Crítica | Os Oito Odiados (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Para mim, Morricone é o melhor compositor que existe. Nem falo de filmes em geral, mas incluo Beethoven, Mozart, Etc. Ele é o melhor de todos!

– Quentin Tarantino, na coletiva em São Paulo

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

O lançamento deste álbum é um marco importante na vida dos cinéfilos. Primeiro, marca o retorno de Ennio Morricone para composição em um grande filme comercial, e segundo pois é a primeira vez que Quentin Tarantino trabalha com composições originais para um projeto (como bem lembramos, Django Livre trazia canções originais, incluindo uma do próprio Morricone). O longa que enfim uniu as duas mentes brilhantes foi Os Oito Odiados.

E o que Morricone faz aqui pode ser resumido a apenas um tema. Um tema brilhante, genial e que traduz musicalmente com perfeição a escalação da violência e tensão subindo que circunda os personagens confinados no Armarinhos da Minnie. Essa caminhada é feita com trombone, flauta, violino, violoncelo e uma sutil bateria em L’Ultima Diligenza di Red Rock, tema central que abre o longa em uma longa sequência de apresentação das paisagens congelantes. Com poucos minutos, todo o tom do filme está perfeitamente estabelecido: tensão, mistério e algo até meio maligno, com o trombone grave realçando o aspecto “odiável” dos personagens. Sem falar que, neste uso inicial, a percussão da faixa casa com o movimento de câmera lentíssimo no qual nos afastamos da imagem de uma cruz na neve.

As duas variações notáveis do gênero se dão por momentos similares, mas em pontos diferentes da narrativa. L’Ultima Diligenza di Red Rock, No. 2 evoca uma sensação de maior urgência e desespero, quando a diligência de John Ruth enfim chega à estalagem de Minnie. A outra é com I Quattro Passeggeri, onde também temos uma chegada de diligência em uma estalagem, mas agora o trombone pesado é deixado em segundo plano para favorecer o xilofone e a bateria, construindo uma atmosfera de mistério; já que é inteligentemente inserida após a grande reviravolta da trama, e o espectador anseia por descobrir quem são os viajantes desta segunda diligência.

Eu poderia continuar falando cena por cena, sobre como o tema central vai sendo alterado para se adequar à narrativa. Bem… Resta dizer que essa é a grande sacada da composição original de Morricone; assim como a trama se desenrola inteiramente em um único ambiente, mas são as relações entre personagens que vão ficando mais suaves ou mais agressivas, a trilha do mestre italiano os acompanha nessa caminhada de um tema só. É simplista, econômico, mas muito eficiente. Toda a temática de Os Oito Odiados está ali.

Duas exceções, porém, são bem específicas. L’Inferno Bianco fornece o tom caótico do sangrento clímax envolvendo os personagens, mantendo o tema central, mas com violinos mais dramáticos para antecipar a ação de um determinado personagem – e o desespero de seu oponente. A outra é La Lettera di Lincoln, que traz a icônica trompeta patriota dos EUA para a cena que fecha o cerco de uma subtrama, no caso a suposta carta de Abraham Lincoln que o Major Marquis Warren carrega consigo durante suas viagens. Vale salientar que, mesmo sendo uma escolha apropriada para uma cena envolvendo Lincoln, é com um tom de ironia que esta se desenrola aqui.

Mesmo sendo um longa de composições originais, Tarantino não seria Tarantino se não inserisse aqui e ali alguma canção fora de época para sua assinatura anacrônica. O primeiro exemplo é com a fantástica Apple Blossom, do White Stripes, que toca em um plano inusitado em que Daisy simplesmente encara ensanguentada e rindo a reação do Major Warris; um plano que dura quase 1 minuto, e a voz de Jack White é perfeita para oferecer uma pequena insight na mente de Domergue – e também lhe oferecer um pequeno momento de brilho. Por fim, temos There Won’t Be Many Coming Home, suave composição folk de Roy Orbison que embala os créditos finais. É uma escolha ousada acabar um banho de sangue como o que testemunhamos com uma canção dessas, promovendo uma reflexão sobre a própria violência. Uma catarse bem aplicada.

A união criativa de Tarantino com Morricone revelou-se mais minimalista e madura do que esperávamos, representando o próprio crescimento do diretor como artista. Com uma balada de um tema só, o mestre italiano compôs aquela que é facilmente a melhor trilha sonora de 2015.

The Hateful Eight: Original Motion Picture Soundtrack

Composto e conduzido por Ennio Morricone
Gravadora: Decca Records, Third Man Records
Ano: 2015
Estilo: Trilha Sonora

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.