Crítica | Os Sertões, de Euclides da Cunha

Os Sertões

estrelas 4

O sertanejo é, antes de tudo, um paciente. Eu o perdoo.

Clarice Lispector em A Hora da Estrela

O sertão é jagunço. O sertão está em toda parte.

Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas

Um livro estuário. Denso. Como disse certa vez Antônio Cândido, uma obra que “fica entre a literatura e a sociologia naturalista”. Publicado pela primeira vez em 1902, a sua abertura lembra muito O Guarani, de José de Alencar. Descritiva e bastante poética, a terra é aproximada ao homem, numa relação de simbiose, onde habitante e habitat se confundem. Comparada inclusive ao poema Ilíada, de Homero, a obra é considerada um dos três registros literários mais importantes da literatura de língua portuguesa, ao lado de Os Lusíadas e Grande Sertão: Veredas.

Dividido em três partes, “A terra”, “O homem” e “A luta”, a obra é considerada um estudo geológico e topográfico da região. Instaurou, na primeira parte, “A terra”, um extenso painel de representações literárias do relevo, da fauna, da flora e do clima. Ao utilizar dados da sua formação acadêmica, o autor criticou o uso da terra pelos índios e pelos bandeirantes, condenando as queimadas e a agricultura, ações humanas que segundo ele, prejudicaram as florestas e provocaram a seca naquela região.

Em “O homem”, forneceu um complemento do cenário e expôs as origens de Canudos. Ao estudar a história dos jagunços e do beato Antônio Conselheiro, Euclides da Cunha traçou um painel das raças (o negro, o índio e o europeu) que formaram inicialmente o Brasil e abriu espaço para “A Luta”, parte constituída de seis subtítulos (Preliminares, Travessia do Cambaio, Expedição Moreira César, Quarta Expedição, Nova Fase da Luta e Últimos Dias), tendo em mira narrar os momentos de combate da guerra de Canudos.

Como disse o crítico literário Antônio Cândido, quando a atividade dos escritores de um determinado período se integra no que ele convencionou chamar de sistema literário, uma dinâmica de continuidade literária é formada, numa espécie de transmissão de tocha a esses escritores. Euclides da Cunha, em Os Sertões, elabora uma espécie de gênese do sertão, enraizando a temática que seria repetida à exaustão na produção cultural das décadas seguintes.

Assim, dentro deste sistema literário, Os Sertões, de Euclides da Cunha, ecoa na seara das produções artísticas brasileiras desde as primeiras décadas do século XX, bem como encontrou ressonâncias na contemporaneidade. O imaginário euclidiano tem referências explícitas nos romances do regionalismo de 30, nas artes plásticas modernistas, nas principais cenas de Grande Sertão: Veredas e nas imagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Guerra de Canudos e outros tantos filmes da cinematografia brasileira que investiram na representação do sertão como espaço fílmico.

Através do processo mimético, o autor transforma a terra, o cenário da luta e a vegetação, em combatentes, num modelo repercutido nas malhas da produção cinematográfica brasileira, espaço onde as descrições da terra formuladas por Euclides da Cunha estão presentes na estética da fome, de Glauber Rocha, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, obra representativa do Cinema Novo; e Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, épico que faz parte do que se convencionou chamar de Cinema da Retomada, momento em que o sertão é representado pelo viés da cosmética da fome, termo cunhado pela ensaísta Ivana Bentes para refletir sobre a visão lírica da miséria no sertão representado pelo cinema dos anos 1990.

Em História Concisa da Literatura Brasileira, o crítico literário Alfredo Bosi afirma que há paixão nas palavras de Euclides da Cunha, o que possibilitou uma representação literária de concretíssimos relevos nas mais áridas descrições da sua engenharia social. Sendo a menor e talvez a mais insípida das partes do livro, A terra foi representada à exaustão na produção literária das décadas seguintes. Os relatos, que tratam de imagens visualizadas e transformadas em texto literário por Euclides da Cunha, encontravam parcas inscrições prévias no âmbito da literatura brasileira: escritores como José de Alencar, em O Sertanejo, e Franklin Távora, em O Cabeleira, já haviam esboçado algumas considerações sobre o espaço sertanejo, mas não com a mesma descrição detalhada que encontramos em Os Sertões.

Nas obras regionalismo de 30, espécie de amadurecimento do naturalismo da literatura regionalista anterior ao movimento, diversos escritores retomaram esse espaço como local de representação dos seus personagens: em 1928, A bagaceira, de José Américo de Almeida, tratava do triângulo amoroso entre Soledade, uma retirante da seca, Lúcio e Dagoberto. Através da explicitação de dados sociológicos e poetização dos elementos da seca, o autor reiterava, através do espaço literário, as informações contidas na terra euclidiana. Em O Quinze, publicado em 1930, Rachel de Queiroz narrava a seca de 1915, vivida por ela e pela sua família, dividindo a narrativa em dois núcleos: a família do vaqueiro Chico Bento e a relação amorosa entre Vicente, rude homem da terra sertaneja, e Conceição, uma professora, todos estes, personagens habitantes de uma região seca, de terra gretada, insípida e atrasada.

Graciliano Ramos, principalmente em Vidas Secas, de 1938, contava a saga dos retirantes Fabiano e Sinhá Vitória, ornamentando a narrativa através de sinestesias, aproximando o leitor da seca e do calor vivido pelos personagens sertanejos, complementando com elementos da flora exaustivamente ilustrada por Euclides da Cunha no primeiro capítulo de Os Sertões. No mesmo ano, José Lins do Rego publicava Pedra Bonita, romance que capitalizou na questão do cangaço, oferecendo novas abordagens do homem sertanejo, ganhando, inclusive, continuação, Cangaceiros, romance publicado em 1953, enfatizando a saga messiânica no sertão nordestino.

Na mesma linha, em 1946, Jorge Amado publicou Seara Vermelha, romance que tratava dos retirantes nordestinos buscando mudanças em direção ao sudeste brasileiro, não poupando o leitor de descrições poetizadas do espaço sertanejo: cactos perfurantes, terra e clima que queimavam a pele e a moral de todos.  Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa é outro denso marco da literatura brasileira que dialoga com o imaginário sertanejo descrito por Euclides da Cunha.

Até mesmo Clarice Lispector traz observações das suas leituras euclidianas em A Hora da Estrela, como na epígrafe desta crítica. As obras do regionalismo de 30 e as referências euclidianas em Guimarães Rosa e Clarice Lispector não são as únicas, mas algumas do sistema arbóreo que encontra raízes em Os Sertões. Frutos das descrições poéticas da terra sertaneja, estas obras reforçaram o imaginário nordestino na produção cultural brasileira, que não demoraria muito a adentrar no sistema da era da reprodutibilidade técnica, em especial, o cinema, ganhando projeção logo depois na televisão, e, mais adiante, no terreno do videoclipe.

Traduzido para diversos idiomas e linguagens (cinema, televisão, música, enredo de escola de samba, histórias em quadrinhos, etc.), Os Sertões é uma leitura crítica da vida dos sertanejos na virada do século XIX para o XX, bem como da relação deste povo com a geografia local e a incompreensão das elites sulistas. Um clássico que deve ser lido com o devido encaminhamento, pois trata de um recorte histórico e de um pensamento filosófico que já ganhou outras interpretações ao longo do século XX.

Lido e debatido dentro do contexto contemporâneo, a obra oferece uma série de perigos para corajosos mediadores. Em tempos de tensão no que diz respeito ao racismo, ler, interpretar e debater Os Sertões requer cuidado redobrado. Euclides da Cunha apresentou a sua ideia de raça superior, tal como a maioria dos intelectuais de sua época, no que conhecemos por “determinismo social”. Deve ser criticado? Sim, sem dúvida, mas analisado pelo viés diacrônico e entendido como obra que refletiu o pensamento de uma época, material de base para fazermos a transposição para o “pensamento” em voga na contemporaneidade.

Os Sertões
Autor: Euclides da Cunha
Editora: Record
Páginas: 596

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.