Crítica | Os X-Men de Stan Lee, Parte 2 (Uncanny X-Men #8 a 13, 1964-1965)

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Deixando um pouco de lado a acirrada rixa com a Irmandade, o segundo ano dos X-Men é marcado pela exploração dos personagens e pela expansão do universo mutante. Ficamos sabendo mais sobre o passado do Professor X, os X-Men se encontram pela primeira vez com os Vingadores e já saem no braço – iniciando uma rixa de mais de 50 anos, descobrimos a Terra Selvagem nas profundezas da Antártica e vemos um antigo vilão sendo arrebatado por forças cósmicas inimagináveis.

Historicamente, esta sequência de edições nos encaminha para a reta final da fase inicial da revista onde, apesar da periodicidade bimestral, via-se algum esforço da parte de Lee & Kirby em expandir a franquia, construindo um elenco bastante interessante e inovador de personagens. Assim, ainda que Lee consiga brincar com ideias bastante interessantes e que lançarão bases definitivas para a franquia a cada edição, temos Kirby se afastando gradativamente de seu cargo na arte, o que sinaliza que a publicação acaba sendo aos poucos deixada para segundo plano, provavelmente devido a baixa vendagem.

Equipe atual: Ciclope (Scott Summers) (líder), Garota Marvel (Jean Grey)Homem de Gelo (Bobby Drake)Anjo (Warren Worthington III)Fera (Henry McCoy).
Diretor do Instituto: Professor X (Charles Xavier).

 

Uncanny X-Men #8: “A Ameaça Extraordinária de… Unus, o Intocável!”

The Uncanny Threat of…Unus, the Untouchable! — (Novembro de 1964)


“Estou farto de arriscar minha vida pelos humanos… Pelos mesmos humanos que nos temem, nos odeiam, que querem nos destruir!” – Hank McCoy

Continuando a explorar bem o novo status quo da equipe, com Scott como líder, acompanhamos a primeira sessão de treinamento coordenada por Magrão Summers. O cara até que se sai bem, imitando com precisão o estilo de treinamento de Xavier e propondo tarefas baseadas nos poderes de cada membro separadamente. É impossível ignorar que ele manda a Garota Marvel treinar crochê, de todas as coisas, também é explicado que se trata de um treino de precisão de sua telecinese (o do dia seguinte provavelmente será coar o café). Sessentismos à parte, o que ocorre de mais interessante aqui é que Scott sugere para Bobby que exercite a concentração de sua armadura de gelo, que até então era mais uma armadura de neve, e, ao fazê-la, dá origem à forma mais tradicional do Homem-de-Gelo. Um belo mérito para o novo líder!

Essas sequências de treinamento são sempre muito interessantes, embora frequentemente sejam repetitivas nessas edições iniciais (o que não é o caso aqui). É uma ideia muito bacana a de que os X-Men são heróis que treinam constantemente usos novos para suas habilidades, o que abre o potencial para que os poderes dos mutantes sejam sempre os explorados de forma mais criativa e não como um conjunto imobilizado de habilidades. Além disso, também servem para explorar as dinâmicas internas da equipe, outro de seus pontos fortes.

Falando em dinâmica interna de equipe, temos nesta edição a primeira ocorrência de um fato que se repetirá no futuro. Não, fique tranquilo que Jean ainda está viva! Trata-se do Fera deixando os X-Men – e dando um show de lição de moral em cima disso. Nestes primeiros anos de publicação, o personagem de Hank talvez seja o segundo melhor desenvolvido após Scott, mas isso se dá uma forma bem sutil para os padrões da época. Desde o início vemos um lado muito mais agressivo no Fera do que suas aparições posteriores poderiam sugerir. O disparador para a crise de Hank é nada menos do que uma turba de civis que perseguem ele e Bobby pelas ruas, após McCoy ter escalado um prédio para salvar uma criança que havia subido no telhado e não conseguia descer.

Após apanharem e terem suas roupas rasgadas, Hank chega absolutamente pistolado na mansão e desconta sua raiva dos humanos pra cima de Scott, declarando que o sonho da convivência pacífica é um erro. Embora possamos nos deixar enganar pelos modelos mais tradicionais que temos destes personagens e pelo traço de Kirby que os retrata bastante adultizados, é notável como o roteiro de Stan Lee caracteriza com precisão nossos heróis como adolescentes, o surto de raiva de Hank e a insegurança de Scott frente à crise um lembrete bem estruturado disso.

Apesar de ameaçar se juntar à Irmandade (sim, Hank é muito babaca nessa história), o que o Fera acaba fazendo é se tornar um lutador de luta-livre, fazendo um papel de antagonista como… o Fera! Um tempo se passa e vemos ele encarar o primeiro oponente capaz de derrotá-lo… Unus, o intocável! Com um campo de força defensivo, o vilão acaba com a sequência de vitórias do Fera que, ao avistar o Mestre Mental na platéia, junta os pontos e deduz que se trata de um mutante. Mostrando que sua afiliação real ainda reside do lado dos X-Men, Hank volta para a mansão para preparar uma bugiganga que derrotará Unus, uma trope conhecida da escrita de Lee na época.

Ô louco bicho olha essa Fera aí, meu!

Os X-Men tem menos sucesso do que o Fera ao enfrentar um Unus que tenta provar seu valor para a Irmandade roubando de alguns assaltantes (!?), e voltam para a mansão apenas para se surpreenderem com um Fera retornante que declara ter feito uma máquina para aumentar os poderes de Unus. Claro que a coisa desacamba para uma briga interna, e os colegas de equipe suspeitam que Hank tenha se filiado à Irmandade.

No fim das contas, o raio do Fera realmente ampliava os poderes de Unus – os tornando tão potentes que o cara não conseguia fazer mais nada. Uma saída bastante criativa e que amarra bem a subtrama da partida do Fera e suas breves dúvidas em relação a permanecer do lado dos X-Men. Scott declara ter dado um voto de confiança no Fera, para tentar pagar de que soube lidar melhor com a situação do que de fato ocorreu, e tudo acaba bem no segundo desafio da equipe sem o Professor X. Uma edição bastante sólida que volta a explorar bem a dinâmica interna da equipe, ainda que a solução da máquina do Fera soe um tanto forçada.

Curiosidades:

  • Primeira vez em que um grupo de civis hostiliza e persegue mutantes em público. Bobby e Hank são os “felizardos” que, em um show de babaquice por parte de uma turba cheia de ódio gratuito, acabam apanhando e tendo que correr por suas vidas (e identidades secretas). Apesar de citados na primeira edição, é a primeira vez em que vemos efetivamente o preconceito, a desconfiança e a violência dos humanos frente aos mutantes.
  • Primeira vez em que um X-Men deixa a equipe. Hank McCoy futuramente honraria sua participação no momento histórico, recaindo no comportamento, talvez da forma mais marcante na fase de Matt Fraction à frente de Uncanny X-Men.
  • Nesta edição, Bobby consegue controlar melhor sua técnica de armadura de gelo, que deixa de ter uma consistência de neve para se aproximar do visual tradicional mais conhecido no qual ele se parece mais com um… bem… um Homem de Gelo!
  • Primeira aparição de Unus (Angelo Unuscione). Um vilão praticamente esquecido ao longo do tempo, com poucas aparições significativas. Fora da Era de Prata, sua participação mais significativa seria apenas em Excalibur v3.
  • Os acontecimentos desta edição são citados em All-New X-Men #1.

 

Uncanny X-Men #9: “Surgem os Vingadores!”

Enter The Avengers! — (Janeiro de 1965)

A longa viagem de Xavier chega ao clímax nessa história que conta com o primeiro crossover entre os X-Men e os Vingadores (tirando um rápido encontro entre o Anjo e o Homem-de-Ferro em Tales of Suspense #49, que não é citado aqui). Após tantos meses de preparação, provavelmente teremos um épico que valerá por cada quadrinho gasto com esse mistério, não? Não? Não.

Na edição anterior, em uma rápida conversa telepática com Scott, vemos o Professor X descendo até as profundezas da Terra em uma cadeira motorizada, enquanto declara estar indo atrás de… Lúcifer! Será que Xavier, cansado da maldade dos humanos, decidiu descer até o inferno e enfrentar o sete-peles, o coisa ruim, o pata-rachada, o mochila de criança em carne e osso e literalmente cortar o mal pela raiz? Descobrimos nesta edição que, infelizmente, não é o caso! O tal do Lúcifer é apenas um vilão genérico, uma espécie de cientista entocado no subterrâneo cujo design lembra demais o do Magneto, mas cuja caracterização fica bem aquém da do Mestre do Magnetismo. Para uma ameaça que fora construída ao longo de três edições, trata-se de uma revelação surpreendentemente decepcionante.

Foi apenas questão de aparecer novamente na revista para que Xavier começasse a aprontar das suas canalhices. Aqui, ele convoca Scott telepaticamente para auxiliá-lo, com toques de chantagem emocional garantindo que eles viessem o mais cedo possível (dizendo que em breve iria morrer e tal). Embora não fique especificado, tudo indica que Lúcifer não é um mutante mas sim um supervilão com quem Xavier aleatoriamente tem uma rixa, já que ficamos sabendo aqui que fora ele o responsável pelo acidente que o deixou paraplégico (contrariando a informação dada na primeira edição, que diz que Xavier perdeu o uso das pernas em um acidente de infância). É fantástico que Xavier, um declarado homem de paz, esteja agora no que parece uma missão de assassinato puro e simples: após descer por quilômetros até o subterrâneo, o Professor X chega sacando uma pistola e atirando contra o cara sem cerimônia nem conversa. Brutal!

“Boa tarde, senhor! Gostaria de apresentá-lo a uma solução pacífica para nossas diferenças.”

Entendendo tão pouco quanto o leitor, os X-Men partem de barco até a Península Balcânica, apenas para se depararem com ninguém menos que os Vingadores, que chegaram lá seguindo um palpite randômico do martelo de Thor. Obedecendo ao primeiro mandamento dos crossovers de quadrinhos de super-heróis, as equipes se enfrentam por um tempo antes de perceberem que estão do mesmo lado, o que ao menos rende uma cena bacananinha de combate, embora bastante simplista – é o ponto alto da edição, o que não significa muita coisa. Para o azar de Xavier, Lúcifer revela que tem uma bomba atômica ligada a um leitor de seus batimentos cardíacos, que detonará caso ele morra.

Após apressar seus alunos, o Professor não consegue se segurar e ataca Lúcifer com um choque mental, deixando o cara catatônico. Ele então contata Thor mentalmente e pede que os Vingadores cessem a luta, explicando o motivo de estarem ali e pedindo para que eles vão embora, deixando seus alunos sozinhos para lidar com uma bomba atômica prestes a explodir. Parabéns, Professor X! Com a ajuda de Scott, Xavier consegue mapear o interior da arma e localizar uma forma de desarmá-la com uma rajada óptica, com Ciclope provando sua capacidade de controle de seu poder sob pressão.

Uma edição bem fraca, com uma ameaça genérica e mal construída, e onde a potencialmente empolgante aparição dos Vingadores não cumpre papel nenhum e não adiciona nada à trama que não seja variar a sequência da Sala de Perigo para um combate entre as equipes. A impressão que temos é a de que a intenção de Lee fora a de expandir um pouco a galeria de vilões dos mutantes e, de quebra, explorar um pouco sobre o passado misterioso do Professor X. Só que no meio do caminho, ele desisitiu e costurou algumas cenas genéricas que tinha já em mente dando origem a este conto desprovido de sentido. Pontos para a Marvel pela consistência: desde 1965 maquiando roteiros mequetrefes com fanservice e crossover entre equipes!

Curiosidades:

  • Primeiro encontro entre os X-Men e os Vingadores. As equipes teriam seus destinos entrelaçados por diversas vezes no futuro, em especial com a ida de seus vilões (e filhos de Magneto) Mercúrio e Feiticeira Escarlate para a equipe, além é claro do membro fundador Fera. Mais notavelmente, elas polarizaram um embate bastante importante na história do Universo Marvel no evento Vingadores vs. X-Men, de 2012.
  • Primeira aparição de Lúcifer. Vilão tão descartável que não tem nem nome civil. Talvez a criação menos inspirada da dupla Lee & Kirby.
  • A geografia da dupla continua enferrujada: é dito na edição que o laboratório de Lúcifer fica em um subterrâneo na Península Balcânica, mas em outro momento e nos desenhos é dito que temos na superfície uma vila típica da Bavaria.

 

Uncanny X-Men #10: “A Chegada de… Ka-Zar!”

The Coming of… Ka-Zar! — (Março de 1965)

Após um encontro decepcionante com os Vingadores, temos aqui uma aventura bastante aproveitável com o Ka-Zar, de todos os personagens possíveis! Isso serve para nos ensinar a nunca se pautar pelas premissas e jamais confiar nas suas expectativas, ainda mais quando lidamos com estes quadrinhos antigos do velho Stan, onde muitas vezes a coisa parece se organizar na forma do mais puro sorteio. Após o Anjo assistir um programa na televisão a respeito de um misterioso ataque em uma base de pesquisas na Antártica, onde uma figura estilo Tarzan foi avistada junto a um absurdo tigre dentes-de-sabre, os X-Men rapidamente se ouriçam com a ideia de visitar o local para investigar se o figurão se trata de um mutante. Não havendo nada que possa sugerir nem de leve que esse seja o caso, minha teoria é a de que os adolescentes estão em busca de uma aventura empolgante para tirar o amargor da tediosa jornada anterior.

O impacto do retorno de Xavier sobre a equipe, e mais especificamente sobre Scott é bem explorado. Por obra de algum tipo de milagre, o Professor X tem o bom senso de permitir que Scott continue a coordenar os treinamentos e organizar toda a expedição para a Antártica, inclusive sendo compreensivo com a insegurança do pupilo. É interessante ver como Ciclope passa a duvidar mais ainda de si mesmo após o retorno do Professor, hesitando em comandar a expedição. O roteiro consegue passar por esses pontos com notória economia de tempo, e rapidamente estamos acompanhando nossos heróis em sua exploração na Antártica, onde eles encontram a entrada secreta para uma terra perdida no tempo… a Terra Selvagem, fazendo sua primeira aparição.

Talvez por ter estreado aqui, o local acaba se tornando largamente associado com os X-Men, sendo futuramente palco de vários arcos dos mutantes. Tematicamente, a ideia até tem a ver com o tema da mutação e da evolução biológica – embora não saberia dizer se essa era a intenção na época. Meu palpite é que Kirby já se planejava para sair do título, e pediu para Lee uma desculpa para desenhar uns bichos pré-históricos. Digo isso porque os visuais dessa história são simplesmente fenomenais, sendo que não se trata de um tema tipicamente kirbyano, já que o artista tende a preferir o cósmico e a tecnologia à selva. Os Homens do Pântano, inimigos de Ka-Zar, têm um design bastante único, com suas roupas, armas e montarias bem detalhadas no lápis de Kirby, com um inegável charme pulp sessentista.

O homem alado e a terra esquecida.

A arte sólida ajuda a embalar uma leitura bastante divertida, que funda aqui um tipo de história para a equipe que seria particularmente bem explorada muitos anos depois, na revisitação de Jeff Parker a este período histórico inicial dos mutunas nas minisséries X-Men: First Class. Compartilho da visão do artista Chris Bachalo, que por mais de uma vez afirmou em entrevistas que considera que X-Men é menos uma franquia de super heróis do que uma série de ficção científica com enfoque em personagens. Há um charme pouco explorado no conceito dos mutantes explorando locais e ocorrências absurdas, utilizando-se de seus poderes para tentarem lidar com essas situações e investigar seu sentido, mais do que combater outros seres superpoderosos. Essa veia é exatamente o segredo do sucesso das minisséries de Parker (ou mesmo o motivo pelo qual a franquia se sai tão bem em seus arcos de space opera), e eu acredito que tudo isso se origina aqui nessa aventura simples.

Auxiliando Ka-Zar a lidar com os terríveis homens do pântano, os X-Men vão embora sabendo tão pouco quanto quando chegaram ali, mas ao menos chegam à conclusão que Ka-Zar não é um mutante. Nessa primeira aparição o personagem se comunica no tradicional inglês limitado de nativos de faroeste, e o pouco que ele expressa para além do necessário no lidar com as armadilhas e batalhas contra os homens do pântano serve para deixar bem claro que ele não deseja companhia de ninguém do mundo superior ali. Uma aventura bastante decente, ainda que sem muita substância para além da ação, que serve para semear locais e personagens que futuramente serão muito bem utilizados. Quer dizer, a Terra Selvagem eu sei que é, já o Ka-Zar…

Curiosidades:

  • Primeira aparição de Ka-Zar (Kevin Plunder). O personagem foi baseado em um misto de Tarzan com o personagem de Joe Kubert, Tor. Ele traz o nome de um personagem do mesmo tipo que protagonizava romances pulp na década de 1930 e que se tornou propriedade da Timely Comics, companhia que se tornaria a Marvel. Assim, embora seja de certa forma um relançamento de um personagem antigo, Stan Lee declarou que não se baseou nessas histórias quando criou a versão.
  • Primeira aparição da Terra Selvagem. O local permaneceria atrelado a diversas aventuras dos X-Men ao longo de várias eras. Embora Magneto não apareça nesta aventura inaugural, o local será comumente associado às atividades do vilão no futuro.

 

Uncanny X-Men #11: “O Triunfo de Magneto!”

The Triumph of Magneto! — (Maio de 1965)

“Servimos a Magneto pela última vez. Tínhamos uma dívida com ele… Mas ela já foi paga muitas vezes.” – Wanda & Pietro Maximoff

Após expandir com sucesso o mundo dos mutantes com a introdução da Terra Selvagem na edição anterior, Lee & Kirby revisitam os já sumidos arqui-rivais dos X-Men em uma história que serve como espécie de “final de temporada” para o arco da primeira Irmandade de Mutantes. O Triunfo de Magneto traz, portanto, o exato oposto daquilo que o título promete: trata-se da derrota de Magneto e de toda sua trupe de mutantes, nas mãos do aleatoríssimo Estranho. E bota estranho nessa história!

Detectado pelo Cérebro como possuindo um poder totalmente fora das escalas, o Estranho aparenta ser uma espécie de forasteiro, dando bandeira desde o início a respeito de sua procedência alienígena. Nossas equipes mutantes não atentam para nada disso, ambos Irmandade e X-Men pensando se tratar de um mutante ultra-poderoso. O Estranho se dirige até o QG da Irmandade (que agora fica num apartamentinho de baixo custo em cima de uma loja de conveniências – um downgrade considerável em relação ao Asteróide M), atraído aparentemente por um chamado magnético de seu líder, mas simplesmente não entende o convite dos mutantes para unir-se a eles. Com sua conhecida falta de tato em lidar com possíveis aliados, Magneto ordena um ataque, do qual o Mestre Mental sai transformado em pedra. Assim, sem mais nem menos, aparentemente temos o Estranho colocando um fim na carreira do facínora.

Após este golpe inicial, os X-Men chegam logo em seguida e a coisa toda evolui para uma batalha entre as duas facções – a última delas. Uma luta bastante interessante que acaba se resumindo nos gêmeos Maximoff vs. os X-Men, já que em meio à confusão o Estranho acaba raptando Magneto e Groxo, teleportando-se misteriosamente com ambos. Não apenas a sequência de luta é muito bem realizada no traço de Kirby, mas temos algo interessante no roteiro com as equipes subitamente percebendo que Magneto partiu, e, com isso, os gêmeos dando conta de que não há motivo para lutarem mais contra os X-Men. Assim acaba a primeira Irmandade dos Mutantes, e os gêmeos Maximoff se vêem livres para perseguir uma vida mais afinada som seu alinhamento moral.

Infelizmente a dupla recusa o convite de Scott para entrar para os X-Men – embora Wanda se mostre inclinada a aceitar, Pietro é categórico em negar o convite, e prefere se retirar para a Europa Central, longe dos conflitos dos mutantes. O que poderia ter sido, caso eles ficassem? Personagens notáveis tanto visualmente quanto em termos de seus poderes e personalidades, Mercúrio e Feiticeira Escarlate se destacaram como talvez os vilões mais interessantes desta primeira fase – até mesmo do que o próprio Magneto que, após uma primeira aparição bem trabalhada, se tornou uma espécie de bufão sem rumo.

Se esse é o triunfo, imagina só a cara que deve ter a derrota.

Sem muito tempo para chorar a perda dos dois, os X-Men voltam para a mansão onde tentam ajudar o pobre Mestre Mental petrficado. Xavier diz que ele está vivo, mas virou pedra – todos acham uma pena e fica por isso mesmo. Isso porque Xavier se apavora todo em pensar que Magneto está nas mãos do Estranho – o que é um momento importantíssimo no desenvolvimento do personagem, uma vez que é a primeira alusão a uma possível amizade entre os dois. Os X-Men conseguem perseguir o sinal do poder do Estranho, encontrando Magneto e Groxo totalmente imobilizados por uma membrana bizarra criada pelos poderes do cara. E então descobrimos porque eles foram poupados de se tornarem pedra: seu destino é outro, já que o Estranho é um ser cósmico poderosíssimo que veio até a Terra em busca de espécimes para seu zoológico espacial de mutações.

A revelação, além de se utilizar do “humano preso em um zoológico espacial”, premissa que coincidentemente estaria presente no piloto da série original de Star Trek completado (mas não transmitido) no mesmo ano desta edição, traz um twist irônico à primeira fase do conflito entre humanos e mutantes. Magneto, que se considerava um ser superior devido à sua mutação, acaba descobrindo um peixe muito maior na forma do Estranho, que relativiza sua suposta superioridade genética como uma curiosidade a ser colocada ao lado de outra tantas em sua coleção espacial. Uma boa edição, com ótimos momentos de ação e uso de poderes e desenvolvimento decente de personagens, ainda que não se trate de uma vitória satisfatória do ponto de vista dos X-Men, que pouco influenciam sobre a derrocada da Irmandade no final das contas. Inusitadamente, por outro lado, o desfecho se alinha bem com o clima de iniciantes da equipe e traz um ponto de vista interessante, mostrando o quão prosaico é o conflito de Magneto frente à vastidão do Universo Marvel.

Curiosidades:

  • Dissolução da primeira Irmandade de Mutantes. Mestre Mental acaba petrificado e com um destino incerto na mansão. Wanda e Pietro voltam para a Europa Central, buscando paz após o período de serventia à Magneto. Magneto e Groxo são capturados pelo Estranho e levados para um lugar não determinado do espaço.
  • Primeira aparição do Estranho. O misterioso ser espacial não é dos que mais dá as caras pelas histórias, mas vez ou outra marca presença junto a outras personalidades cósmicas.
  • Última edição com a arte integralmente por Jack Kirby.

 

Uncanny X-Men #12 e 13: “A Origem do Professor X / Por Onde Passa o Fanático”

The Origin of Professor X / Where Walks the Juggernaut — (Julho — Setembro de 1965)

“Então, querido irmão! Nos encontramos novamente! Uma pena que seja pela última vez!” – Fanático

A Origem do Professor X? Será que descobriremos por que, afinal de contas, ele é tão babaca assim? Bem… Não exatamente! Ficamos sabendo aqui um pouco mais sobre as origens e a infância de Xavier, embora o conto não esclareça necessariamente a origem do “Professor X”, ou seja, o que fez com que ele decidisse se tornar uma espécie de super-herói e utilizar seus poderes para fazer o bem (revelação que poderia inclusive retomar a ponta solta do plot de Lúcifer – não que eu faça questão). Na verdade trata-se mais da origem do vilão deste arco em duas edições, o Fanático, do que de seu irmão adotivo Professor X propriamente dito.

Com o Cérebro aparentemente entrando em pane após detectar um fortíssimo sinal de poder (pela segunda vez, após o Estranho, um sinal de poderes não-mutantes – tá na hora de calibrar isso aí, Xavier!), causando gritos de desespero por parte dos X-Men estarrecidos, o Professor X coloca a equipe toda em alerta vermelho. Inicia-se com isso um plano emergencial de proteger a base, onde os X-Men se usam de um estranho misto de seus poderes com armadilhas bizarras de madeira, galhos e armas para fazer um cerco de arapucas no jardim da mansão. Por que raios Xavier não instalou alguma espécie de sistema de segurança automatizado (a tecnologia atual da Sala de Perigo daria conta de fazer melhor do que alguns troncos recheados com granadas de gás) e se usa de táticas de guerrilha como se eles estivessem cercados no meio de uma floresta? Não faço ideia. Mas o fato é que é assim que ele procede, para o horror de uma equipe apavorada de jovens mutantes.

Agudizando o sentimento de desespero generalizado, ao invés de recolher seus X-Men para um bunker subterrâneo ou algo do tipo, Xavier faz com que todos fiquem com ele no hall de entrada da mansão. Enquanto a ameaça misteriosa arrebenta os portões do lugar e vem destroçando o jardim, com as armadilhas patéticas de Ewoks que eles prepararam e tudo, fazendo tremer o chão a cada passo, seus estudantes devem permanecer calmos e ouvir uma história que lhes dará o contexto do que está acontecendo. Uma longa história, que começa na sua infância!

Cain Marko é o irmão postiço de Xavier, fruto do casamento de sua mãe viúva com o colega do falecido marido, o Dr. Kurt Marko. Cain acaba sendo um irmão terrível (entendeu? ele é o irmão do mal e chama-se Cain!) para Xavier durante toda sua infância e adolescência, situação que é aguçada após a morte do padrasto de Xavier em um acidente de laboratório pelo qual Cain inexplicavelmente culpa Charles. Depos de adultos, enquanto serviam na Guerra da Coréia, Cain acaba aleatoriamente se escondendo em um Templo de Cyttorak (entidade mística que costuma tretar com o Dr. Estranho) após decidir desertar. Lá ele encontra o misterioso Rubi de Cyttorak, o templo cai e o deixa soterrado e Xavier deduz que ele provavelmente se tornou o avatar de um demônio, e não tenta salvar o irmão ou sequer alertar alguém que ele se encontra ali. Se eu já demorei pra recapitular a história aqui, imagina o quanto Xavier torturou seus estudantes com os mínimos detalhes dessa trama familiar, enquanto a mansão treme e os lustres se espatifam no chão com a chegada do mastodôntico vilão.

Amor fraternal.

A trama familiar traz um contexto bem-vindo para o personagem, ainda que com o enfoque na relação com o recém-descoberto irmão. O desfecho do conto é um tanto absurdo, consistindo numa daquelas origens de vilões fundada no mais puro acontecimento randômico, ao qual Xavier não pensa duas vezes antes de deduzir um resultado totalmente fora de qualquer referencial que ele poderia ter. De qualquer modo, o Fanático invade a mansão e chega quebrando tudo, o que dá início a uma batalha épica na mansão que dura a segunda edição inteira.

A história encontra um bom equilibrio entre a apresentação do background do vilão e a batalha na mansão, rompendo o ritmo já conhecido das edições anteriores de treinamento – conflitos internos – nova ameaça – desfecho. O roteiro constrói bem o suspense em torno da figura do Fanático, da qual temos apenas um vislumbre em silhueta ao longo de toda edição #12, apenas revelando-o sob a luz no último quadrinho. Na edição seguinte, a destruição da mansão e os recursos emergenciais usados pelos X-Men dão conta de manter a sensação de perigo real e imediato, sendo que são vários os momentos dramáticos na batalha contra o poderoso inimigo místico.

Temos belos quadrinhos mostrando bem a oposição entre o frágil Xavier e o poderosíssimo Fanático, que com seu capacete místico se revela imune aos poderes do Professor X. Também vale mencionar Jean Grey mostrando um aumento em seus poderes, levitando todo o peso do vilão por tempo suficiente para que o professor ficasse em segurança e Scott arrebentasse um buraco no chão (OK, não foi dos seus melhores planos, mas compreende-se que estão sob pressão). É muito legal a forma como os X-Men lançam tudo de si na tentativa de parar o Fanático, destruindo a mansão no processo, trancando o cara na Sala de Perigo e ativando todos os exercícios, usando seus poderes contra ele com o máximo de sua potência. Trata-se do modelo que as histórias clássicas a respeito do imparável vilão adotarão no futuro, já presente e bem executado aqui nesta primeira aparição.

A participação especial do Tocha Humana, que ajuda o Anjo a finalmente tirar o capacete de Cyttorak, abrindo alas para a conhecida violência telepática de Xavier é até bacana, mas rouba um pouco do protagonismo da equipe que estava prestes a ter uma belíssima vitória pelo seu próprio mérito. Não que alguém um dia saberá disso, já que o sacana do Xavier apaga as memórias de Johnny Storm assim que Fanático é derrotado. No todo, um bom arco que peca um pouco pela saída gradual de Jack Kirby da arte, que aqui divide o cargo com Alex Thoth e Jay Gavin. Como resultado, temos alguns painéis com o traço e layout sólido de Kirby, enquanto que em outros nota-se algumas inconsistências – felizmente nada que consiga tirar o momentum desta bombástica introdução de um poderosíssimo vilão recorrente.

Curiosidades:

  • Primeiro flashback de origem de personagem, com o Professor X.
  • Primeira aparição do Fanático (Cain Marko), vilão recorrente.
  • Primeira vez (de muitas) em que a Mansão Xavier é destruída.

Uncanny X-Men v1 #8 a 13, (EUA, Novembro de 1964 – Setembro de 1965)
Publicações no Brasil: Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men #1 (Ed. Panini, Outubro/2007)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby (#8 – 13), Alex Thoth (#12), Jay Gavin (#13)
Capa: Jack Kirby
Editora: Marvel Comics
Editoria: Stan Lee
Páginas: 23 (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.