Crítica | Os Saltimbancos (1953)

estrelas 3

Os Saltimbancos, baseado em romance de Neil Paterson por sua vez escrito com base na história verdadeira da fuga do Circo Brumbach da Alemanha Oriental em 1950, situa toda a ação na ex-Checoslováquia, apenas três anos depois. Elia Kazan faz ao mesmo tempo um interessante relato da vida de circo e das impossíveis exigências do regime totalitário soviético que comandava o país.

Quase todo ele focado em Karel Cernik, ex-proprietário do Circo Cernik (“ex” pois, com a implantação do genial regime comunista, ninguém é proprietário de nada e o povo é de tudo, como o personagem deixa bem claro em um de seus depoimentos à polícia) e palhaço, o filme não funcionaria não fosse o esforço de atuação de Fredric March no papel. Ator já veterano de clássicos como O Médico e o Monstro (seu primeiro Oscar de Melhor Ator), Nasce Uma Estrela e Os Melhores Anos de Nossa Vida (seu segundo Oscar de Melhor Ator), ele empresta gravidade a um difícil papel que precisa aliar melancolia com força, amor com altruísmo, raiva com ternura.

É March que funciona como a cola que mantém unido um roteiro um pouco perdido de Robert E. Sherwood, que investe tempo demais na crítica – correta, claro – ao regime comunista e muito pouco nos demais personagens, como Tereza (Terry Moore), filha de Cernik, Joe Vosdek (Cameron Mitchell), amor de Tereza e talvez principalmente em Zama (Gloria Grahame), a segunda e jovem esposa de Cernik que é odiada pela trupe, por não ser nada mais do que a “esposa do chefe”. Ao trabalhar a crítica e esquecer os personagens que cercam o protagonista, Sherwood acaba por afastar um pouco a audiência do drama e da tensão do terço final da fita, com o circo todo tentando uma fuga à luz do dia pela fronteira.

Mas Kazan é um diretor de atores em primeiro lugar. Ele suga de March tudo que ele precisa e, com maestria, aproveita cada segundo de Moore, Graham, Mitchell e outros diante das câmeras, trabalhando close-ups para máxima eficiência dramática e até mesmo ângulos inusitados e dramáticos, como a ótima tomada de “câmera da grua” atrás e um pouco acima de um anão em cima da coluna do circo, sem perder Cernik de vista. Acima de tudo, porém, Kazan opera milagres ao trabalhar não só com atores, mas com os próprios membros do Circo Brumbach, aquele que, mais para cima, disse que foi o circo que fugiu da Alemanha Oriental e inspirou o livro que deu base ao filme. São os mais diversos artistas que dão peso e veracidade ao que vemos, pois eles mesmo atuam em seus números e, diferente do que se pode imaginar, não são usados apenas como figurantes. Claro que eles não ganham participações-chave, mas eles “engrossam o caldo” da trama sendo mais do que meros extras povoando o fundo da imagem.

Com isso, Kazan rompe as fragilidades do roteiro e apresenta uma obra que, apesar de começar morna e trabalhar textos muito expositivos ao longo de toda a narrativa, especialmente nos dois interrogatórios de Cernik e na reunião dele com seus mais antigos colaboradores em seu trailer, consegue ter um final estranhamente tenso. Digo tenso, pois o grande plano de Cernik é simplesmente atravessar a fronteira justamente no ponto mais difícil, onde fica a guarnição de soldados que obedecem o jugo comunista. E o mais interessante: na velocidade lenta que uma trupe circense com elefantes e diversos carros pesados anda. Nada de correrias, nada de desespero. É uma sequência que estica no tempo talvez mais do que deveria, mas ela funciona em sua simplicidade.

A fotografia em preto-e-branco de Georg Krause que, quatro anos depois, trabalharia com Stanley Kubrick no inesquecível Glória Feita de Sangue, é bonita, mas burocrática. Há algumas tomadas que tentam ser idílicas e que se utilizam bem do contraste, como a de Tereza e Joe  no rio, mas não é um trabalho, no final das contas, particularmente memorável. Sim, por ser filmado em locação na região da Bavária, há momentos belos por natureza, só que nada que fique na memória.

O que fica na memória é a força da presença de Fredric March e a fuga lentamente espetacular do circo debaixo do olhar estupefato dos soldados vermelhos. Uma forma divertida de provocar seu amigo comunista e, ao mesmo tempo, de mostrar a ele uma obra menor de Elia Kazan.

Os Saltimbancos (Man on a Tightrope, EUA – 1953)
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Robert E. Sherwood (baseado em romance de Neil Paterson)
Elenco: Fredric March, Terry Moore, Gloria Grahame, Cameron Mitchell, Adolphe Menjou, Robert Beatty, Alexander D’Arcy, Richard Boone, Pat Henning, Paul Hartman
Duração: 105 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.