Crítica | Os Violentos Vão Para O Inferno

estrelas 3,5

Mais vale ser um palhaço vivo do que um herói morto.

Quando dirigiu Os Violentos Vão Para O Inferno (1968), Sergio Corbucci já tinha seis westerns no currículo (Massacre no Grand Canyon, 1964; Minnesota Clay, 1964; Django, 1966 – este, o seu primeiro grande sucesso comercial; Ringo e Sua Pistola de Ouro, 1966; Joe, o Pistoleiro Implacável, 1966, e Os Cruéis, 1967), obras nas quais podemos ver sua evolução como diretor e sua identidade como criador de um estilo que mesclava várias influências do gênero, especialmente de Sergio Leone, e que tinha um grande apreço pela comédia, um dos gêneros característicos da filmografia de Corbucci.

Em Os Violentos Vão Para O Inferno — infeliz título nacional, pra variar –, o mercenário Sergei Kowalski, o polaco (interpretado por Franco Nero, com sua esterna simpatia), se vê envolvido em um momento tardio da Revolução Mexicana, o que caracteriza o longa como um Zapata western, porém, com menos importância dada aos aspectos políticos e mais à relação entre “o polaco” e Paco Roman (muitíssimo bem interpretado por Tony Musante), uma relação de companheirismo e desconfiança que marca a maioria os westerns italianos.

A forte influência de Leone sobre Corbucci neste filme vem principalmente de Três Homens em Conflito (1966), dos créditos iniciais ao duelo na arena de tourada, mas nós podemos ver traços da transformação realizados por Corbucci que dão ao longa uma alma própria, sempre jogando pesado com a comédia — esta, exposta de forma irônica e até cínica, vide a figuração de Paco, o revolucionário, como um palhaço — e de maneira muito sábia equilibrando doses de erotismo, ação e elementos canônicos do western como o roubo do trem, o roubo do banco, cenas de cavalgada e uma sequência no saloon.

A música de Ennio Morricone e Bruno Nicolai ajudam a montar essa identidade geral através de uma melodia recorrente, com o famoso ‘assobio de reconhecimento’ que marca a personalidade dos envolvidos na história e dá para o espectador um parâmetro de comportamento ou ações que podem surgir toda vez que ouvimos a melodia. Junto a isso, algumas composições que misturam ingredientes de música mexicana e famosas partituras de westerns estão presentes, colocadas de maneira bem equilibrada ao longo da fita, nunca entrando no patamar de muleta narrativa.

Corbucci consegue excelentes panorâmicas do espaço geográfico e seus movimentos e planos inventivos ajudam a criar um significado estético marcante para o filme (com exceção à fotografia noturna). O ritmo dado pela montagem de Eugenio Alabiso, especialmente nos tiroteios, fixam um constante interesse do espectador para o que está acontecendo, mesmo que esbarre na tendência cronista do roteiro, cuja linha narrativa é bem tênue, estabelecida através de personagens recorrentes e pensada como uma “sequência lógica de blocos independentes”.

O grande problema desse tipo de enredo é que ele sofre praticamente em todo o miolo, mas consegue resultados quase irreparáveis na abertura e no desfecho, uma característica que talvez nuble o olhar de alguns espectadores que acabam perdoando o desenvolvimento permeado de pontos pouco interessantes. O que acaba salvando uma parte desse aspecto é a oposição entre Paco e o polaco. A dubiedade moral e a traição (elementos-chave da Trilogia dos Dólares, na qual o time de roteiristas se inspirou para escrever esta história) vai ganhando espaço à medida que conhecemos a dupla e simpatizamos ou antipatizamos com ela. De todos os envolvidos nesses meandros comportamentais, a única personagem que recebe um mal tratamento é Columba (Giovanna Ralli), cuja presença no longa tem pouquíssima utilidade e que poderia ser facilmente substituída, uma vez que o mote da obra não gira em torno dela, não se expande consideravelmente com sua presença e nem depende dela para existir.

Mesmo com alguns problemas de roteiro, Os Violentos Vão Para O Inferno é um dos Zapata westerns mais icônicos do cinema e uma das obras mais interessantes de Corbucci, que no mesmo ano lançaria um outro filme, este sim excelente, O Vingador Silencioso. O espectador é enganado ao final com frequentes “ameaças” de que a obra terminaria mas outra e outra sequência se acrescentam ao desfecho, que alcança o seu término numa conciliação discordante e solitária entre os protagonistas, como não poderia deixar de ser. A sina do cavaleiro solitário, máxima dos grandes faroestes, se dá aqui de duas formas e tanto Paco quando o polaco sentem a separação, mas suas vidas e seus interesses acabam falando mais alto que o sentimento de pertencer, empurrando cada um para um caminho diferente. O filme se fecha, então, em um ciclo canônico e da melhor maneira possível.

Os Violentos Vão Para O Inferno (Il mercenario) — Itália, Espanha, 1968
Direção: Sergio Corbucci
Roteiro: Sergio Corbucci, Adriano Bolzoni, Giorgio Arlorio, Franco Solinas, Sergio Spina, Luciano Vincenzoni
Elenco: Franco Nero, Jack Palance, Tony Musante, Giovanna Ralli, Eduardo Fajardo, Lorenzo Robledo, Álvaro de Luna, Raf Baldassarre, Vicente Roca, José Canalejas, Franco Ressel
Duração: 110 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.