Crítica | Os Novos Mutantes #25 a 28 [Primeira aparição: David Haller, o Legião]

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estrelas 3,5

A revista Novos Mutantes surgiu para abrigar a nova geração de heróis e vilões com o gene X, um período que “coincidiu” com uma nova fase na vida do Professor Xavier e de alguns dos mutantes que resolveram ficar ao seu lado, após a quebra com o X-Men. No final da quarta e começo da quinta fase da revista, Chris Claremont (roteiro) e Bill Sienkiewicz (arte) vieram com uma ideia que chocou os leitores por dois motivos. Primeiro, por revelar um filho desconhecido de Charles Xavier. Segundo, porque este filho, David Haller, acabou se revelando um dos mutantes mais poderosos e complexos do Universo Marvel.

O personagem surge no arco formado pelas edições #25 a 28 da Novos Mutantes, e sua história basicamente domina a revista, deixando algumas linhas paralelas de lado, o que obviamente foi uma sábia decisão, pena que não utilizada na totalidade do arco. O resultado dessas poucas intervenções é obviamente negativo: ver interrompida a interessantíssima criação e desenvolvimento de Legião para blocos completamente insossos só contribui para a nossa antipatia em relação a esse lado do roteiro, mesmo que tenhamos a noção de continuidade que Claremont precisava manter.

Na edição #25, The Only Thing to Fear…, não existe praticamente nada em relação ao rebento descontrolado e poderoso de Xavier. Vemos o encerramento da história de Manto (Ty Johnson) e Adaga (Tandy Bowen), e só na penúltima página, como parte das notas de Moira MacTaggart, temos a apresentação rápida de um problemático paciente que conheceríamos muito melhor a partir da edição seguinte.

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Única página dedicada a David Haller na Novos Mutantes #25, sua primeira aparição nos quadrinhos.

Quando o arco de David realmente começa, o roteiro se preocupa mais em “esconder” o garoto do que qualquer outra coisa. Por isso o leitor deve se sentir insatisfeito com as amenidades e desvios no começo da edição #26, Legion, que sem muito aviso, troca de cenários físicos para ambientes mentais, confundindo a quem não estiver prestando muita atenção na narrativa e na confusa diagramação de Bill Sienkiewicz, que também não se destaca de maneira objetiva. O artista possui boas ideias de exposição, composição, colagens e cenários de destruição, mas no todo, seus desenhos de traços moles e finalização mais solta irritam um pouco. Nas primeiras páginas até gostamos da maluquice visual (principalmente nos desenhos de Warlock), mas depois, esse exagero enjoa.

Quando Xavier começa de fato a cuidar de David, o texto progressivamente ganha ritmo e engaja o leitor, que não consegue mais se desgrudar da revista. Uma das coisas que mais chamam a atenção é o imenso sofrimento de David, um adolescente autista, com milhares de personalidades em sua cabeça e uma confusão de identidade vinda juntamente com a manifestação de seus poderes, os quais ele não consegue controlar. Aqui também conhecemos algumas das personalidades do garoto, que se denominam “Legião”:

  • Jemail Karami, “o árabe”: terrorista anti-israelense que invadiu a casa de Gabrielle Haller, diplomata do Reino Unido em Israel, e matou seu parceiro Daniel Shomron, traumatizando David e fazendo-o abstrair a mentalidade dos homens que ele matou. Destes, a personalidade de Karami iria se destacar e aparecer com grande força nessa primeira história.
  • Cyndi, uma garota rebelde e desbocada que odeia ser controlada e confinada.
  • Jack Wayne, um adulto astuto, sacana e conquistador, com poderes de telecinese.

Além desses três principais, encontramos na mente de David diversas pessoas e diversos soldados demoníacos, atrapalhando a viagem do professor Xavier e aliados para tentar colocar ordem na cabeça do rapaz. O roteiro chega à fase final do arco com um personagem bastante complexo e difícil de se “domar”, algo que torna igualmente difícil a aproximação do leitor com ele, a despeito do fascínio. Ficamos impressionados pelo trabalho que Xavier teve para acalmar e ordenar os poderes do filho, além do fato de ele não ter jeito nenhum com o garoto após a descoberta.

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Depois do brainstorm (hehehe) pai e filho se encontram.

O fim da história não deixa as coisas fáceis para ninguém. Se durante toda a saga vimos David e Xavier lutarem contra a aflição e contra o desgaste de seus poderes (ou contra a própria morte de seus corpos físicos, devido a força do que acontecia no plano mental), notamos que esses mesmos elementos saem da camada psicológica para a vida real. Mesmo com algum controle conseguido para a situação de David, o grande problema permanece. O garoto ainda não sabe lidar com o imenso poder e sua relação com as (inicialmente) três personalidades ativas também se mostra problemática.

Posteriormente, descobriríamos que David desenvolveu inúmeras outras personalidades (só registradas são 1012, fora as que não possuem nome ou classificação numérica) e que ele é um mutante nível ômega, ou seja, não é alguém que gostaríamos de encontrar irritado no trânsito ou tentando aprender como fazer origami. Chris Claremont criou um verdadeiro “monstro do bem”, sem amarras, com rompantes emocionais dada a sua gama de identidades e de difícil abordagem. Embora o roteiro seja fraco no início, ele se torna interessante e inesquecível quando chegamos à mente de David. Legião já surge como um grande mutante.

Os Novos Mutantes #25 a 28 (New Mutants Vol.1 #25 – 28) — EUA, março a junho de 1985
Roteiro: Chris Claremont
Arte: Bill Sienkiewicz
Cores: Glynis Wein
Letras: Tom Orzechowski
Capas: Bill Sienkiewicz

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.