Crítica | Os Vingadores (Com Spoilers)

“Você não está entendendo. Não há nenhum trono. Não há nenhuma versão disso em que você sai com êxito. Talvez o seu exército venha e talvez seja demais para nós, mas é tudo contra você. Porque se não pudermos proteger a Terra, pode estar certo de que nós a vingaremos.”

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A transposição dos maiores super-heróis da Terra, indo dos quadrinhos para os cinemas, não seria a missão mais fácil do mundo para Kevin Feige. Os produtores da Marvel Studios não estavam interessados em um longa-metragem sendo lançado logo de cara, como acontecera com outros super-grupos. Colocar tantos personagens desconhecidos juntos, sem a presença de qualquer Wolverine para estampar os pôsteres, era muito arriscado. Mas, a ambição também era tanta que cinco filmes foram necessários para se chegar aos sonhos molhados de tantos nerds, que cresceram lendo histórias icônicas do meio. Agora eles teriam, dali em diante, uma versão em formato de filme das suas revistinhas, com publicação solo, de equipe e até grandes sagas. Tantas inúmeras figurinhas carimbadas migrariam de obras, sem desrespeitar limites, em uma linha cronológica infinita de causa e consequência. O verdadeiro limite era a quantidade de dinheiro que a união dos heróis apresentados nos filmes solo renderia para o estúdio que, em 2012, tinha muito mais segurança do sucesso de sua empreitada, tendo “criado” novos ícones para uma outra geração, a qual não reconheceria o gênio, playboy, bilionário e filantropo e certamente teria mais dificuldades de pagar para ver um filme sobre esses heróis presumidamente inconciliáveis, se a aposta fosse outra, seguindo a tendência do mercado. Em termos de popularidade, Os Vingadores eram, em uma época anterior a certo Homem de Ferro, um dos grupos mais esquisitos de todos, sem nenhum desenho animado para fazer lembrar o público infantil de sua existência. Hoje, são parte da franquia cinematográfica mais lucrativa de todos os tempos.

Sendo assim, de certa forma, ao se olhar para Os Vingadores, também está sendo olhado todo o contexto de seu lançamento. Ao seu olhar para Os Vingadores, mais de dez filmes depois, também está sendo observado, com todo o carinho do mundo, a importância da obra e a influência que tantas decisões tomadas, muitas que vieram com a urgência do filme de equipe, tiveram para essa nova maneira de se fazer cinema e de se contar histórias. De relance, a morte de Phil Coulson (Clark Gregg) é a pontuação que mais reverbera até os dias de hoje, diante da sua participação ativa em Agents of S.H.I.E.L.D, série de televisão que, em seu lançamento, iria trazer dos mortos o agente caído. Em relação a experiência do espectador com Os Vingadores, diferentemente de muitas outras produções, este filme consegue falar por si só e ser visto por si só. Todavia, o trabalho argumentativo deve tentar fugir das amarras com demais produções do estúdio, não obrigando-o a assistir dezenas de filmes para entender o que está acontecendo? Em um mundo passando, não tão familiarizado com o Universo Cinematográfico da Marvel, ainda em suas raízes, o passo “inicial”, aquele que definiria se estávamos de frente a um sucesso ou não, precisava ser mais abrangente e inclusivo. Um dos grandes acertos de Joss Whedon ao dirigir este filme é não depender essencialmente da carga oriunda dos trabalhos anteriores de seus colegas, mas aproveitá-la sabiamente. Hoje, a Marvel Studios já não tem uma visão desse tipo, visto que o mundo todo abraçou as histórias que estavam sendo contadas. As pessoas não apenas precisam como elas querem acompanhar, ano após ano, os lançamentos do estúdio.

““Se você se acha superior a eles, então não sabe o que é governar.” 

No entanto, para contradizer uma afirmação do tipo, é perceptível que, em Os Vingadores, determinado personagem, por razões óbvias de apelo comercial, recebe a maior atenção dentre todos e este é o Homem de Ferro, interpretado por Robert Downey Jr. A questão é que, já com dois filmes em suas mãos, um espaço maior para esse personagem apenas ofusca outros que, ou nem tiveram filmes próprios, ou foram diminuídos pela presença de heróis mais “importantes”. No caso de Thor (Chris Hemsworth), Os Vingadores é uma interessantíssima continuação da relação do asgardiano com seu irmão Loki (Tom Hiddleston), o verdadeiro vilão do filme. A escolha vilanesca, aliás, é extremamente acertada, visto que, com a grande participação do antagonista no filme homônimo de seu irmão, muitos espectadores já vieram entendidos de um personagem com camadas. Tal conhecimento apenas tem a adicionar valor ao filme, nunca preenchendo lacunas deixadas pelo roteiro. Todavia, em termos de desenvolvimento de personagem, o Deus do Trovão não ganha nada de substancial do roteiro. Nesse caso, quando se compara o asgardiano com Tony Stark, há enormes discrepâncias em relação aos arcos pessoais de cada um. Diante da ameaça alienígena, o Homem de Ferro, considerado tão perigoso quanto certa criatura verde por pessoas próximas, salva a todos e prova ser um real herói. As jornadas traçadas pelos personagens de Hemsworth e Downey Jr. são enormemente díspares, com a do Thor sendo puramente narrativa: retornar a Terra para reencontrar o seu irmão e levá-lo de volta para casa. Whedon, porém, está mais interessado na construção das relações.

Quando vamos falar da interação entre cada um desses heróis, definimos um filme completamente diferente, que vai além das possibilidades encontradas em jornadas individuais clássicas. Joss Whedon acerta ao criar dinâmicas extremamente vivas, aliando-se a um apurado humor. Robert Downey Jr. não apenas tem uma performance inigualável como o Homem de Ferro por causa do seu talento em representar nas telas uma versão próxima de si mesmo, como também devido aos ótimos diálogos, algumas trocas rápidas e espontâneas, colocados no papel. Dentre tantos momentos possíveis de serem citados e que definem os comportamentos de cada um dos seis heróis, a maneira como o Capitão América (Chris Evans) trata Bruce Banner (Mark Ruffalo) é completamente diferente da maneira como Tony Stark apresenta tal conexão. As coisas não permanecem na superficialidade, com Steve Rogers sendo a voz da razão e Tony Stark um homem sem noção das consequências de suas ações, mas se aprofundam ao vincular Stark e Banner no conforme de suas criações: a origem de seus “poderes”, responsáveis por terem os salvados como capazes de destruí-los a qualquer momento. Joss Whedon entende o seu filme ao definir as arquitetações malignas de Loki como sendo a desestabilização da equipe, principalmente ao jogar o Incrível Hulk contra os próprios heróis, sendo uma ameaça interna. A própria captura de Clint Barton (Jeremy Renner), arqueiro de habilidades infinitas controlado mentalmente por Loki e futuro membro-fundador da super-equipe, é uma aliada dessa intenção de Whedon em criar crises internas, muito antes de qualquer Guerra Civil.

“Esse é o meu segredo… Eu estou sempre zangado.”

Ademais, é em campo de batalha que todos esse itens se elucidam factualmente, dado o prenúncio de uma equipe desorganizada. Nota-se, por exemplo, que o responsável pela união da equipe, Nick Fury (Samuel L. Jackson), diretor da S.H.I.E.L.D, tem intenções questionáveis com a criação do grupo e recebe, portanto, um papel extremamente indireto na Batalha de Nova Iorque, a definição em cena de coletividade para uma super-equipe. Por outro lado, é justamente quando falamos da S.H.I.E.L.D que encontramos as características mais defeituosas do roteiro. O Conselho, aparecendo brevemente em apenas três cenas, uma no início, uma no final e outra no “epílogo”, é responsável pela criação de uma abrupta intervenção no que estava sendo construído durante o clímax. A desconexão da ameaça do míssil com a original de Loki diminui a gravidade da atuação do Deus da Trapaça, ainda excepcionalmente bem interpretado por Hiddleston; suas feições, incluindo o sorriso maquiavélico, diz muito da sua prepotência, do achar-se superior aos outros. Quebrando clichês, a derrota do vilão não acontece nem mesmo no final da batalha, como se esperaria, mas no meio dela, humilhado pelo Gigante Esmeralda. Entretanto, após isso, com o surgimento da nova complicação, Loki é esquecido pelo enredo e, naturalmente, pelos espectadores. Por sinal, a encarnação de Mark Ruffalo para o Hulk é, perdoem o trocadilho, incrível. O ator assimila muito da paranoia que o personagem tem pela sua própria natureza. Ademais, o design do monstro é outro acerto, jogando fora aquela construção feita em O Incrível Hulk e criando uma criatura verdadeiramente realista, com feições mais primitivas, mais próximas dos quadrinhos, e que, ainda assim, remetem diretamente as de Ruffalo.

Em um outro plano, a premissa simples, sem muitas complicações, permite um desenvolvimento, dado tantos personagens coadjuvantes, mais envolvente. Os Vingadores não tem a pretensão de ser alguma coisa a mais que um blockbuster extremamente bem feito, com uma história interessante e personagens relacionáveis. Na trama, um ser alienígena tem planos de conquistar a Terra, recebendo um exército de incontáveis criaturas em troca do Tesseract, objeto cobiçado por uma figura oculta, que uma das cenas pós-créditos revelaria ser Thanos. Tal figura obscura, todavia, é apenas sugerida, sem ter nenhuma contribuição definitiva na história. A questão é que, nessa simplicidade, que não proporciona desdobramentos propositais, os Vingadores acabam não por enfrentar Loki exatamente, durante a grandiosíssima Batalha de Nova Iorque, mas um exército alienígena completamente genérico. Nem mesmo o fato do irmão de Thor ser, no final das contas, um mero meio para Thanos alcançar seu objetivo é realmente pontuado. Perde-se, assim, a chance de fazer um excepcional contraste, visto que aquele que anseia ser o dono de um povo inteiro recebeu tudo o que precisaria para isso de mãos beijadas, sem realmente ter conquistado aquele exército. Ao incluir a decisão do Conselho em explodir Manhattan para garantir a segurança do resto do mundo e fazer o Homem de Ferro guiar o míssil para o buraco de minhoca, Joss Whedon acaba com a existência da ameaça de uma vez, uma facilitação imensa, ainda mais pelo fato do destruidor de todo aquele exército, o míssil, não ter relação nem com os super-heróis nem com os próprios vilões; é uma ameaça terceira, completamente externa ao que estava acontecendo na batalha.

“Tua mãe sabe que usas a cortina dela?”

Ao passo que o duelo entre os heróis, na metade do filme, mostra uma imaturidade dos personagens em lidar com aliados, além de referenciar os próprios quadrinhos que, sempre com interesse nas vendas, colocou os mais famosos rostos ao seu alcance para se enfrentarem, seja pela mais banal das razões seja por conflitos éticos poderosos, a Batalha de Nova Iorque é o pulsante desejo de união que todos os fãs queriam ver, e que a maior parte dos outros espectadores iria amar experienciar pela primeira vez, da forma certa, como deveria ser feito. Cada um dos heróis, os mais poderosos e os mais humanos, tem um papel naquele conflito e Joss Whedon promove uma coesão divertidíssima. Outrossim, como o Gavião não havia recebido muita carga dramática, ele desponta na sequência, protagonista de algumas das cenas mais inventivas filmadas pelo diretor, dono de uma aliada, a câmera, espetacular, especialmente no “plano-sequência”, que nos ambienta magnificamente pelo cenário e torna-se, acima de tudo, um sinônimo de imersão. Por outro lado, a Viúva Negra, alavancada emocionalmente pela captura de seu parceiro está mais ausente na batalha, mesmo que Whedon lhe dê a “importante” função de fechar o portal. Aliás, a atriz Scarlett Johansson sabe, com os olhos, nos enganar, dizendo coisas completamente contrárias ao que sua personagem está sentindo, como durante a conversação com Loki, que expõe o passado da heroína e a maleficência do vilão. Whedon, contudo, não se permite criar uma conclusão mais bem arrojada, acelerando o processo pós-batalha e não concluindo por definitivo certos arcos pessoais, por menores que fossem. O futuro, contudo, ia mostrar construções maiores e mais significativas para os heróis, tornando-os favoritos de milhares de fãs.

Quando olhamos para o Capitão América atualmente estamos diante de um dos personagens mais bem construídos da franquia. Se O Soldado Invernal quebrou qualquer crença do Sentinela da Liberdade nos fins do governo, Os Vingadores certamente é uma das causas, ao desconstruir a imagem de bem, dando ambiguidade para a S.H.I.E.L.D; a morte de princípios e ideais fora da moda. Mesmo assim, a idolatria que o mundo tem pelo herói é outra pontuação feita por Whedon e Penn, que colocam na morte de Coulson a responsabilidade dos heróis em assumirem os seus fardos, fomentarem um legado para suas existências que, sem obras, são vazias. Whedon, ao projetar um uniforme colorido para o personagem, cria, mesmo que diante de um figurino propositalmente antiquado, uma antítese de época que permite Os Vingadores ser uma obra possivelmente atemporal, que funciona para diferentes gerações e idades. O próprio uniforme do herói é uma composição que não pode ser atribuída a nenhuma época, ficando presa a um caráter imaginativo, combinante com Coulson e sua idealização do herói. Não é que o longa-metragem seja a produção mais bem acabada do estúdio, mas definitivamente este é o trabalho mais importante da Marvel Studios, certeiro, qualificado a receber todos os louros possíveis, dando condições para um futuro de glória no qual o estúdio é sinônimo de sucesso de bilheteria e público, o ideal a ser seguido pelos concorrentes. Surpreendentemente, o tema da equipe, presente na decente trilha sonora de Alan Silvestri, seria o único a permanecer forte na memória das pessoas. Tudo é equivalente a sucesso. Os sonhos de milhões de fãs tornaram-se realidade e os quadrinhos não apenas ganharam ótimas versões cinematográficas, como tornaram-se populares para além dos nichos de seus primeiros seguidores. Todos saúdam os Vingadores.

Os Vingadores (The Avengers) – EUA, 2012
Direção: Joss Whedon
Roteiro: Joss Whedon, Zak Penn
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgård, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow, Paul Bettany, Alexis Denisof
Duração: 143 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.