Crítica | Os Suspeitos

estrelas 4,5

Se você tem alguma dúvida sobre assistir ou não Os Suspeitos (uma equivocada tradução do perfeito título em inglês Prisoners – mais sobre isso adiante), acredite neste crítico e vá assistir. E não necessariamente pela história, ainda que ela seja extremamente cativante, mas pelas pessoas envolvidas em sua produção, que carregam um pedigree que tornam a obra imperdível.

Inicialmente um projeto envolvendo Hugh Jackman no papel principal e Antoine Fuqua na direção, Os Suspeitos sofreu problemas nos estágios iniciais com o afastamento de Jackman que, porém, voltou a ele tempos depois novamente no protagonismo. Só que Fuqua, diretor extremamente inconstante (foi o responsável pelo ótimo Dia de Treinamento, mas também por besteiras como Rei ArthurInvasão à Casa Branca), havia saído da segunda versão do projeto e quem tomou seu lugar foi ninguém menos do que o brilhante canadense Denis Villeneuve. Recém-saído de seu primeiro grande sucesso, Incêndios, que concorrera ao Oscar e ao BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, o diretor já vinha de uma carreira curta, mas sólida, com pequenas e até então desconhecidas joias como Polytechnique e 32 de Agosto na Terra, sempre com um olhar extremamente humano para seus personagens.

Os Suspeitos, assim como Incêndios, é um thriller que mesmeriza o espectador ao manipular as informações, soltando-as em doses parcimoniosas, mas que fazem absolutamente todo sentido. O roteiro, trabalhado por Aaron Guzikowski, é hipnotizante e claustrofóbico, deixando-nos literalmente prisioneiros da trama (uma das razões porque o título em inglês é genial). E olhe que, de todos os nomes envolvidos na produção, o de Guzikowski é de longe o mais desconhecido. Mas é um nome que irá longe pelo visto.

Além de Jackman, no papel de Keller Dover, um pai cuja filha é sequestrada juntamente com a filha de seu melhor amigo e que decide fazer justiça com as próprias mãos, temos Terrence Howard no papel desse amigo, Franklin Birch, Viola Davis no papel de Nancy, esposa de Franklin e Maria Bello como Grace, esposa de Keller. E, na oposição de Keller, ainda que caminhando na mesma direção para desvendar o mistério do desaparecimento das meninas, temos Jake Gyllenhaal como o detetive Loki, talvez em seu melhor papel até aquele momento. A escalação de todos e o entrosamento do elenco é um trabalho primoroso da produção, sem nenhuma peça sem encaixe e todos perfeitamente genuínos e confortáveis  dentro de seus papeis.

Mas é claro que os destaques vão mesmo para Jackman e Gyllenhaal. Jackman como um pai atormentado capaz de fazer absolutamente qualquer coisa para ter de volta sua filha, é o conflito em pessoa. Religioso, ele invoca seu deus sempre que pode e reza copiosamente logo antes de infligir dor no suspeito pelo sequestro (Paul Dano, calado, mas de fazer o queixo cair) que ele transforma em seu prisioneiro particular, com impressionantes e assustadores requintes de crueldade.

Gyllenhaal é o policial que segue o manual da melhor maneira que pode. Sem nunca ter deixado de resolver um caso, ele tem certeza que vai solucionar mais esse. No entanto, os dias se passam e a ausência de pistas começa a fazer ruir suas certezas e seu método, culminando no uso descuidado de violência.

O caminho dos dois é essencialmente convergente, mas Villeneuve mantém as duas tramas ou investigações paralelas pelo maior tempo que pode, de forma muito similar a Incêndios. O que Keller sabe Loki não sabe e vice-versa. Mas nós, espectadores, somos oniscientes, o que estabelece um desespero enlouquecedor na medida em que a trama progride. E reparem na oposição do deus de Keller ao nome do policial que nada mais é do que um deus da mitologia nórdica.

Mas, como uma redoma prendendo Keller, Loki e todos os demais à cada vez mais massacrante corrida contra o tempo, há a direção de fotografia de ninguém menos do que Roger Deakins. Uma lenda em Hollywood pela qualidade constante de seus trabalhos como em Um Sonho de Liberdade, Fargo, Onde os Fracos Não Têm Vez007 – Operação Skyfall, ele já concorreu ao Oscar 13 vezes – inclusive por Os Suspeitos – sem jamais levar a estatueta, o que, por si só, é um atestado de sua competência (é Hollywood, não é mesmo?).

Nesse seu trabalho, Deakins cria uma prisão ao redor de todos os personagens. Uma prisão opressiva, com cores mudas e frias, que só esquentam quando as meninas sequestradas estão em cena no começo e em sonho posteriormente, ou quando vemos o quarto de Anna (Erin Gerasimovich). O mundo adulto é pesado, cinza, desesperador mesmo. E a escuridão da floresta que cerca a cidadezinha da Pensilvânia onde o filme se passa é replicada nos interiores claustrofóbicos das casas e, em última análise, no coração cada vez mais perdido de Keller e na mente cada vez mais desesperançosa de Loki.

E esses sentimentos são realçados com o uso de câmeras baixas, estáticas, que nos deixam próximo ao solo, vendo os personagens de baixo para cima. A sensação de que nós também somos prisioneiros de toda essa estrutura é inescapável, o que comprova a eficiência de Villeneuve, Deakins e os demais da equipe técnica e a impropriedade do título em português, que nem de longe passa essa mensagem.

Mas Os Suspeitos não é completamente sem defeitos. No entanto, não é fácil falar deles sem abordar um pouco do desdobramento da história, o que seria injusto com o leitor nesta crítica sem spoilers. Assim, basta dizer que, em determinado momento, o desfecho do mistério torna-se bastante claro ao espectador que tiver sido atento de verdade aos desdobramentos da narrativa. Villeneuve, porém, não apressa o fim. Ele mantém sua cadência, o que acaba resultando em uma duração um pouco exagerada da película. Os 153 minutos de filme poderiam muito facilmente ser reduzidos em 20 ou 25 minutos sem que perdêssemos a mensagem, tornando a resolução mais ágil e menos explicada.

Mesmo com esses problemas que, no cômputo geral, não reduzem o prazer (ou seria desprazer?) da experiência, Os Suspeitos é um filme que, se não está exatamente no mesmo nível de Incêndios, chega muito próximo. As equipes na frente e atrás das câmeras fazem dessa película uma surpreendente revelação que não deve ser perdida.

*Crítica originalmente publicada em 20 de outubro de 2013. 

Os Suspeitos (Prisoners, EUA – 2013)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Aaron Guzikowski
Elenco: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Bello, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano, Dylan Minnette, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons, Wayne Duvall, Zoe Borde, Len Cariou
Duração: 153 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.