Crítica | Os Reis do Iê-Iê-Iê (1964)

“It’s been a hard day’s night
And I’ve been workin’ like a dog
It’s been a hard day’s night
I should be sleepin’ like a log”

Nascido da mente de Ringo Starr, a hard day’s night – em tradução, uma dura noite de um dia” – seria a maneira como o músico, baterista da banda britânica que, no início da década de 60, já estourava no mundo inteiro, definiria a trajetória intensa dos Beatles naquele dia em questão, já transformado em uma noite. A intensidade do cotidiano do grupo daria margem a uma turbulência rotineira que certamente cansava. Nos seus vinte e poucos anos, Paul McCartney, John Lennon e George Harrison, além do já citado Ringo Starr, estavam vivendo os dias de cão dos anos de turnê, posando em ternos arrumados, cabelos grandes, cercados por fãs que compunham a beatlemania em seu estado mais forte, às vésperas do lançamento do terceiro álbum de estúdio do grupo, A Hard Day’s Night. Por que não transformar toda essa rotina extraordinária em um filme ficcional, com as correrias percorrendo mais de uma hora de comédia e música, ainda detendo de um caráter documental bem do sacana, capaz de transmitir, para o mundo, o que os Beatles foram, representantes dessa britânica juventude sessentista de outrora?

Enquanto no mundo inteiro, A Hard Day’s Night chegava aos cinemas, acompanhando o álbum homônimo, Os Reis do Iê-Iê-Iê era escolhido como título nacional para representar a obra em terras tupiniquins. Diante disso, temos uma representação da visão mundial sobre o quarteto de jovens, não garotos, mas reis, resumidos musicalmente ao icônico iê-iê-iê de She Loves You, um dos primeiros singles da banda. O porquê de uma passagem mais antiga ser reiterada justamente para o lançamento do terceiro álbum do grupo, e, consequentemente, do filme, certamente encontra justificativa no fato da música dos Beatles, enquanto ainda eram reis do iê-iê-iê, não ser tão impressionante quanto a da fase artística vindoura do grupo, bastante distinta da abrangida por este longa-metragem. Se musicalmente os Beatles viriam a ser mais requintados, criando composições mais complexas, o impacto dessa fase inicial permanece formidável, quase inexplicável, dando margem a um dos musicais mais influentes de todos os tempos, sobre a perversidade misturada com a ingenuidade de um quarteto de jovens qualquer.

A beatlemania está no seu auge e multidões se atropelam para ter o mínimo de contato visual com quatro garotos de aparência ímpar, em um preto e branco captado perfeitamente pela própria fotografia do filme, entendendo a estética da banda e tornando-os parte da composição visual. Contudo, por ser uma obra ficcional, Alun Owen decide optar por uma trama bastante simples a ser percorrida de forma dinâmica pelo quarteto, encapsulando as tantas características dos Beatles e abordando, certeiramente, uma rotina profissional apertada, de viagens de trem a correrias incansáveis – uma espécie de documentário. Assim como disse, na época, o crítico Brendan Gill, não pretendo tentar entender o porquê dos Beatles serem tão fascinantes para milhões de pessoas, inclusive para mim, mas, se A Hard Day’s Night não nos faz compreender isso, certamente nos faz acreditar, absorvendo o público de uma maneira que ele se torna parte da multidão apaixonada, interessada em participar ativamente da vida daqueles carismáticos garotos – mas não reconhecendo-os quando tem a chance. Corremos atrás do ser rebelde.

Sob uma distinta instância, embora sejam vistos como figuras rebeldes para a época em que viveram, é muito interessante a relação fomentada entre essa rebeldia primitiva, antes dos membros assumirem uma vertente mais política, com a figura misteriosa de John McCartney (Wilfrid Brambell), o fictício avô de Paul. Apesar de ser “limpo” e possuir uma postura invejável, nota-se o caráter subversivo presente no idoso, participando e incitando atividades questionáveis, quase como uma personificação do mal puro – um vilão, causador de problemas e mais problemas. As palavras que saem de sua boca levam Ringo Starr a trocar livros por travessuras na rua. De uma forma ou de outra, a presença desse personagem nos faz indagar se os Beatles realmente desvirtuaram uma geração, ou se as gerações são naturalmente desvirtuadas, tentando, na verdade, encontrar um espaço de conforto no meio de multidões – e falhando miseravelmente no fim de tudo. No final de contas, de uma apresentação a outra, os Beatles só querem aproveitar a juventude deles, por meio de muita música e diversão, sempre tecendo comentários irônicos.

Além dessa presença maligna, apresentam-se como antagonistas do quarteto as multidões e os afazeres profissionais. Para um grupo que, na maioria das suas canções, fala sobre amor, o fato de fugirem de dezenas de garotas apaixonadas por eles é de um simbologia gritante – no final das contas, o amor é realmente algo que não pode ser comprado. São jovens querendo aprender que o amor é mais do que andar de mãos juntas. Em decorrência disso, por ser, de fato, um falso documentário sobre a vida dos Beatles, com os Beatles interpretando os Beatles fazendo coisas que os Beatles como Beatles fariam, a música é algo inerente ao longa-metragem, surgindo diegeticamente inúmeras vezes, enquanto o grupo se prepara para um programa de televisão ou, depois, quando a apresentação torna-se o clímax da produção. Por um lado, o diegético torna a presença do grupo ainda mais natural e, por outro, o não-diegético, como a abertura ao som da faixa homônima ao título, é um poderoso criador de atmosfera, envolvendo o espectador ao mesmo tempo que promove um senso de empolgação tremendo.

Ao mesmo tempo, os Beatles não querem tirar toda a “culpa” de cima deles, reunindo, no personagem desse idoso travesso, os nomes dos seus membros mais “reconhecíveis” – John Lennon e Paul McCartney. Assim como ele representa gerações passadas, John McCartney também é um representante dos próprios Beatles, extremamente presente no meio deles, como uma vertente enaltecida ou como um fantasma omitido. Dessa forma, apesar de ser contornada sobre o filme uma faceta consideravelmente lúdica, que não tenta, na superfície, se levar a sério, recorrendo muito mais a um humor pastelão bem bobo do que a um trabalho complexo sobre a claustrofobia beatlemaníaca, Os Reis do Iê-Iê-Iê realmente é uma produção muito mais inteligente do que parece ser, conseguindo, acima de tudo, ser um símbolo e representante insuperável da febre sessentista que já dura décadas de amor, apesar do trabalho de roteiro não sustentar por si só a magnitude do longa-metragem, também apoiando-se na ótima direção, responsável por tornar os absurdos situacionais verdadeiros para o público.

Em razão disso, o cineasta Richard Lester tem espaço frutífero para criar uma obra singular, captando, com a comédia, muita da espirituosidade residente no escopo dos Beatles, transmitindo a energia do grupo musical por meio do cinema. Tendo a mão do diretor em cena, muitas passagens remetem a um humor físico magnífico, como a perseguição policial final, relacionado-se em tom ao cinema clássico de comédia, que corrobora para um conjunto mágico imenso. Na criação de uma obra entendida a ser a definidora de uma geração, a veia cômica do filme mostra-se muito mais atrelada ao imprevisível das coisas que são ditas, quase rudes, do que à qualidade do que é dito, engraçado ou não. Conhecidos pelas entrevistas irreverentes, os Beatles são geniais em terem a resposta certa – ou errada – para as perguntas que surgem, mostrando-se ótimos intérpretes deles mesmos. De acordo com um comentário concedido por John Lennon, quando Ringo Starr disse o que disse, criando uma expressão de efeito múltiplo e marcante na história da música e da cultura popular, o músico não queria ser engraçado. Ele só disse.

Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day’s Night) – Reino Unido, 1964
Direção: Richard Lester
Roteiro: Alun Owen
Elenco: Paul McCartney, George Harrison, John Lennon, Ringo Starr, Wilfrid Brambell, Norman Rossington, John Junkin, Victor Spinetti, Anna Quayle, Deryck Guyler, Richard Vernon, Edward Malin, Robin Ray, Lionel Blair, Alison Seebohm, David Janson
Duração: 87 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.