Crítica | Os Pinguins do Papai

Pinguins papai

estrelas 3

Há tempos que Hollywood usa animais em filmes “família” de comédia para encantar os espectadores apostando na fofura e no carisma dos bichinhos. Espetacularmente, o truque simples provou uma eficiência jamais vista alavancando os lucros medianos dos filmes de comédia. Este movimento de “animalização” dos elencos estelares foi muito expressivo nos anos 90, mas existia desde os anos 50 com o seriado jumbo Lassie. Eu vivenciei esse evento e a Sessão da Tarde encontrou uma nova mina de ouro. Free Willy, Um Ratinho Encrenqueiro, Dr. Dolittle, Babe, Ace Ventura, Stuart Little, Jumanji e o arrasa quarteirão Beethoven e suas infinitas sequências são os melhores exemplos dos filmes que participaram deste movimento. Fracasso nas críticas, sucesso nas bilheterias. Nunca os opostos estiveram tão atraídos como naquela época. Contudo, o tempo falou mais alto e esse subgênero trilhou para a extinção. Outros filmes surgiram nos anos 2000 como Scooby-Doo e Garfield, mas o resultado não era o mesmo. E agora, em outra década, o tema ressurge com o amigável Os Pinguins do Papai.

Mr. Popper é um empreendedor da agitada cidade de Nova Iorque. Divorciado e sem tempo para os filhos, Popper dedica tudo de si para garantir o almejado sucesso na profissão. Os donos da companhia em que trabalha lançam um desafio para promovê-lo a sócio. Popper terá que convencer Mrs. Van Gundy a vender o único estabelecimento privado anexado ao Central Park. Extasiado, Popper aceita a fim de provar sua competência profissional exemplar. Porém, não contava com a inusitada herança que seu pai havia deixado. Chegando a seu apartamento, recebe seu presente com absoluta perplexidade – seis pinguins vivos. O que ele não espera é que essas elegantes aves deixem sua vida de cabeça para baixo mudando radicalmente sua rotina.

O roteiro de Sean Anders, John Morris e Jared Stern é baseado no livro homônimo de 1938 escrito por Richard e Florence Atwater. O espectador que espera uma retratação fiel do livro sairá desapontado. Os roteiristas praticamente esqueceram a obra original para encaixar a história ao séc. XXI. Com isso, conseguem entregar uma história relativamente interessante que prende a atenção do espectador.

A história certamente é inspirada nos filmes de Frank Capra, principalmente por A Felicidade não se Compra. Com tantas comédias inspiradas pelas obras do cineasta, o filme cai logo em clichês nos primeiros minutos (isso, claro, não aconteceu com os filmes do Capra). A mensagem que o roteiro transmite é a mesma de vários outros filmes: dê valor aos momentos realmente importantes da vida. Os conflitos também são clichês — o homem que não se relaciona com a família por causa do excesso de trabalho, a adolescente devota ao amor platônico não correspondido e a mulher que se arrisca em um relacionamento incerto.

O roteiro também peca pela previsibilidade do arco narrativo. Em filmes como este é óbvio que tudo vai acabar muito bem para os protagonistas, afinal ninguém quer traumatizar as crianças com histórias extremamente depressivas sobre pinguins. Também prevalece o antigo padrão de reviravoltas herdados do gênero. A criatividade somente aparece com alguns personagens e com os pinguins.

A assistente de Mr. Popper, Pippi, garante algumas piadas inteligentes graças à aliteração em P de suas falas. O porteiro do prédio em que o protagonista mora também garante boas risadas. Às vezes, os roteiristas arriscam algumas piadas carregadas de ironia, porém são raras na escrita. Eles proporcionam piadas para todos os gostos. Existem as piadas pastelões, sutis, escatológicas e as inteligentes. Cada um dos seis pinguins garante um estilo humorístico diferente. Capitã, Fedô, Lesado, Dengo, Bicão e Matraca são os pinguins de Mr. Popper.

Obviamente, as piadas escatológicas começam a cansar depois de certo tempo assim como as pastelões. Felizmente, o roteiro consegue cumprir dois conflitos interessantes. O único pinguim que possui um conflito é Capitã. Pelo menos, este se revela ser o único original e melhor arquitetado do filme inteiro. Já Mr. Popper tem uma narrativa secundária paralela. Mesmo que caia no clichê, o conflito parental entre o protagonista e seu pai desperta a curiosidade do espectador.

Apesar de ser clichê, previsível e obsoleto, o roteiro cumpre sua função. Existem poucas falhas e alguns empecilhos desnecessários na narrativa, mas isto não tira a diversão do filme. Os roteiristas apostam no carisma dos pinguins e acertam em cheio. Eles divertem a plateia a todo instante tornando a sessão rápida, fácil e divertida para os pequenos e também para os adultos. Eles até fazem uma analogia inevitável entre os pinguins e Charles Chaplin e uma inteligente relação entre eles com os filmes do ator.

É incrível notar como Jim Carrey melhorou em seu desempenho nos papéis, ultimamente. O ator evolui com seus filmes, apesar de ter regredido depois de O Show de Truman em Eu, Eu Mesmo e Irene e O Grinch. Depois de uma atuação imperdível em I Love You, Phillip Morris, Carrey retorna às telonas com um desempenho que segura o filme inteiro.

Sua atuação está mais contida e muito menos exagerada. As caretas típicas do ator raramente aparecem. Sua expressão facial está mais bem trabalhada e natural removendo aquela artificialidade cômica dos excessos do ator. A experiência com dramas faz com que Carrey consiga construir expressões de tristeza exemplares. Isso também é reforçado pela idade do ator. A velhice caiu muito bem para Jim Carrey. Graças às expressões faciais exageradas, o ator modelou linhas de expressão únicas e, com isso, proporciona uma dramaticidade interessante para a cena. Os gestos bruscos e rápidos do ator também aparecem em carga menor.

Ele também encontra oportunidade de improvisar em diversas cenas. Além disso, faz sua famosa imitação de James Stewart em determinada cena. A expressão corporal do ator não é tão trabalhada quanto a facial passando praticamente despercebida. Ela apenas ganha relevância no momento em que Carrey coreografa uma dancinha com seus pinguins ou quando imita os passos tortuosos das elegantes aves. Os gestos bruscos e rápidos característicos do ator continuam presentes.

Carla Gugino pouco desenvolve sua personagem. Não há a mínima relevância dissertar sobre sua atuação. Clark Gregg, o famoso agente Coulson da S.H.I.E.L.D. em filmes da Marvel, também não surpreende durante suas cenas. Ele encarna o fraco antagonista do filme. Gregg praticamente mantém a mesma expressão durante o longa inteiro e falha ao não conseguir proporcionar a importância da ameaça que seu personagem propõe para o protagonista.

Quem rouba a cena é a veterana Angela Lansbury. Sua atuação elegante e serena conquista em poucos instantes. Ophelia Lovibond também se destaca pelo atrativo do sotaque inglês refinado. Jeffrey Tambor, Philip Baker Hall, Madeline Caroll, James Tupper, Maxwell Cotton e William Mitchell completam o elenco. Todavia, a verdade nua e crua sobre este filme é que Jim Carrey o carrega nas costas.

Se todos os filmes de comédia tivessem o cuidado fotográfico de Se Beber, Não Case, seria mais interessante comentar este aspecto nesse gênero. Por mais incrível que pareça, Os Pinguins do Papai possui uma fotografia bem feita. Quem assina essa área importantíssima do filme é Florian Ballhaus que já está habituado a modelar a iluminação de filmes de comédia.

A iluminação bucólica de Ballhaus tende aos tons acinzentados, brancos, frios e pálidos. Essa palheta de cores combinada com a modelagem sutil e delicada de luz quase teatral combinam com o tema do filme. A história se passa no inverno de New York e os pinguins estão diretamente ligados ao frio. No início do filme, prevalecem os tons gélidos já citados, contextualizando a situação triste do impasse familiar que o protagonista vive. O resultado é bonito e clássico conversando com a imagem dos pinguins.

O único problema da fotografia é a insistência em não saturar nenhuma cor. Tudo é polido e higiênico o filme inteiro. Nem mesmo quando o protagonista está resolvendo o conflito familiar, as cores mudam prevalecendo o estilo monocromático da fotografia. Raras vezes pude observar Ballhaus usar algum recurso estilístico técnico. Desfoques são escassos e os reflexos, inexistentes. Às vezes, o cinegrafista joga neve na imagem. Isso acontece muito no segundo ato do filme para resolver a questão da escolha duvidosa de não saturar as cores. O branco da neve flutuante e a do solo indicam para o espectador, sucintamente, que Mr. Popper está encontrando um momento de paz na sua vida instável.

Os tons somente mudam durante o clímax e no epílogo sendo que este possui uma modelagem de luz absolutamente fantástica. A direção de arte também tende para as cores brancas, pretas e cinza metálico na composição dos cenários. Novamente, as escolhas das cores arremetem a figura do pinguim. O destaque fica por conta da transformação extremamente criativa que a equipe realiza na sala de estar de Mr. Popper.

O figurino também é um aspecto relevante que merece a atenção do espectador. Repare que todas as vestimentas, muito bonitas e elegantes em sua maioria, do protagonista também inferem ao pinguim com seus tons brancos, pretos e cinzas. A melhor coisa que o filme tem a oferecer ao público, além de Jim Carrey, são os pinguins. Em algumas cenas, são utilizadas aves reais enquanto em outras, a equipe de computação gráfica recria os bichinhos com competência. Graças a essa modelagem em CG dos pinguins, os animadores tiveram a oportunidade de criar expressões únicas para aves roubando vários gemidos açucarados da plateia – “ownnnnn!” é o melhor exemplo. Cada um dos pinguins tem seu charme e carisma. Não é exagero dizer que todos são fofinhos, bonitinhos e levam a imaginação das crianças para as alturas.

É extremamente comum assistir vários filmes de comédia e quase nunca notar a existência de uma trilha sonora original, salvo “O Amor Não Tira Férias”. Na maioria de filmes deste gênero quem prevalece é a trilha licenciada. Caminhando para a evolução, muito provavelmente por causa do diretor Mark Waters, o filme possui somente trilha original.

Como todo filme que se passa em Nova Iorque, o compositor Rolfe Kent se inspira em “Rhapsody in Blue” de Gershwin – música tema de “Manhattan”, dirigido por Woody Allen. Então não é incomum escutar composições que lembram ligeiramente a clássica composição de Gershwin, principalmente pelo belo som do piano. A maioria das músicas não é expressiva o suficiente a ponto de chamar a atenção do espectador. As que funcionam perfeitamente na cena são as melodramáticas.

Entretanto, as composições de Rolfe Kent têm um apelo infantil que também recordam algumas composições de filmes da Disney – sem as cantorias inesquecíveis dos filmes da companhia. Elas também não são muito complexas – basicamente são compostas por uma variação satisfatória de escalas e tons musicais enquanto outro instrumento, muitas vezes o trombone ou o trompete, repete a mesma nota ou escala.

O legal da trilha de Kent é que ele utiliza flautas em diversas de suas composições – o instrumento raramente aparece em trilhas sonoras atuais. A flauta é um atrativo a mais em sua música. Felizmente, a música também não esquece dos pinguins. O ritmo musical de algumas composições lembra os passos errôneos e irregulares da criatura. O compositor cumpre sua função e consegue entregar uma trilha agradável que encaixa nas cenas sem problemas.

Mark Water é um diretor inteligente. Sua direção em As Crônicas de Spiderwick e E Se Fosse Verdade é exemplar, divertida e lembrada pela grande criatividade do diretor. Aqui a história se repete. O diretor tem pulso o suficiente para controlar os excessos de Jim Carrey, mas falha em não conseguir extrair o melhor dos bons atores coadjuvantes.

A criatividade do diretor aparece logo no início do filme quando Mr. Popper conta uma história apaixonada sobre desbravar os sete mares para um empresário. Na cena, o diretor pede para que seus atores interajam com elementos do cenário a fim de criar uma atmosfera divertida para a cena. Ao remendar com os toques finais da pós-produção, o resultado torna-se único.

Entretanto, Water eleva sua criatividade com a entrada dos pinguins na história. Algumas das características de sua direção são muito sutis. Por exemplo, em determinada cena, Mr. Popper acorda com os pinguins dormindo em sua cama. Lá é possível observar que um deles está babando na fronha do travesseiro, outro está parcialmente coberto pelo cobertor e assim por diante. Outras vezes o diretor opta pelo exagero cômico. Isso acontece quando o diretor insere um close-up exagerado na face de um pinguim enquanto este canta – acredite, este é o termo adequado ao barulho infernal que esta ave emite.  O exagero aparece logo no plano seguinte que enquadra Carrey e o pinguim. No plano, é possível observar os cabelos esvoaçarem por causa do canto do animal. O exagero é acompanhado do ridículo e este causa as risadas incessantes do espectador.

A criatividade do diretor também aparece em outras cenas. A interação dos pinguins com instrumentos cotidianos garante boas risadas. Até mesmo a construção de algumas cenas é inspirada. A que se passa no museu Guggenheim é o melhor exemplo disto. O segmento possui muita informação visual e várias piadas acontecendo ao mesmo tempo, mas isto não é um problema para o espectador no caso. Waters deixa os planos abertos com uma duração consideravelmente maior para que os espectadores possam perceber tudo que ocorre na tela.

A edição do diretor também prova sua eficiência pelo manejo muito bom do ritmo do filme. Os enquadramentos são interessantes, principalmente os que capturam a imagem de Jim Carrey. Repare que no início do filme, raramente Mr. Popper aparece junto de outro personagem na imagem. O cineasta isola Carrey a fim de reforçar a vida solitária do homem. Isso vai mudando progressivamente a partir que os pinguins entram na história do filme.

Os Pinguins do Papai é um filme agradável, divertido, doce, rápido e bonitinho. Ele não é insuportável mesmo com a ambientação narrativa excessivamente clichê e previsível. A maioria das piadas funciona e tenho certeza que devem divertir seu público alvo. Se estiver cansado de tantas animações 3D cheias de explosões, leve seu filho para conferir este novo longa com Jim Carrey. Ou se tiver tempo sobrando e nada para fazer, dê uma chance ao filme e vá sozinho. Os fãs do comediante também devem dar uma olhada no retorno de Carrey para o gênero que alavancou sua carreira. O filme não é um completo desastre, mas certamente poderia ter saído bem melhor. Só tenha cuidado para não ter um ataque de hiperglicemia no meio da sessão por causa do extremo ataque de fofura dos pinguins.

Os Pinguins do Papai (Mr. Popper’s Penguins, 2011, EUA)
Direção:
Mark Waters
Roteiro: Sean Anders, John Morris, Jared Stern, Richard Atwaker, Florence Atwaker
Elenco: Jim Carrey, Carla Gugino, Angela Lansbury, Ophelia Lovibond, Madeline Carroll, Clark Gregg, Jeffrey Tambor
Duração: 94 minutos.

 

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.