Crítica | Os Vingadores (2018): Vol. 1 – The Final Host

Quando do lançamento do novo #1 de Quarteto Fantástico, tive a oportunidade de elogiar a iniciativa da Marvel Comics de relativizar suas incansáveis e extremamente confusas renumerações de publicações com a manutenção da indicação do número do chamado “legado”, levando em consideração a contagem linear de todos as edições de todos os volumes de determinado título, desde o começo dos tempos. No entanto, outra iniciativa admirável que a editora vem tomando – esta já há algum tempo, mas não para todas as publicações – é o de pré-estabelecer os títulos de cada arco narrativo, facilitando a organização e a impressão de “finitude”, mesmo que parcial, lógico, para cada uma de suas histórias dentro de uma mesma revista. O novo volume de Os Vingadores, que é o 7º no geral, reúne essa duas qualidades, já que representa mais uma “zerada” de numeração (ou seja, é um novo #1, mas que, na verdade, é o Legado #691) e já começa com o arco batizado de The Final Host (em tradução livre, A Última Tropa – não, “host” não é “hospedeiro” dentro do sentido da história) com seis edições, deixando a publicação próxima do #700, que, claro, será comemorativo.

Ao acabar de ler o referido arco, senti-me de volta aos anos 70 e, intermitentemente, anos 80, quando as sagas ou grandes eventos eram inseridas dentro das publicações “comuns”, sem toda a irritante pompa  e circunstância que hoje eles recebem. Afinal, para todos os efeitos, The Final Host é sim equivalente a qualquer saga de grande escala, comparável em escopo inclusive a Guerras Infinitas, em andamento simultâneo. Melhor ainda, Jason Aaron, que herdou o título de Mark Waid (principalmente), responsável pelo vol. 6, que foi de janeiro de 2017 a junho de 2018, faz como Matt Rosenberg no também zerado O Justiceiro e ensaia retornar ao básico em termos de estrutura e composição do grupo. Saem os exageros expansionistas e os membros esotéricos da equipe e voltam a trinca principal – Capitão América, Homem de Ferro e Thor – sem picuinhas e sem chateação, tentando remontar a equipe a partir deles e diante de uma gigantesca ameaça que, mais uma vez, pode significar a destruição da Terra.

Mas antes que vocês revirem os olhos para a trama em tese batida de ameaça global, respirem fundo e digam “ommmmmm”. Aaron, que não é lá dos meus autores favoritos no que se refere aos heróis Marvel (afinal, ele escreveu a tenebrosa saga Pecado Original que até hoje me dá vontade de “desler”…), faz algo muito divertido aqui, como meu colega (e constante usurpador de textos meus e só meus) Luiz Santiago já teve a oportunidade de afirmar ao comentar, aqui, sobre as duas primeiras edições. Para começar, a trama só parece muito complexa, mas, na verdade, é bem simples: Celestiais Sombrios, que foram criados para o arco, claro, chegam por aqui para destruir nosso planeta, o que obriga os três heróis e mais a Capitã Marvel (líder da Tropa Alfa), Mulher-Hulk (completamente gigantesca e descontrolada), Doutor Estranho (na veia hippie atual dele), Pantera Negra (o mais sério de todos fora o Capitão, claro) e o Motoqueirorista Fantasma (o único novato no grupo, mas bem inserido na história) a se juntarem para surrá-los. Grandioso, mas simples e objetivo, sem firulas e um perfeito “ponto de entrada” para leitores novos, mas que, ao mesmo tempo, não aliena leitores que, como eu, foram contemporâneos de Odin em sua juventude.

(1) Os Vingadores de 1.000.000 a.C. e (2) o Progenitor, Celestial misterioso, mas extremamente importante.

E a Velha Guarda dos leitores terá outra razão para celebrar, pois Aaron faz uma verdadeira homenagem à reunião original dos Vingadores lá de 1963, já que coloca Loki como o manipulador principal (e não, isso não é spoiler, gente) mais uma vez, espelhando a origem do grupo que, como se sabe, só aconteceu em razão de um dos planos “infalíveis” do Deus da Trapaça. Por outro lado, quem tem ojeriza a retcons, provavelmente terá infarto fulminante lendo o arco, pois o autor simplesmente faz o maior retcon de toda a História da Nona Arte. Exagero meu? Bem, se ele começa sua narrativa desenvolvendo os Vingadores originais de um milhão de anos atrás (Odin, Fênix, Espírito da Vingança, Estigma, Pantera Negra e Punho de Ferro), que Aaron introduziu em Marvel Legacy, o que levou muito leitor a ter comichão com essa invencionice, saibam que Aaron vai ainda mais para trás em The Final Host, para nada menos do que quatro bilhões de anos a.C.. Sim, vocês leram corretamente: quatro bilhões, com B mesmo.

Mas mesmo essa doideira é divertida e, arrisco afirmar, bem bolada, pois o que Aaron tenta “explicar” é o porquê da Terra ser o berço para tantos super-seres por aí, de mutantes a estudantes que, ao serem picados por aranhas, ganham poderes. E olha, por mais rocambolesca que a história seja, ela funciona. Se isso vai mudar alguma no Universo Marvel eu não sei e já digo que duvido, mas o que conta é que a história funciona, ficando a promessa de mais revelações bombásticas já no próximo arco (cuja primeira edição focará no “Mamuteiro” Fantasma, o tal Espírito da Vingança de um milhão de anos atrás, o que por si só já é algo completamente irresistível).

Aaron escreve de forma dinâmica, aproveitando-se de toda a mitologia dos heróis – inclusive acontecimentos recentes como o coma de Tony Stark – para costurar algo que respeita e continua o que veio antes, mas com um novo frescor e um lado levemente cômico que é bem trabalhado nos diálogos e interações. Fugindo da fórmula que estabelece que todo primeiro encontro de heróis tem que começar com uma pancadaria entre eles, o roteirista consegue dividi-los em vários núcleos harmônicos que organicamente vão se aproximando, tendo, surpreendentemente, Robbie Reyes como peça-chave. No final das contas, é uma leitura fácil e gostosa que não pretende alcançar o tipo de qualidade que o run de Jonathan Hickman teve (mas aí seria covardia, não é mesmo?), mas que tem o seu próprio tipo de qualidade e de valor para um público cada vez mais misto de leitores.

Para terminar, a arte caiu no colo principalmente de Ed McGuiness, com Paco Medina desenhando algumas edições. Cada um com seu próprio estilo marcadamente diferente, o que leva até mesmo a interpretações diferentes dos mesmo personagens de uma edição para a outra (com o Homem de Ferro sendo a maior “vítima” disso), os dois, porém, emprestam toda a majestade e grandiosidade que uma história repleta de Celestiais de 600 metros de altura precisa. Além disso, os dois, no lugar de apenas lidar com momentos bombásticos por meio de páginas inteiras (algo que eles também fazem, porém), mostram-se inspirados com recortes diferentes de páginas, por vezes na diagonal, outras “sangrando” personagens de um quadro ao outro, o que torna a leitura instigante sem ser mais confusa do que o necessário. Os exageros do roteiro de Aaron ganham belas representações que certamente agradarão os leitores que estiverem no espírito para esse tipo de história “sem barreiras”, que não tem vergonha alguma de, por exemplo, teletransportar o Capitão América para o núcleo do sol (sim!) ou fazer com que Reyes “possua” uma armadura de um Celestial com seus poderes demoníacos (sim!!!).

The Final Host cumpre sua função de reunir mais uma vez os Vingadores tendo como “núcleo duro” o Bandeiroso, o Ferroso e o Marteloso (ok, péssima tentativa de fazer piada, reconheço) em vista de uma ameaça de proporções cósmicas em uma história que reescreve tudo o que sabemos sobre os super-heróis Marvel, mas sem que isso signifique algum tipo de mudança profunda na mitologia que vá destruir os alicerces sobre os quais tudo o que conhecemos sobre eles foi construído ao longo de décadas. Em suma, é apenas mais uma quarta-feira no Universo Marvel.

Os Vingadores (2018) – Vol. 1: The Final Host (The Avengers – Vol. 1:- The Final Host, EUA – 2018)
Contendo: Os Vingadores: Vol. 7 (2018) #1 a 6 (LGY #691 a 696)
Roteiro: Jason Aaron
Arte: Ed McGuiness, Paco Medina
Arte-final: Mark Morales, Jay Leisten, Juan Vlasco, Karl Story
Cores: David Curiel, Justin Ponsor, Jason Keith
Letras: Cory Petit
Editoria: Tom Brevoort, Alanna Smith
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a outubro de 2018
Páginas: 143

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.