Crítica | Os Perdedores

O ano de 2010 foi particularmente prolífico para adaptações de quadrinhos do grupo DC Comics, ainda que pouca gente se lembre deste fato. Afinal, foram três filmes adaptados a partir de HQs menos conhecidas, em uma demonstração da variedade de obras disponíveis por aí. Primeiro, tivemos Os Perdedores, baseado em obra de Andy Diggle publicada entre 2003 e 2006 pela Vertigo Comics, depois Jonah Hex – Caçador de Recompensas, baseado em personagem de faroeste criado em 1972 e, finalmente, RED: Aposentados e Perigosos, graphic novel de 2003 e 2004 do selo Homage Comics da Wildstorm Comics, ambas debaixo do guarda-chuva da DC.

No caso da obra objeto da presente crítica – Os Perdedores – é curioso notar como ela já demonstra o que viria a ser a norma de Hollywood: todo ator mais conhecido acaba, de uma forma ou de outra, vivendo um personagem de quadrinhos. A febre dos filmes de super-heróis iniciada em 2008 ainda estava em seu começo, mas o elenco principal do filme, se olharmos hoje para trás, é composta unicamente de atores assim. Jeffrey Dean Morgan, que vive Clay, o líder e estrategista de um grupo de soldados altamente especializado, vivera O Comediante em Watchmen no ano anterior e viveria Negan de The Walking Dead e Thomas Wayne em BvS; Zoe Saldana é Aisha, misteriosa mulher que ajuda os Perdedores a se vingarem de Max, que os traíra na última missão deles na Bolívia e que encarnaria Gamora, de Guardiões da Galáxia e Mrs. Mollé, de I Kill Giants; Chris Evans como o embaraçosamente engraçado e especialista em tecnologia Jensen, coleciona papeis de quadrinhos, a começar com seu Tocha Humana de Quarteto Fantástico e a voz de Casey, de As Tartarugas Ninja – O Retorno e, depois, seu Lucas Lee de Scott Pilgrim Contra o Mundo e, claro, seu Capitão América do Universo Cinematográfico Marvel, além de Curtis no fenomenal Expresso do Amanhã e, finalmente, o soturno Idris Elba como o durão Roque, sempre em oposição a Clay, que encarnaria Heimdall no UCM e Moreau em Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança. Ufa!

Cada um dos personagens de Os Perdedores é um clichê ambulante. O chefe estrategista de bom coração, seu opositor, o engraçadinho e a femme-fatale. Os outros dois do grupo, Pooch (Columbus Short) e Cougar (Óscar Jaenada) são ainda mais clichê, verdadeiros arquétipos rasos de tudo o que já vimos por aí em termos de “grupos de soldados”, cada um com sua especialista e função limitada dentro da narrativa. E a produção é justamente isso: uma sucessão de situações clássicas de uma infindável lista de filmes do gênero de “pancadaria militar” que torna possível que o espectador cante a pedra basicamente de cada sequência.

Mas isso, em si, não é exatamente ruim. A ação inicial na Bolívia, que leva à traição e à sede de vingança encabeçada por Clay, com Roque querendo apenas ter sua vida de volta, de certa forma engana o espectador. Não que ela não seja óbvia, mas sim porque ela parece estabelecer um tom mais sério que, não demora, é traído por uma pegada bem mais leve e descontraída do roteiro de Peter Berg e James Vanderbilt que, porém, mantêm a cartilha da “missão impossível a ser cumprida por um grupo imortal de soldados de elite”. O saldo acaba, porém, sendo positivo, muito mais pelo carisma do elenco do que por qualquer outra coisa. Por exemplo, apesar de hoje ser muito mais comum ver Morgan vivendo personagens de coração enegrecido, sua versão “boazinha” é igualmente cativante, especialmente quando temos a oportunidade de vê-lo ao lado do sempre sensacional Idris Elba que, sem esforço, rouba as cenas em que aparece. Evans sempre teve um bom timing cômico e, aqui, não é diferente, com seu personagem bobalhão cumprindo sua função de nerd tecnológico que torce pelo time de futebol de sua sobrinha, com direito a camiseta rosa e tudo mais.

Entretanto, a direção de Sylvain White, diretor que, depois desse filme, migraria para a televisão, trata a obra como um videoclipe frenético em que o objetivo é engatar uma sequência de ação na outra, sem que o espectador tenha tempo de pensar muito no que está acontecendo. E, nesse diapasão, ele apenas entrega pancadarias seguidas de explosões seguidas de tiroteio – não necessariamente nessa ordem – com uma câmera hiperativa que emula o tipo de corte de milissegundo “michaelbayano” que muito mais irrita do que acrescenta alguma coisa. E não ajuda muito quando finalmente somos apresentados ao vilão Max (Jason Patric), que consegue ser ainda mais unidimensional que os Perdedores, em uma atuação que, longe de ser inspirada, é estranha, cheia de cacoetes e que nunca, em momento algum, ganha efetivo desenvolvimento pelo roteiro, mais parecendo um vilão mal feito e completamente esquecível de filmes de James Bond.

Não que não haja momentos bons em meio à mesmice, pois há. Toda a sequência inicial nas selvas da Bolívia com o grupo e as que lidam com o roubo de informações de uma empresa por Jensen são divertidos e inspirados minutos que, porém, estão perdidos em meio ao efeito “quanto mais melhor” que caracteriza Hollywood. Se pelo menos White não quisesse fazer vinhetas hiperativas que, juntas, têm um semblante de filme, o resultado poderia ser bem acima da média. E o mais interessante é que talvez a solução estivesse ali na própria produção, com o deslocamento de Peter Berg também para a direção, considerando seus filmes mais recentes nessa cadeira.

Do jeito que Os Perdedores acabou ficando, ele é sem dúvida uma oportunidade perdida que fica no denominador comum da diversão descerebrada padrão como tantas dezenas que existem por aí, tirada da completa mediocridade unicamente por seu elenco carismático (a quadra principal, claro) e por alguns bons momentos aqui e ali. Ao nivelar-se ao padrão baixo dos filmes de ação hollywoodianos, a adaptação não é exatamente uma perda de tempo, mas fica muito próximo disso.

Os Perdedores (The Losers, EUA – 2010)
Direção: Sylvain White
Roteiro: Peter Berg, James Vanderbilt (baseado em personagens criados por por Andy Diggle)
Elenco: Jeffrey Dean Morgan, Zoe Saldana, Chris Evans, Idris Elba, Columbus Short, Óscar Jaenada, Jason Patric, Holt McCallany, Peter Macdissi, Peter Francis James, Tanee McCall
Duração: 97 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.