Crítica | Os Outros

estrelas 5,0

Ao adentrar na narrativa do filme Os Outros, o espectador, mesmo diante do velho padrão da casa mal-assombrada, sente que está diante de algo diferente. Com cômodos soturnos, vultos sinistros e portas que insistem em ranger, a produção vai muito além do trivial acerca das histórias fantasmagóricas que a indústria constantemente nos oferta, algumas boas, outras ruins.

Os Outros faz parte do ciclo das boas, tamanha a excelência e sofisticação.  Logo na abertura, uma aula de condução narrativa audiovisual, somos apresentados ao ambiente em que a história de horror psicológico, claustrofobia e instabilidade mental vai se passar. Grace (Nicole Kidman) acorda de um pesadelo. Naquela manhã ela recebe a visita dos novos empregados, três figuras misteriosas, obedientes e disponíveis para as necessidades organizacionais da enorme casa.

Ao exibir cada cômodo, Grace trata de explicar detidamente cada regra. A iluminação na casa deve ser contida, pois a cada porta aberta, a anterior deve ser fechada, como se os personagens estivessem constantemente atravessando fases de um jogo. Mais adiante, a impetuosa gestora do lar apresenta os seus filhos Anne (Alakia Mann) e Nicholas (James Bentley), duas crianças com uma doença rara que os impede de ter contato com a luz do sol. Assim, entendemos os motivos que levam Grace a ter toda a rigorosa cautela com a circulação dentro da casa.

Sob regime de tensão, a casa é regida duramente por Grace, uma católica fervorosa pouco paciente e rígida. Compreendemos a sua tensão: ela está à espera do marido, Charles (Christopher Eccleston), um homem que ainda não voltou da guerra. As coisas, por sua vez, ficam mais tensas ao passo que as crianças começam a alegar que estão vendo e sentindo presenças estranhas em sua casa, o que indica que há fantasmas prontos para assustar aos moradores daquele espaço isolado e lúgubre.

Ao estrear em agosto de 2001, Os Outros surpreendeu a crítica e ao público, sendo aplaudido de pé em alguns festivais. Muito desse sucesso todo se aplica ao seu final “surpreendente”, com um plot twist bem conduzido, tal como O Sexto Sentido, A Vila ou Clube da Luta. Esse recurso, entretanto, não é a muleta que faz a narrativa caminhar. Ao contrário, apresenta-se apenas como um dos elementos de sofisticação do filme. Ao longo dos seus 105 minutos, o cineasta Alejandro Amenábar oferta ao espectador imagens de muita classe. No lugar dos sustos fáceis e das criaturas abomináveis que insistem em vir do mundo dos mortos para assustar personagens incautos, o roteiro preenche a produção de alegorias e situações que pedem alguma interpretação do seu público.

A trama, ao mostrar genialidade dentro de uma indústria cheia de vícios narrativos, concentra o seu poder na dimensão dos personagens e no clima de tensão de uma trilha sonora discreta, mas bastante presente. Concebida pelo cineasta que também assina a direção, a música é orquestrada com maestria, tendo os acordes mais altos levantados nos momentos certos, evitando os excessos de filmes que não se sustentam por sua história, mas por esses truques narrativos calejados.

Ao falar da trilha sonora, adentramos no campo estético de Os Outros. O clima de claustrofobia é estabelecido pelo uso dos planos fechados no lugar e na hora certa. Ao abrir os planos e aumentar a profundidade de campo em outros momentos, a produção preenche as imagens de névoas ou iluminação que torna tudo soturno e misterioso para o público que acompanha a condução do suspense, outro elemento bem costurado no filme, o que mostra que Alejandro Amenábar aprendeu com os bons: há um clima hitchcockiano em cena, apresentado através de algumas sutilezas da montagem.

Os Outros não depende de efeitos excessivos para funcionar. A fotografia de Javier Aguirre Sarobre é eficiente, bem como o trabalho de iluminação. Entre o preto e o laranja, aliado ao clima de sensibilidade ao sol, o filme mergulha nas sombras e tira daí quase todo o seu potencial narrativo. Some isso ao desenvolvimento dos personagens e compreenderá os motivos do sucesso da produção.

Nicole Kidman está soberba e como afirma o encarte do DVD, “volta para fazer a plateia suar frio”. Na época, a atriz estava envolvida num momento certeiro da sua carreira. Foi o período em que atuou em três dos melhores filmes da sua jornada artística: Os Outros, As Horas e Moulin Rouge – Amor em Vermelho. Envolvida na boa safra de roteiros, a atriz conseguiu mostrar versatilidade e entregou uma performance arrasadora para cada produção. No caso de Os Outros, ela emprega um bom tom, sem exageros, mas com muita firmeza. O seu personagem, aparentemente antipático, poderia ser um problema narrativo se a atuação não fosse boa. Mas alguns toques de afetividade a tornam digna de aceitação, afinal, trata-se de uma mãe que defende os seus filhos a todo custo.

O fio narrativo tenso e envolvente ainda conta com os filhos, personagens carismáticos e sufocados pela preocupação extrema da mãe. Os empregados também se destacam muito bem, causando a sensação de mistério em boa parte da narrativa, haja vista os seus olhares carregados de significação.

Na época do seu lançamento, algumas pessoas chatas insistiam em dizer que não foram surpreendidas, pois o final não é tão original assim, etc. Isso não importa. Diferente do que se convencionou fazer, há filmes que dependem exclusivamente do seu plot twist. Narrativas que caminham mal, com muitas falhas, mas ganham o apreço do público pela reviravolta surpreendente.

Acredito que o filme deve possuir uma unidade temática e conquistar o seu público pelo todo, não apenas por seu começo ou fim. Desta forma, Os Outros não depende do seu final, um misto de Ilusões Perigosas e O Sexto Sentido. Não precisa necessariamente ser “original” para ser bom. Basta, como já afirmei em outras reflexões, capitalizar em cima de boas ideias. Isso em si já é suficiente. E você, caro leitor, concorda?

Os Outros (The Others) – EUA/Espanha, 2001.
Direção: Aleandro Amenábar.
Roteiro: Alejandro Amenábar.
Elenco: Nicole Kidman, Fionulla Flanagan, Alakina Mann, James Bentley, Eric Sykes, Elaine Cassidy, Gordon Reid, Christopher Eccleston.
Duração: 101 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.