem da Liga da Justiça e, por isso, não apresenta, ainda, todos os seus componentes. É, basicamente, um embate de palavras entre Batman e o Lanterna Verde (encarnação Hal Jordan). Batman é o Batman de sempre, mas o Lanterna é caracterizado como um fanfarrão, que acha que é o cara mais poderoso do mundo. É interessante na primeira página, talvez na segunda, mas ler as gracinhas de Hal Jordan (roteiro de Geoff Johns) por toda a revista é um tanto repetitivo. Vemos, ainda, Ciborgue (que, na minha época, era dos Novos Titãs) em sua versão 100%  humana e, ao final, a promessa de um embate físico clássico, que pode ser interessante.

A arte, de Jim Lee, é fantástica como sempre e merece ser conferida.

Tem potencial (continua sendo publicada).

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9. Justice League International # 1 (Dan Jurgens, Aaron Lopresti e Matt Ryan)

Enquanto a Liga da Justiça é um grupo informal, sem sanção governamental, a Liga da Justiça Internacional é um grupo formado pelas Nações Unidas para combater ameaças mundiais. Como a ONU precisa de controle sobre as ações dos heróis, os escolhidos para a composição da Liga são heróis de 15ª categoria do universo DC: Booster Gold, Fire (uma heroína brasileira, com nome pouco inspirado), Ice (outra com nome patético), Vixen (seja lá o que seja isso), Rocket Red, August General in Iron (sério, isso é nome?) e Godiva (pelo menos nessa revista, a heroína mais inútil que já vi).

Há a participação do Lanterna Verde Guy Gardner, que compôs a Liga da Justiça Internacional naquela encarnação pretensamente humorística e profundamente irritante de Keith Giffen e J.M.  de Matteis.

Com tanto heroizinho porcaria, a DC não arriscou e martelou Batman dentro dessa Liga e tudo acaba ficando muito ridículo, culminando com a “ameaça” que eles enfrentam ao final.

Não vale a pena ler (cancelada no número 12).

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10. Men of War # 1  (Ivan Brandon, Tom Derenick e Paul Winslade)

Quando li que a DC iria fazer quadrinhos de guerra resgatando o Sgt. Rock lá da década de 50, gostei muito da idéia. E a revista nos apresenta a um experiente cadete Rock que só não sobe na carreira por causa de sua desobediência crônica. No entanto, ele é tão bom no que faz que tem o respeito de todos os seus colegas.

O começo é bacana, mas quando Rock vai para a missão principal, o roteirista Ivan Brandon introduz seres super poderosos (que apenas vemos de silhueta, menos mal) e aí a estória perde a graça. Um gibi de guerra deveria ser de guerra, ainda que tecnológica. Colocar seres super poderosos no meio retira a importância do Sgt. Rock. Mas vamos ver, de repente melhora.

A revista tem ainda uma estória extra sobre outro grupo de soldados que, por ser verdadeira e puramente uma estória de guerra, é melhor que a estória principal.

Tem potencial (cancelada no número 8).

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11. OMAC # 1  (Dan Didio, Keith Geffen e Scott Koblish)

OMAC é uma criação um tanto obscura de 1974 do mestre Jack Kirby. Talvez por isso, a arte de Keith Giffen e Dan Didio seja quase que completamente sugada do estilo “kirbyano”. Não é ruim. Ao contrário até, pois dá saudades.

Mas OMAC, sigla para One Man Army Corps, uma espécie de Hulk cibernético, tem uma estória bastante amalucada que não faz muito sentido, pelo menos não ainda. Vemos basicamente OMAC invadindo uma instalação de biotecnologia chamada Cadmus para acessar o mainframe. É só destruição e mais destruição, sem parecer uma estória minimamente completa. Talvez para quem tenha acompanhado estórias passadas desse sujeito, os detalhes se encaixem melhor, mas o que li não me atraiu. Se fosse só pela arte, tudo bem, mas arte bacana com estória fraca não dá.

Não vale a pena ler (cancelada no número 8).

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12. Static Shock # 1 (Scott McDaniel, John Rozum, Jonathan Glapion e LeBeau Underwood)

Estranha escolha para uma revista solo essa. Static (e não Static Shock como o título da revista) é um herói originalmente de um universo paralelo que já havia sido absorvido pelo universo DC. Não tem muita relevância, apesar de já ter ganhado até uma série animada própria.

De toda forma, a revista mostra Static em Nova Iorque lutando contra, basicamente, uma bola preta que ele chama de Sunspot. Ele parece o Homem-Aranha em termos de falar pelos cotovelos durante as brigas, mas com o sério agravante de só falar coisa chata, pseudo-científica. A trama complica mais para o final com a entrada de um grande clichê dos quadrinhos: um grupo secreto que quer eliminar o rapaz por que ele talvez saiba do “grande” plano deles. Pífio.

Não vale a pena ler (cancelada no número 8).

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13. Stormwatch # 1  (Paul Cornell e Miguel Sepulveda)

Stormwatch é um grupo de super-heróis criado por Jim Lee dentro do universo Wildstorm. Agora, o grupo é trazido e mesclado ao universo DC e tratado como uma espécie de equipe milenar de guerreiros que protege a Terra de ameaças alienígenas. A revista inteira mostra, principalmente, três dos heróis (um dele se revela como o Caçador de Marte, membro da Liga da Justiça) recrutando Apollo, que eles chamam de o mais poderoso dos humanos.

Como primeiro número de uma revista de um universo recomeçando, Stormwatch é hermética demais e com texto (de Paul Cornell) pouco atraente.

Não vale a pena ler (continua sendo publicada).

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14. Swamp Thing # 1 (Scott Snyder e Yanick Paquette)

O Monstro do Pântano é um dos personagens mais incríveis da DC. Nasceu na década de 70 em estórias de terror pelas mãos de Len Wein e Berni Wrightson, ganhou título próprio, sofreu uma fantástica reformulação na mão do gênio dos quadrinhos, Alan Moore e, com isso, “saiu” do Universo DC e foi parar no selo Vertigo, mais autoral. Sei que o mostro voltou ao universo DC muito recentemente em uma saga importante que não li e nem quero ler e, agora, volta a ter uma revista própria em seu universo original.

Alec Holland, o Monstro do Pântano mais famoso (já que o primeirão mesmo foi Alex Olsen) aparece em Swamp Thing # 1 vivinho da silva e sem sua persona de Monstro do Pântano. Ele desconfia, porém, que há algo de errado, mas pouco é desenvolvido nesse sentido na estória, ainda que Scott Snyder (o ótimo autor de American Vampire) deixe nas entrelinhas do ótimo roteiro que criou um vasto universo para explorar. A premissa básica é o surgimento de um monstro no deserto e alguns eventos estranhos que permeiam o universo DC logo na primeira página.

O defeito dessa estória é a necessidade de se ter Superman nela. É falta de confiança da DC em deixar o Monstro do Pântano realmente sozinho? Acho que sim. Mas espero que tenha sido algo introdutório apenas e que o azulão não apareça por essas bandas tão cedo.

Essa vale o investimento (continua sendo publicada).

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.