Crítica | Os Supremos: O Filme

Os Supremos funciona basicamente como um Os Vingadores de teste, realizado alguns anos antes do Universo Cinematográfico da Marvel tornar-se realidade. Talvez, nem um teste de verdade, mas ainda assim as semelhanças são notáveis e, de tal forma, há de se estabelecer um paralelo – e designar as constantes – dos caminhos que a Marvel tomou diante da adaptação de seus personagens para outras mídias. Ambas iniciativas, uma na forma de animação direto em vídeo e outra na forma de blockbusters milionários, tomam como base o universo Ultimate dos quadrinhos; a comprovação de parte do objetivo na criação desse universo paralelo. Em inglês, Os Supremos se auto-denominam Ultimate Avengers, da mesma forma como é nos quadrinhos. Por alguma lógica,  na tradução brasileira, decidiram mudar o nome do grupo de heróis para Os Supremos. Das semelhanças, Nick Fury (André Ware) tem o mesmo visual de Samuel L. Jackson dos quadrinhos, além de que o Capitão América é uma força vital na criação do grupo e não uma adição posterior. Os Supremos é a adaptação dos quadrinhos homônimos de Mark Millar e Brian Hitch, inseridos dentro desse já citado universo alternativo da Marvel Comics, enquanto Os Vingadores, o filme de 2012, uniu diversas pontuações, tanto da linha clássica quanto a da Ultimate, originando algo inédito, abraçando diferentes fases e formatos da super-equipe. Mas por que essa animação não funciona?

O primeiro equívoco, também presente nos quadrinhos de Millar, são as massas vilanescas. Não há algum Loki aqui. Os Chitauri estão presentes, mas são uma força alienígena completamente genérica, feitos para levarem soco na cara e morrerem aleatoriamente. O engraçado é que eles poderiam estabelecer algum clima de paranoia, suspense, muito além da repetição de lutas “casuais”, visto a habilidade desses monstros em assumir forma humana. Nada disso é feito com decência, ainda mais se comparado com arcos excelentes dos quadrinhos também envolvendo alienígenas, porém icônicos dentro da cultura popular – além de um clássico da década de 80, o sensacional O Enigma de Outro Mundo. No mesmo passo, Bruce Banner (Michael Massee), apesar de receber uma atenção surpreendente e bem-vinda do roteiro, perde bastante do seu valor em decorrência da ameaça genérica. O Incrível Hulk poderia muito bem funcionar como o único vilão, ou então, a força destrutiva principal poderia ter alguma relação com o personagem, não soando desconexa como soa as tramoias de Banner e a questão do soro do super-soldado – outro paralelo feito com o universo cinemático, no qual o soro de Steve Rogers (Justin Gross) também tem relação com as problemáticas que acometeram Banner em uma experiência. Mesmo assim, a complexidade da personalidade de Banner é definitivamente o ponto mais alto de toda essa bagunça super-heroica.

O segundo equívoco é a completa falta de atenção nos personagens que, teoricamente, deveriam ser essenciais para o funcionamento do filme e definitivamente são, mas onde que os roteiristas estavam com a cabeça ao deixarem de lado Thor, Homem de Ferro, Gigante e Vespa? A Viúva Negra (Olivia D’Abo), especialmente, recebe mais atenção, por estar constantemente perto de Fury, mas o desenvolvimento, se é que existe, não é nem a terça parte do que se foi feito no filme de 2012, e lembrando que até mesmo lá a personagem não recebeu todo os louros merecidos. O Poderoso Thor aparece subitamente na metade do filme e retorna apenas na batalha final. O Homem de Ferro, diferentemente dos filmes, ainda não foi revelado como Tony Stark e tal acontecimento é algo possivelmente relevante, mas não passa de uma construção de personagem nunca feita inteligentemente, mas apenas deixada presumida para os espectadores preencherem o vácuo. Ademais, com o grupo já formado e uma primeira missão estabelecida, o fracasso seria mais sentido se essa não fosse também a primeira troca entre cada personagem. Para piorar, Hank Pym é apenas um mísero ser, isento de substância a ser trabalhada. Por outro lado, Janet consegue ser ainda menos relevante se comparada ao parceiro. Os conflitos são sugeridos, incitados, diálogos existem para demonstrar que as coisas não estão certas, mas o resultado é a nulidade.

Um outro ponto importante é o fato do Capitão América deste filme não enfrentar nenhum daqueles clássicos conflitos entre o passado e o presente. Mais de 60 anos se passaram, a solidão e o senso de não pertencimento são inerentes a uma nova vida. A cena de Rogers frente ao túmulo de seus companheiros de batalha é completamente desonesta, visto que no próprio cenário de guerra ele estava distante dos outros soldados. Outrossim, para exemplificar a deficiência do roteiro, eis a dissertação de uma passagem de Os Supremos: o primeiro encontro entre Tony e a Viúva Negra. Afinal, por que Tony Stark levaria Natalia Romanov para o seu escritório se o playboy tinha um compromisso com o governador? Jarvis chega em cena, após o interesse da S.H.I.E.L.D no Homem de Ferro ser apresentado e os roteiristas usam tal importante programação como saída narrativa daquele encontro entre Stark e Fury. Na verdade, no intuito, sem sagacidade, de prosseguir com a narrativa, o texto deu margem para um furo de roteiro. No mais, as batalhas até que são levemente divertidas, mas os cenários são muito parecidos, vide o fato de todas as lutas se passarem de noite. Os Supremos, dessa forma, é incomparável tanto com os quadrinhos de Millar quanto com o filme do super-grupo, lançado em 2012. Um filme definitivamente sem vida, incapaz de ser mais memorável a ponto de ultrapassar os minutos passados em frente à tela de exibição.

Os Supremos: O Filme (Ultimate Avengers) – EUA, 2006
Direção: Bob Richardson, Curt Geda, Steven E. Gordon, Han Tae-H
Roteiro: Greg Johnson, Boyd Kirkland, Craig Kyle
Elenco: Justin Gross, Michael Massee, Olivia D’Abo, André Ware, Nolan North, Fred Tatasciore, Marc Worden, James K. Ward, Nan McNamara, David Boat, Grey DeLisle
Duração: 72 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.