Crítica | Os X-Men de Stan Lee, Parte 1 (Uncanny X-Men #2 a 7, 1964)

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Dentre as produções da lendária dupla Stan Lee e Jack Kirby, os X-Men dificilmente são lembrados como uma produção central, para além do valor histórico em preparar a franquia que se tornou um dos grandes carros chefes da Marvel entre anos 1970 e a década de 2000. Em alguma medida obscurecidos pelo sucesso do relaunch com a equipe All-New, All-Diferent, a equipe original dos X-Men voltou a ganhar destaque recentemente com as minisséries Primeira Classe e com o subsequente arco dos Novíssimos X-MenApós revisitar o primeiro número da revista, nos voltamos agora para as primeiras aventuras dos X-Men, buscando ver quais os pontos fortes e principais defeitos dessa encarnação original.

Temos aqui histórias cheias de escolhas absurdas que exemplificam o quanto o famoso “método Marvel” era capaz de funcionar como um verdadeiro aleatorizador de quadrinhos quando não havia boa comunicação entre roteirista e desenhista (ou, simplesmente, quando Stan Lee fazia a coisa toda meio nas coxas). Por outro lado, estes absurdos sem noção é que dão um toque especial à coisa toda, garantindo aquele charme da Era de Prata onde, apesar dos roteiros não fugirem muito do previsível, a jornada para chegar até lá frequentemente acaba por surpreender. Além disso e mais importante, temos aqui uma rápida construção e evolução de nossos personagens no sentido de se tornarem as versões que tanto conhecemos, pontuada por inúmeros momentos icônicos que merecem ser revisitados por todo leitor interessado pela história dos mutunas!

Equipe atual: Ciclope (Scott Summers) (torna-se líder na edição 7), Garota Marvel (Jean Grey), Homem de Gelo (Bobby Drake), Anjo (Warren Worthington III), Fera (Henry McCoy).
Diretor do Instituto: Professor X (Charles Xavier).

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Uncanny X-Men #2: “Ninguém Pode Parar o Vanisher!”

No One Can Stop The Vanisher! — (Novembro de 1963)


Após o primeiro confronto contra Magneto, os X-Men encaram aqui seu segundo mutante do mal, o infame e frequentemente esquecido Vanisher. Ao invés de provar algum ponto filosófico através de uma demonstração de força, o inimigo dessa vez só quer assaltar uns bancos e roubar planos do Pentágono (provavelmente para vender por uma merreca para os comunistas, como era de praxe). E, claro, fazer um show em cima disso, anunciando com antecedência que o fará e tudo mais, para ganhar notoriedade como um grande… criminoso procurado? Essa síndrome de Arsène Lupin mostra um tanto de falta de noção por parte desses vilões pouco criativos. Para ser Lupin, você tem que, além de ser competente nos seus roubos, no mínimo ter algum estilo. Olhe para a fantasia do Vanisher, na capa ali acima. Pois é.

Os familiarizados com as aventuras iniciais do Homem-Aranha reconhecerão um parentesco inusitado entre a estreia de Vanisher e a estreia de outro aspirante a Lupin desprovido de classe: o Abutre. Ambos vilões são carecas e magrelos, aparentemente de meia idade, e seu desafio aos respectivos heróis consiste em anunciar seus assaltos antecipadamente para, com o uso de suas habilidades especiais, provar que é impossível pegá-los mesmo de sobreaviso. E, ainda por cima, o detalhe: ambos estrelaram a edição número 2 das respectivas revistas mensais principais, Uncanny X-Men e Amazing Spider-Man!

Quando o Pentágono chama uns gangsters para cuidar da segurança.

É interessante ver aqui, nas sequências iniciais, nossos heróis principiantes sendo recebidos calorosamente pelo público nas ruas por onde passam, inclusive com um grupo de garotas tietando o Anjo – e um grupo de pedreiros tietando o Ciclope! Fica aqui um pouco de lado a ideia dos mutantes como um tipo diferente de super-heróis, que têm de lidar com o preconceito e não-aceitação da sociedade por serem representantes da espécie mutante, introduzida com precisão na primeira edição. Apesar de ser de certa forma uma inconsistência, podemos reconhecer que isso tudo é sempre bastante circunstancial, já que veremos ao longo da história o nível do frenesi anti-mutante variando de tempos em tempos.

A edição peca um pouco pela redundância nas sequências em que, ao que parece, Lee e Kirby se preocupavam em mostrar os poderes de nossos heróis, provavelmente preocupados em introduzi-los aos novos leitores. Iniciando algo que será uma marca dessa fase inicial da revista, temos a maior parte do tempo gasta com essas demonstrações gratuitas que não adicionam muito à história principal. Neste número, temos isso na longa cena de abertura em que os X-Men têm de responder ao chamado do Professor e de dirigir da cidade à Mansão Xavier – causando o caos e salvando vidas no caminho. Destaque para Scott e Bobby, que pegam carona com um caminhão de sorvete – Bobby vai atrás, junto da mercadoria, é claro! Fora essa cena, temas ainda um conflito interno gratuito entre os adolescentes, e uma sessão de treinamento na Sala de Perigo, que recebe aqui seu nome icônico.

Os X-Men se encontram meio desajeitados no lidar com a ameaça do Vanisher, recebendo a ajuda do nosso já conhecido contato do professor no FBI, o agente Fred Duncan, que aparentemente é quem encarregou os X-Men desta missão. Abordando o bandido, nossos heróis tem uma luta muito bem desenhada no traço magnífico de Jack Kirby, mas na qual eles infelizmente se vêem sem muita possibilidade de vitória contra o poder de teleporte de Vanisher. No final das contas, quem salva o dia de forma nada heroica é o Professor X, que simplesmente desce um “format c:” na mente do Vanisher, fazendo o bandido se esquecer completamente de quem é e entregando-no à justiça em estado catatônico. Belo exemplo de resolver um conflito pacificamente, Professor Xavier! Um roteiro que tenta encontrar o potencial da equipe no formato episódico, mas ainda sem chegar lá, e que diverte principalmente ao mostrar o quanto nossos heróis ainda estão tentando pegar o jeito com a coisa mais do que por qualquer outro motivo. Destinado a receber destaque apenas muitas décadas depois (em especial na fase Kyle & Yost de X-Force), Vanisher é um vilão até que bacana – uma pena que anda tão sumido (ba dum tiss).

Curiosidades:

  • Primeira aparição do Vanisher (Telford Porter). O personagem tem suas aparições mais expressivas na minissérie Fallen Angels (1987), spin-off de Os Novos Mutantes e em X-Force (2008), entrando para a equipe que se formou logo após Complexo de Messias. 
  • Primeira aparição de Fred Duncan.
  • A Sala de Perigo é nomeada pela primeira vez aqui.
  • Primeira vez (de muitas) em que Xavier é mostrado se utilizando de seus poderes para apagar as memórias de alguém.

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Uncanny X-Men #3: “Cuidado com o Blob!”

Beware of the Blob! — (Janeiro de 1964)

Nesta terceira aventura reencontramos duas das coisas que rapidamente se tornam estandartes desta primeira fase da série: de um lado, temos nossa equipe mutante novamente agindo de forma extremamente amadora e descoordenada, enquanto que do outro e de maneira complementar presenciamos o Professor Xavier novamente agindo sem escrúpulos e, de quebra, se revelando um belo de um creep. Sim, é nesta edição que ocorre o famigerado balão de pensamento em que Xavier (acendendo um cachimbo, pra aumentar o tom da malandragem) declara seus profundos e reprimidos sentimentos por Jean Grey, os quais ele lamenta não poder admitir por conta de estar confinado em uma cadeira de rodas e por ser o líder dos X-Men. E talvez porque você é no mínimo 20 anos mais velho e conhece e tutora a moça desde a infância? Claro que na época a idade de Xavier ainda não era definida (e mesmo posteriormente será algo maleável), mas a noção de que se tratam de seus alunos adolescentes torna a coisa toda um tanto bizarra. Provavelmente fruto da necessidade de Stan Lee de encher os balões com qualquer coisa que fosse, a linha seria retomada décadas depois na Saga do Massacre. Pois é.

Xavier detecta a presença de um mutante desconhecido na região e manda os X-Men para tentarem recrutá-lo. Trata-se de Blob, atração de circo que diverte plateias com sua invulnerabilidade e resistência sobre-humanas. O figurão recusa educadamente a proposta dos X-Men, dizendo preferir continuar numa boa e levar sua vida no circo, que é o seu lugar. Qual é a rota de ação adequada a se tomar? Espancar o cara e apagar sua mente, é claro! E é isso que os X-Men tentam fazer, sob o comando desequilibrado de Charles Xavier. Blob foge e comanda um ataque circense à Mansão Xavier, com girafas, malabares, acrobatas e elefantes atacando o local e engajando os mutantes em uma divertida batalha que detona grande parte do lugar. Após pelejarem contra as inusitadas ameaças, os X-Men conseguem encurralar e imobilizar o Blob para que Xavier consiga trazer a solução final: formatação mental em todo mundo do circo. Com a ajuda de um amplificador (seria um protótipo do Cérebro?), Xavier consegue apagar as memórias de todos a respeito dos eventos recentes, e eles aparentemente levam tudo numa boa e voltam para sua vida itinerante. Pelo menos eles não ficaram catatônicos, como o Vanisher! E mais uma saída nada heroica para os mutantes da paz…

Uma edição divertida e com sequências de ação do mais puro pastelão, é uma boa pedida para quem se interessa por batalhas como Homem de Gelo vs. girafa e Fera vs. um gorila (não é um gorila super-poderoso nem nada, apenas um gorila regular). Claramente Kirby se diverte rendenizando os circenses nos seus mínimos detalhes, o que compensa um roteiro que não impressiona muito e pinta nossos heróis como um bando de boçais.

Curiosidades:

  • Primeira aparição do Blob (Frederick Dukes), vilão recorrente.
  • Primeira vez em que Ciclope é chamado de “Scott” – até então ele era referido apenas como “Slim”, como se fosse o seu nome mesmo. Nas edições brasileiras, o nome era traduzido como “Magrão”.
  • Primeira vez em que os X-Men oferecem a um mutante que se junte à equipe.
  • Primeira vez em que a Mansão Xavier é atacada.

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Uncanny X-Men #4: “A Irmandade de Mutantes do Mal”

The Brotherhood of Evil Mutants! — (Março de 1964)

Crítica de Ritter Fan. “Stan Lee tem muitos méritos. Suas ideias mirabolantes literalmente criaram a Marvel Comics como a conhecemos hoje. Suas criações são eternas e cativantes. Claro, sei muito bem que ele recebeu enormes e valiosíssimas contribuições de grandes nomes como Jack Kirby em sua época de ouro e que a Marvel não seria a Marvel sem esse conjunto de mentes brilhantes trabalhando. Mas não há como negar o valor de Stan Lee como mola propulsora e fábrica de ideiais super-heroísticas.

Dito isso, Stan Lee nunca foi um grande roteirista. Calma, não tenham ataques cardíacos e acessos de fúria. É uma verdade bastante clara quando lemos uma boa quantidade de obras escritas por ele. Mesmo considerando o contexto de sua grande era – os anos 60 – suas histórias, muito em linhas gerais, pecavam por excesso de exposição e um ritmo claudicante. Era um pouco melhor quando ele escrevia narrativas sem super-heróis, como no caso de Sgt. Fury e Seu Comando Selvagem, mas, trabalhando os queridos vigilantes mascarados, ele pecava por textos bem pueris.” Continue lendo a crítica dessa edição clicando aqui.

Curiosidades:

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Uncanny X-Men #5: “Capturado: Um X-Man!”

Trapped: One X-Man! — (Maio de 1964)

A quinta edição nos apresenta o retorno de nossa já querida Irmandade logo no número consecutivo ao de sua estreia. Também traz, por tabela, a terceira aparição de seu líder fundador Magneto. É com esta edição que, logo após a batalha pela ilha de Santo Marco, vemos a Irmandade se estabelecendo como oponente recorrente da equipe mutante. O grupo tem uma dinâmica interessante, em especial a relação conflituosa dos gêmeos com Magneto, e um conjunto de habilidades bastante interessante para fazer frente aos X-Men. Infelizmente, na edição anterior tal potencial passa longe de ser posto em prática de forma efetiva, sendo que a batalha em Santo Marco erra com tudo, desde o absurdismo da trama até a má execução das batalhas no castelo, que tem poucos momentos interessantes e muitos usos estapafúrdios dos poderes mutantes de ambos os lados. Será que o segundo embate consegue melhorar um pouco a situação? Felizmente, a resposta é: sim!

Algo que chama atenção de cara é o uso eficiente da continuidade, formando efetivamente um arco em torno dessa disputa inicial. Mais especificamente, o fato de que o Professor Xavier, ferido numa explosão ao final da edição anterior, encontra-se aparentemente inconsciente. Ao invés de levá-lo a um hospital ou procurar ajuda profissional, os jovens X-Men lidam com a situação como podem e apenas colocam o velho em repouso. Imagino que eles se preocupem em não revelar a ligação dos X-Men com o Professor e assim proteger todo o lance de “identidade secreta”. Mas, por outro lado, claramente falta orientação para essa molecada – ignorar uma pessoa inconsciente após ser atingida pela onda de choque de uma bomba não é lá muito responsável.

Causando uma primeira impressão negativa na sogra.

Em seguida, sem ter muito tempo para pensar no problema do Professor, os X-Men são surpreendidos por uma nova crise: a visita inesperada de John e Elaine Grey. Os pais de Jean fazem sua primeira aparição, dando trabalho para os mutantes que tem que correr para se livrar dos uniformes e colocar roupas “normais” (eu fico pensando se jovens realmente se vestiam assim nos anos 60), além de tentar forçar um ar de normalidade e acobertar a situação com o Professor, apenas dando a desculpa de que ele se encontra indisponível. No processo, Hank consegue afastá-los da Sala de Perigo e os leva para um tour na mansão (boa sorte para explicar em que isso se assemelha à uma escola!). Scott, num surto de ignorância após causar uma péssima primeira impressão nos potenciais sogros, se prende na Sala de Perigo e tem que se virar para não morrer nas armadilhas de Xavier e ao mesmo tempo não dar bandeira de que nada incomum está acontecendo.

Resolvida a crise tragicômica, os X-Men partem para a próxima. Caindo como patinhos numa complexa (leia-se: estapafúrdia) armadilha montada por Magneto, eles vão até uma corrida onde um suposto novo mutante está sendo perseguido pela multidão enfurecida pelo desempenho injusto do competidor. Tratava-se, no entanto, de Groxo disfarçado. Começa uma perseguição desenfreada pelas linhas e estações de trem. A perseguição traz ótimas cenas de batalha entre os mutantes, em especial nas breves lutas entre Ciclope vs. Mercúrio (que tem uma espécie de rivalidade nunca mencionada) e Homem de Gelo e Jean enfrentando o Mestre Mental. A chegada triunfal de Magneto, seguida pela captura do Anjo também não decepcionam, constituindo um momento dramático. Warren é capturado por Magneto e levado para… o Asteróide M! Recém saído de um golpe militar em um país na América Central, Magneto aparece agora com uma base em um asteroide. Trata-se de um salto narrativo que parece bastante absurdo para nossos padrões atuais, embora seja um lugar comum para um quadrinho da Era de Prata – o Hulk enfrenta alienígenas no espaço já em sua segunda aventura!

Além disso, como essa história se passa IMEDIATAMENTE após a anterior, tudo leva a crer que o asteroide surge como um “plano B” de Magneto, o que não faz o menor sentido. Para se colocar em posição de fazer exigências aos grandes poderes do mundo você: a.) faz uso de sua base orbital super equipada com armamentos, transportes e intensificadores de seus poderes mutantes ou b.) dá um golpe militar e toma o poder numa republiqueta fictícia na América Central, usando soldados nazistas ilusórios para enganar os cidadãos?

Enfim, com o Anjo sequestrado, os X-Men têm que dar conta de invadir o Asteróide M – o que se prova uma tarefa fácil já que, na ânsia em ver a armadilha funcionar bem, Magneto esquece o Groxo para trás, com direito a dispositivo que convoca sua nave pessoal de acesso ao asteroide e tudo. A luta no asteroide não é tão interessante quanto a perseguição na cidade, com momentos mais bobos e muito uso de armadilhas e quinquilharias da base sendo jogados de um lado para o outro. O fato de que os X-Men não podem contar com a ajuda do Professor também não é bem explorado, sendo apenas mencionado de relance, uma tensão mais falada do que mostrada. Mesmo assim, vemos um crescimento da caracterização aqui, tanto do lado dos heróis quanto dos vilões.

Após um embate em que acaba levando a pior, Magneto surtadamente faz alguma besteira nos computadores do asteroide e faz com que ele se auto-detone, basicamente, sem nem isolar os X-Men, como ele desejava, no processo. A fuga via túnel de gelo é bem bacana, com toda absurdez que lhe é devida. Os X-Men fogem via shuttle magnetizada, a qual Magneto gentilmente deixa que pouse na Terra antes de convocar de volta. Trata-se de um cara que sabe perder. Ao voltarem para casa… surpresa! O professor estava bem o tempo todo. Ele poderia ter ajudado os X-Men a quase não morrerem no vácuo espacial e a lidar com a captura do Anjo. Também poderia ter evitado quase colocar a escola em maus lençóis com o incidente com os Grey. Porém, nada disso importa, já que tudo não passou de um TESTE! E os X-Men passaram com menção honrosa. Professor Xavier, o senhor é um canalha!! Uma aventura divertidíssima que traz um pouco de tudo do que funcionou até aqui, maneirando nos exageros – o que não significa que não os tenhamos ainda em abundância, mas apenas que eles se encontram mais alinhados em torno de uma narrativa super-heróica envolvente.

“Just deal with it, Scott!”. Veja a desesperança no rosto dos alunos. Canalha.

Curiosidades:

  • Primeira aparição de John Grey.
  • Primeira aparição de Elaine Grey
  • Primeira aparição do Asteroide M.
  • Primeira vez em que os X-Men viajam para fora da Terra e lutam no espaço.
  • Primeira vez em que o Professor X admite ter mentido propositalmente para os X-Men.
  • Esta primeira versão do Asteroide M acaba caindo no oceano após Magneto apavorar e explodir com todo seu maquinário. Muitos anos depois, no arco Utopia, é este mesmo asteroide que é reerguido das profundezas oceânicas e transformado na base dos X-Men e asilo para mutantes na costa de São Francisco, recebendo o nome de Utopia.
  • Esta batalha marca o ponto em que o Professor Xavier considera seus primeiros alunos como graduados. Levaria um tempo até ele aceitar novos estudantes.

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Uncanny X-Men #6: “Namor Entra Para A Irmandade de Mutantes”

Sub-Mariner Joins the Evil Mutants! — (Julho de 1964)

.“Quem sou eu? Eu sou o… poder! Mas pode me chamar de Magneto! Guarde bem este nome, homo sapiens… Pois em breve você e toda sua raça servirão a mim!”

Temos aqui o terceiro embate contra a Irmandade de Mutantes, desta vez com o terrível Magneto alistando para sua causa ninguém menos do que Namor, o Príncipe Submarino. Na verdade, ambos Professor X e Magneto procuram pelo ensandecido monarca, que chamou a atenção desde quando fora despertado de sua amnésia por Johnny Storm, causando o caos tanto com o Quarteto Fantástico quanto com os recém-formados Vingadores. Relembrando sua desastrosa aliança com o Hulk, Namor aceita relutantemente a oferta de Magneto, que não sabe dar valor ao peso-pesado que conquistou para o seu time e fica fazendo bobagens com um imã gigante (MAGNETO O SEU PODER É O MAGNETISMO VOCÊ NÃO PRECISA DE UM IMÃ GIGANTE ISSO NÃO FAZ SENTIDO!).

A batalha entre as duas facções, com um estarrecido Namor pego no fogo cruzado, acontece em alto mar, o que traz um cenário novo para a coisa toda (embora, pra quem acabou de lutar em um asteroide, possa acabar sendo considerado um downgrade). O cruzamento dos poderes de ambas as equipes começa a sinalizar alguma fadiga aqui, após repetir algumas batidas pela terceira vez seguida – embora eu suspeite que isso seja culpa mais da verborragia de Lee do que dos traços de Kirby, que continuam majestosos. Não bastasse o excesso de palavras, temos aqui novamente o efeito indesejado em que o que está escrito por vezes não parece “ornar” com o que é mostrado nos desenhos, em especial no que tange aos trechos mais explicativos do roteiro.

Acontece aqui também uma das sequências mais visualmente interessantes desta fase de Jack Kirby na arte, que é a de Xavier e Magneto realizando a busca por Namor através de suas projeções astrais. Trata-se de um dos usos mais interessantes do poder de Xavier mostrado até agora (certamente mais divertido do que lobotomizar os inimigos e mandar direto pro manicômio judiciário), e sua rendenização no ambiente submarino é simplesmente sensacional. Por outro lado, o motivo pelo qual Magneto seria capaz de fazer o mesmo me escapa completamente. Vai ver que ele aprendeu a meditar com um professor muito, muito bom…

A Irmandade não parece ter nada que se assemelhe com um plano aqui, agindo de forma um tanto aleatória com Magneto berrando comandos e se desentendendo com seu convidado Namor o tempo todo (dá pra imaginar os diálogos deles sendo gritados a todos pulmões). Com Namor aceitando facilmente sua identidade como mutante, dentre todos os contos de supremacia de espécie e dominação mundial que Magneto poderia se utilizar, o mestre do magnetismo opta por oferecer a Feiticeira Escarlate como isca para o désposta, queimando definitivamente seu filme com os gêmeos, e em última instância com o próprio Namor.

Guardando seu maior interesse nas sequências visuais de projeção astral e na reunião dos vários personagens em cenas de ação visualmente interessantes (ainda que amarradas por uma narrativa escorregadia), a edição conta também com um valor histórico notável. Trata-se aqui do primeiro momento em que os X-Men se mostram integrados ao Universo Marvel mais amplo, iniciativa que é complementada por Fantastic Four #28, edição lançada no mesmo mês e que traz uma participação especial dos mutantes. A escolha de Namor é bastante eficiente, já que ele tem tretas profundas ligações tanto com o Quarteto quanto com os Vingadores, background que é explicitamente aludido aqui. Outro ponto forte que merece destaque é a forma como Namor é retratado aqui hilariamente como uma espécie de ombudsman da revista dos X-Men. Ele se horroriza com a prepotente desorganização dos jovens X-Men, mas principalmente com o quanto a Irmandade é um time disfuncional cheio de malucos. É fantástico que a gota d’água para ele seja a falta de cordialidade de Magneto com a Feiticeira Escarlate, o que acaba pondo um fim à parceria. Namor é o grande injustiçado dessa edição, pego no fogo cruzado deste bando de maníacos!

Curiosidades: 

  • Primeira vez em que os X-Men encontram-se com o Namor. O personagem se juntaria a equipe muitas décadas depois, também na saga Utopia.
  • A hipótese de que Namor seja um mutante já fora levantada anteriormente, em Fantastic Four Annual #1.
  • Primeira vez na revista em que os X-Men interagem com personagens de outros núcleos do Universo Marvel (porém alguns personagens da franquia já haviam aparecido em outras publicações, mais notavelmente o Anjo em Tales of Suspense #49)

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Uncanny X-Men #7: “O Retorno do Blob”

The Return of The Blob! — (Setembro de 1964)

Enquanto que na sequência de edições até aqui tivemos aventuras que prezaram mais pela ação do que por tramas interessantes, essa história felizmente vem para quebrar um pouco este ritmo e trazer importantes desenvolvimentos aos nossos personagens. Pela quinta vez consecutiva (o que, se levarmos em conta que a revista ainda era bimestral na época, significa quase um ano) temos a Irmandade de Mutantes aparecendo como nossa ameaça central, dessa vez arrastando novamente o azarado Blob para o palco de guerra entre Professor X e Magneto, do qual o circense já tentou se safar sem sucesso na terceira edição. Mas esse não é o destaque da aventura: o mais interessante se passa na Mansão Xavier. Lembra do infame e desnecessariamente cruel teste de Xavier na edição 5? Aquele onde eles foram aprovados, mas ninguém deve ter tido graça de comemorar por um tempo de tanta raiva que sentiram do Professor X? Pois é, ele era o teste final da turma! Com isso temos os nossos primeiros X-Men se graduando com láurea honoris causa em formatação de mentes combate a mutantes maléficos (1. Cedo demais! e 2. Como é que eles vão justificar para os pais que continuarão morando no internato mesmo após a formatura?). Mesmo que seja um tanto sem sentido, a graduação traz dois momentos importantíssimos na cronologia mutante: a revelação do Cérebro (que por enquanto deve ser mantido em segredo por Scott, sabe Deus porque) e a nomeação de Ciclope como líder da equipe.

É interessante a forma como o quadrinho mostra que Scott hesita em aceitar sua “promoção”, ao que o Professor tenta contrapor um voto de confiança (no estilo boçal de Xavier, mas a intenção é o que vale). Logo depois, vemos Summers todo pimpão na escrivaninha do chefe, embora revele para seus animados colegas que na verdade, logo antes da boa notícia, ele pensava em deixar a equipe. Ninguém se importa (fora Jean, que esconde seus sentimentos) e todos vão para o Café A Go-Go ver Bernand, o poeta – um maluco beatnik que é o ídolo dos jovens de Westchester. Além de representar um momento importante na cronologia, temos aqui o melhor trabalho de desenvolvimento de personagem da série até o momento, sendo que passamos a perceber cada um de nossos heróis se desenvolvendo em uma voz mais própria e se diferenciando do bando homogênero que representavam até então.

Dias melhores virão, Magneto…

Antes de nos dirigirmos ao embate final, temos também uma cena completamente doida no Café A-Go-Go, com hippies pintando os pés do Fera e declarando-os objeto de adoração. BIZARRO. Em todo caso, a sequência consegue ser bastante engraçada (daquele jeito: não estou entendendo o que está acontecendo mas estou gostando), assim como a invasão da Irmandade ao circo, que é feita sem levar em conta que os circenses são velhos de guerra contra mutantes esquentados. A Irmandade peleja para se safar dessa, e convencem Blob a obter sua vingança pela formatação mental – apenas para o abandonarem novamente no final. Pobre Blob! Um dos grandes méritos da edição é conseguir ter tempo de desenvolver nossos personagens sem detrimento às sequências de luta e ação, que agora adquirem um interesse renovado com a viagem do Professor X para um destino misterioso (outro movimento que se tornará um clássico para o figurão). Não apenas temos um Ciclope se arriscando com a liderança em campo (e se saindo tão bem quanto na primeira edição), mas também nos beneficiamos pela impossibilidade de Xavier tentar resolver tudo apagando as mentes de todo mundo, o que já acaba sendo sempre anticlimático. Uma edição dinâmica, repleta de eventos interessantes e que consegue fazer um bom uso da Irmandade, mesmo após tantas aparições consecutivas – os milagres do desenvolvimento de personagem!

Curiosidades:

  • Scott Summers é nomeado por Xavier como o primeiro líder dos X-Men.
  • Primeira aparição do Cérebro. Aqui a máquina não funciona como uma interface com os poderes telepáticos de Xavier (embora tenhamos visto algo muito parecido com isso na edição 3), detectando automaticamente os mutantes já registrados como em um radar.
  • Todo o imbróglio com Scott, que queria abandonar a equipe mas acaba sendo pedido para liderar, será retomado de forma brilhante por Joss Whedon, várias décadas depois, no arco Despedaçados de Surpreendentes X-Men, onde uma vilã efetua um estudo de personagem tão intenso e brilhante sobre o Ciclope que ao final ele acaba quase tão catatônico quanto o Vanisher na edição 2.

Uncanny X-Men v1 #2 a 7, (EUA, Novembro de 1963 – Setembro de 1964)
Publicações no Brasil: Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men #1 (Ed. Panini, Outubro/2007)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Capa: Jack Kirby
Editora: Marvel Comics
Editoria: Stan Lee
Páginas: 23 (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.