Crítica | Os Palhaços

estrelas 3,5

Em 1970, a TV italiana RAI encomendou a Federico Fellini um documentário sobre palhaços. Em acordo com o diretor, ficou determinado que Os Palhaços seria lançado originalmente na televisão, mas que o filme também teria distribuição cinematográfica e assim foi feito.

O que eu sinceramente duvido é que a RAI, mesmo conhecendo Fellini como conhecia, sabia que o resultado poderia ser chamado de tudo, menos, talvez, de documentário. Fellini, talvez em seu melhor exemplo de mesclagem de realidade com ficção, pois a realidade, em Os Palhaços, é efetivamente verdadeira, faz uma espécie de ode a esses artistas de circo, misturando aspectos biográficos seus, com encenações e com entrevistas e isso sem contar com o fato que Fellini e sua equipe de filmagem se inserem na narrativa também.

Tudo começa em uma sequência de sonho em que uma criança acorda ao som de fortes grunhidos. Ao se colocar na janela, observa que eles vêm do levantamento de uma gigantesca tenda de circo quase ao lado de onde mora. Lá dentro, ele tem seu primeiro contato com palhaços e outros artistas circenses, ensaiando.

Esse menino é Fellini, claro, que usa seu fascínio de criança para contar uma melancólica história que é muito mais sobre o fim da profissão do palhaço do que sobre o palhaço em si. Procurando entrevistar palhaços famosos na Itália e na França, Fellini mistura entrevistas espontâneas com encenações trabalhadas, sendo que todas elas com sua própria presença, como diretor, além de sua secretária/narradora lendo de folhas de papel para nós, espectadores, seu cinegrafista e seu especialista em som americano. É como se Fellini fosse o dono do circo e sua equipe fosse sua trupe de palhaços seguindo para todo o lado.

E, assim como na abertura, Fellini nos presenteia com outras imagens que misturam realidade e sonho. Em determinado momento, por exemplo, quando sua equipe está visitando um circo, chega ninguém menos do que a deslumbrante Anita Ekberg (A Doce Vida) que diz estar ali para comprar um felino, pois gosta dos grandes gatos. Sonho? Realidade? Encenação? Uma brincadeira particular?

Sem explicar absolutamente nada, Fellini continua procurando falar com palhaços famosos ainda vivos e a procurar imagens de shows de palhaços famosos já falecidos. É um pouco frustrante a pouca profundidade das conversas com os palhaços, a maioria pobre e esquecida, vivendo o resto de sua vida em lugares miseráveis, mas se entendermos Os Palhaços quase que integralmente como uma marcha fúnebre aos  palhaços que foram jogados de lado por uma sociedade cada vez mais fria, entenderemos a mensagem de Fellini.

Aliás, essa mensagem nos é marretada infinitas vezes pelo diretor e pelos entrevistados, sendo que Fellini ainda se refestela ao encenar uma gigantesca sequência final em que vemos literalmente “o enterro do palhaço”. O simbolismo é evidente demais e nada discreto e o número, ainda que interessante, acaba se arrastando infinitamente e, mesmo quando acaba, continua com outras pequenas sequências de encerramento. Sr. Fellini, entendemos seu amor pelos palhaços e sabemos que eles estão desaparecendo, mas isso fica claro nos primeiros 10 minutos de seu documentário, ok?

De toda forma, Os Palhaços pode ainda ser encarado como uma experimentação audiovisual, uma forma que Fellini chegou para empregar toda sua experiência em um filme de desafia convenções e rotulagens. Nesse contexto – o de experimentação – apesar de todos os pesares, Os Palhaços consegue triunfar, mesmo que, para isso, tenhamos que descobrir, por intermédio do fim do palhaço, que talvez o sonho e a imaginação tenham acabado também.

Os Palhaços (I Clowns, Itália/França/Alemanha – 1970)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Bernardino Zapponi
Elenco: Riccardo Billi, Federico Fellini, Gigi Reder, Tino Scotti, Valentini, Fanfulla, Merli, Carlo Rizzo, Colombaioni, Anita Ekberg
Duração: 92 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.