Crítica | Os Possessos

estrelas 3

Fiódor Dostoiévski é considerado um dos pais do existencialismo, com obras que exploram ao máximo a autodestruição humana. Muitos cineastas tentaram adaptar obras do autor, porém, jamais conseguiram atingir o nível do material original. Apesar disso, Andrzej Wajda decidiu produzir um filme baseado em Os Possessos, livro publicado em 1872. Será que o diretor conseguiria transmitir toda a complexidade da obra de Dostoiévski?

O longa mostra um grupo de jovens revolucionários, de uma pequena cidade russa, que decidem transgredir a ordem estabelecida. Liderados por Pierre (Jean-Philippe Écoffey), eles acreditam que somente através da violência conseguirão provocar a reforma da velha sociedade russa.

Assim como na obra de Dostoiévski, o niilismo está muito presente aqui. Portanto, Wajda constrói uma atmosfera triste e pessimista através através de uma fotografia com uma paleta baseada em cores neutras, apagadas, além de utilizar muitas sombras. Outro recurso usado é a trilha sonora, composta por Zygmunt Konieczny, que insere melancolia à obra, combinando com o tom proposto. Além disso, a direção de arte e figurino ainda remontam com precisão o período, contribuindo para ambientar a história.

Se beneficiando dessa atmosfera pessimista, o roteiro, escrito por Wajda, Jean-Claude Carrière, Agnieszka Holland e Edward Zebrowski, faz inúmeras críticas ao radicalismo, utilizando a imagem de Peter para destacar como movimentos radicais muitas vezes lutam para chegar a lugar algum, apenas pela anarquia em si. Portanto, vemos o personagem dizendo frases como “meu objetivo é construir, não destruir”, além de ter opiniões absurdas, como achar que livros de Shakespeare não levam a nada, exemplificando como essa ideologia não propaga o conhecimento, aliás, em determinado momento ele diz para seus companheiros seguirem cegamente o Comitê Central.

Através dessas críticas, a obra apresenta uma visão conservadora sobre os movimentos revolucionários ocorridos na Rússia, destacando como aquilo, na opinião de Wajda, não passava da busca de uma utopia através de um governo totalitário. Claro que também há críticas ao Império Russo, como na cena em que um governante manda que todos os cidadãos ajoelhem perante ele, mas o filme faz questão de destacar como as revoluções são conduzidas por pessoas com espírito de revolta, culminando na cena onde uma cidadezinha é queimada por manifestantes.

Além disso, o longa ainda explora como o medo pode atrasar não apenas as pessoas, como também todo um país. Isso é representado através de vários diálogos ricos que apresentam analogias interessantes sobre o tema, como na cena onde um personagem destaca como o homem tornaria-se Deus caso não sentisse medo. Aliás, a religiosidade está muito presente aqui e não está imune de críticas, como na cena onde Maria entrega todas as suas jóias como dízimo.

Apesar do filme ser eficiente em suas críticas, os mesmos elogios não podem ser feitos a sua história. O primeiro ato mostra-se apressado, apresenta muitos personagens ao mesmo tempo e não deixa claro a importância de cada um na trama, impedindo que o público identifique em quem deve depositar sua atenção. Já no segundo ato o longa torna-se mais lento, criando um ritmo instável na obra. Por fim, o terceiro ato peca na construção do clímax, impedindo que o desfecho tenha o impacto que deveria. 

O elenco também não colabora para tornar seus personagens interessantes, trazendo composições muito teatrais, que quase caem no overacting. Os únicos que apresentam trabalhos mais contidos são Omar Sharif e Isabelle Huppert, mas infelizmente seus personagens não possuem muito tempo em tela, impedindo que eles explorem algo a mais.

Os Possessos acaba valendo a pena por seus temas apresentados, pelas críticas a determinadas ideologias e pelos diálogos que trazem analogias muito interessantes, como na cena final onde um personagem compara a situação da Rússia com uma passagem da Bíblia. Contudo, para quem espera uma história bem desenvolvida e com ritmo estável talvez se decepcione. Wajda não faz um trabalho ruim aqui, pelo contrário, mas a obra não se destaca se comparada a outros trabalhos do diretor.

Os Possessos (Les Possédés) – França, 1988
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Wajda, Jean-Claude Carrière, Agnieszka Holland, Edward Zebrowski (baseado na obra de Fiódor Dostoiévski)
Elenco: Jerzy RadziwilowiczJean-Philippe Écoffey, Isabelle Huppert, Philippine Leroy-Beaulieu, Bernard Blier, Laurent Malet, Omar Sharif, Lambert Wilson, Jutta Lampe, Philippe Chambon, Jean-Quentin Châtelain
Duração: 116 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.