Crítica | Os Vingadores #1 (1963)

estrelas 4

Em dezembro de 1940, era lançada uma revista que mudaria os conceitos de publicações de super-heróis mais uma vez: All Star Comics #3. Nela, Sheldon Mayer, o editor e Gardner Fox, o roteirista, criaram um time composto de heróis da DC Comics em sua Era de Ouro. Eram oito – Sr. Destino, Lanterna Verde (o original, Alan Scott), Joel Ciclone (o primeiro Flash, Jay Garrick), Homem-Hora, Sandman, Gavião Negro, Átomo e Espectro – formando a Sociedade da Justiça da América, o primeiro grupo de super-heróis. Não era o primeiro crossover de heróis, pois essa honra fica com Tocha Humana (o androide) e Namor, em 1940, pela Timely Comics, antecessora da Marvel, mas a Sociedade da Justiça abriria caminho de verdade para uma tendência.

Em sua encarnação original, a Sociedade da Justiça durou relativamente pouco, até o final dos anos 40. Somente em março de 1960 e novamente por Gardner Fox, outro grupo seria criado, esse extremamente duradouro: a Liga da Justiça, também da DC Comics, formada por heróis da editora que tinham publicações próprias, ou seja, Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Caçador de Marte (Ajax, como ficou conhecido por aqui). Àquela época, a Marvel Comics ainda vinha galgando seu espaço e Stan Lee e Jack Kirby, inspirados no sucesso da Liga da Justiça, criaram, três anos depois, seu próprio grupo, também formado por heróis com publicações próprias na editora.

Nascia, assim, Os Vingadores.

vingadores 1 1963A primeira formação, logo em Os Vingadores #1, de setembro de 1963, era bem pequena, apenas com Homem de Ferro, Thor, Hulk, Homem-Formiga e Vespa. Um ser tecnológico, um deus, um monstro e dois seres diminutos com níveis de poder completamente desproporcionais se comparados com seus colegas. O Capitão América só viria a se juntar ao grupo, depois de ser descoberto congelado e em animação suspensa desde a Segunda Guerra Mundial, no quarto número da publicação, logo galgando seu espaço e formando a “Santíssima Trindade” Marvel com Thor e Homem de Ferro.

Quem nunca leu o número inaugural, mas tiver assistindo a Os Vingadores no cinema, terá uma surpresa: a história de origem do grupo nos quadrinhos serviu fortemente de inspiração ao roteiro de Joss Whedon e Zack Penn, o que torna o filme ainda mais admirável por curvar-se à mitologia estabelecida. Usando manipulação mental a partir de seu exílio na ilha do Silêncio, Loki, meio-irmão de Thor, deixa o Hulk descontrolado, chamando a atenção dos outros heróis, que convergem para impedir maiores destruições pelo Gigante Esmeralda. Simples em sua premissa, mas inteligente em sua execução, a narrativa de Stan Lee, apesar de básica, funciona muito bem algo que não costuma ser o padrão dos trabalhos dele.

Tudo acontece em apenas um número e era de se esperar correria desenfreada. E, ainda que ela esteja lá, a cadência estabelecida pelo roteiro de Lee é lógica e perfeitamente aceitável. Cada herói é apresentado com textos curtos encaixados na narrativa, sem que um trabalho cansativo de narração seja necessário. Além disso, apesar da discrepância entre poderes, é particularmente interessante ver cada herói com um papel claro e bem determinado, com especial destaque ao Homem-Formiga, que realmente consegue ganhar relevância diante das impossíveis situações que enfrenta. Para se ter uma ideia, o pequeno herói chega a momentaneamente derrotar o Hulk, usando suas formigas amigas e sua inteligência. Loki, como o verdadeiro antagonista, mostra a que veio e ganha contornos de super-vilão, algo que já era na publicação solo de Thor (Journey into Mystery que, tecnicamente, não era solo, mas, na prática, funcionava assim tanto que, em 1970, ela mudou de título para Thor), mas que tomaria outras dimensões com essa publicação.

A dinâmica entre heróis já deixava muito clara a liderança do Homem de Ferro e a forma preconceituosa com que o Hulk já era e continuaria a ser tratado. A arrogância de Stark e a tragédia de Banner estão presentes nos diálogos dessa edição e passariam a fazer parte da essência do grupo mais importante da Marvel.

Jack Kirby está um pouco fora de seu ambiente, pois há pouca tecnologia para ele mostrar seus traços característicos. Com a história quase que inteiramente se passando em locais desertos ou semi-desertos, ele foca nos heróis e no vilão, com seus traços característicos e marcantes, mas sem se esmerar nos detalhes de fundo. Fica evidente um traço característico de seu trabalho para a Marvel na época: a velocidade no lugar da qualidade. Mas claro, Kirby é Kirby e é impossível não apreciar como seu trabalho aqui influenciaria dezenas e dezenas de artistas nas décadas seguintes.

Os Vingadores #1 é leitura obrigatória para fãs de quadrinhos de todas as idades. Um fantástico começo para um sensacional grupo.

Os  Vingadores #1 (The Avengers #1, EUA – setembro de 1963)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Dick Ayers
Letras: Sam Rosen
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Páginas: 20

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.