Crítica | Os X-Men de Stan Lee, Parte 3 (Uncanny X-Men #14 a 19, 1965-1966)

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Se aproximando de seu terceiro ano de publicação, a mensal original dos X-Men passa aqui por uma época de importantes transformações. Temos a mudança da periodicidade do título, que passa a ser mensal, resultando inicialmente em uma relativa descompressão das histórias em arcos mais alongados, fato bem representando por um incomum (para a época) arco em três partes inaugurando esta nova fase (hoje em dia três edições não dá nem para o prelúdio do prólogo!).

É pouco tempo após a mudança que o roteirista responsável pela criação da equipe mutante deixa o título para nunca mais voltar a escrevê-los – mas não sem antes adicionar um último marco icônico à mitologia mutante. Sim, os temíveis caçadores de mutantes, os Sentinelas! Acompanhemos essa reta final de Stan Lee nos roteiros dos X-Men, e tentemos entender por que diabos Magneto queria presentear o Anjo com diversos irmãozinhos!

Equipe atual: Ciclope (Scott Summers) (líder), Garota Marvel (Jean Grey)Homem de Gelo (Bobby Drake)Anjo (Warren Worthington III)Fera (Henry McCoy).
Diretor do Instituto: Professor X (Charles Xavier).

 

Uncanny X-Men #14, 15 e 16: “Entre Nós Espreitam… Os Sentinelas! / Prisioneiros do Misterioso Molde Mestre! / O Sacrifício Supremo!”

Among Us Stalk…The Sentinels! / Prisoners of the Mysterious Master Mold! / The Supreme Sacrifice!  — (Novembro de 1965 – Janeiro de 1966)

“Não importa que eu perca ou vença este debate pois, a partir de agora, os mutantes jamais dominarão a raça humana! Não com meu novo exército de Sentinelas!” – Dr. Bolivar Trask

Este arco em três partes representa diversos marcos históricos para a equipe mutante. É em seu decorrer que a publicação passa de uma periodicidade bimestral para mensal, consolidando o lugar dos X-Men entre as principais franquias da editora (a título de comparação: The Avengers, título de equipe co-estreante também de periodicidade bimestral havia conseguido ser “promovida” já a partir de sua 6ª edição, quase dois anos antes!). Se isso reflete propriamente o bom desempenho em vendas das aventuras dos mutantes ou apenas a prosperidade da Marvel Comics em geral, já são outros quinhentos. Tâo importante quanto essa mudança editorial, é que aqui estreiam os terríveis Sentinelas, os icônicos robôs gigantes caçadores de mutantes, e com eles a primeira história que retrata propriamente o tema da perseguição e intolerância em relação ao homo superior, entrevisto de forma marcada na edição de estreia da série e servindo de pano de fundo para os conflitos com a Irmandade de Mutantes que se seguiram, mas sem nunca ganhar tanta centralidade como aqui.

A mudança na periodicidade é sentida na estrutura do roteiro. Na história mais longa do título até então, estendendo-se por três edições, temos uma narrativa bastante descomprimida – o que não significa que com isso tenhamos menos da verborragia característica de Stan Lee, que continua a cobrir com palavras por vezes redundantes os lápis de Werner Roth (creditado com o pseudônimo Jay Gavin), que trabalha em cima de esboços de Jack Kirby, carregando na medida do possível a ingrata tarefa de suceder o grande mestre. Os traços de Kirby fazem muita falta na rendenização tanto dos personagens, que contam com pouca fluidez de movimento, ainda que bastante expressivos, quanto dos cenários, em especial a base hi-tech dos Sentinelas, que traz algo do conhecido estilo kirbyano, porém sem o detalhismo brilhante que lhe é característico.

É bastante interessante a forma como o roteiro arma dramaticamente, ao longo da primeira edição, a ameaça de Bolivar Trask e de seus Sentinelas. Vemos que a equipe ainda se recupera da bombástica batalha contra o Fanático, em um toque bem bacana de continuidade, com uma sequência inicial na qual nossos heróis encontram-se em uma espécie de treinamento de reabilitação. Ao invés do tradicional treinamento hardcore da Sala de Perigo, temos Ciclope fazendo um exame de seus raios ópticos com um aquário na cabeça leitor de energia provavelmente criado por Xavier, Homem de Gelo mergulhado em um freezer criointensificador, Fera de muletas e Anjo com uma aparato para reabilitação de suas asas. A destruição causada por Cain Marko ainda é sentida pela equipe, e temos inclusive um breve deslize de Fera, novamente deixando escorregar seu lado mais babaca, quando lamenta que em sua atual condição pouco se diferencia de um reles homo sapiens, comentário que lhe rende uma bela e justificada reprimenda do Professor X. De todo o grupo, Jean é a que já se encontra mais rapidamente recuperada, ajudando Scott com suas leituras energéticas. Até mesmo para se machucar a coitada era deixada de lado nessa época!

O quão significativo seria esse aparentemente inocente comentário! Enquanto a equipe sai para um merecido descanso, acompanhamos em paralelo um movimento na mídia circundando a figura de Bolivar Trask, antropólogo (ah, o antropólogo nazista que cria armamento de guerra avançado, que tipinho mais clichê!) que tem ganhado força política com discursos anti-mutantes, alertando a população a respeito da suposta ameaça. É especialmente interessante a forma como acompanhamos Xavier, que vai de uma conversa com um desanimado e inseguro Scott para um monólogo mental a respeito das ansiedades do jovem, repentinamente deixando tudo isso de lado quando se depara com uma manchete no jornal a respeito da “Ameaça Mutante”.

Pô Namor, vamos maneirar, colabora aí com a espécie, vai!

A sequência traz bem o contraste entre os dramas típicos da adolescência, os quais este grupo especial de jovens acaba tendo que enfrentar com a camada extra de dificuldade advinda de sua identidade enquanto mutantes. Até mesmo o uso de uma página inteira para nos mostrar as formas engenhosas com as quais os mutantes camuflam seus aspectos sobrehumanos, tipo de coisa que normalmente acaba sendo um tanto redundante, cumpre aqui um papel interessante em ressaltar bem este ponto. Nossos heróis já convivem com a necessidade de esconder parte do que são, e estão prestes a ter um pedacinho a mais de sua liberdade posto em xeque.

Xavier se inteira dos planos de Trask com preocupação, mas sem surpresas (bom pessimista que é), articulando rapidamente um debate televisivo onde, enquanto geneticista de destaque, pretende discutir a questão civilizadamente com um fanático vomitador dogmatista – péssima ideia, Professor X! Porém a coisa toda não mela no sentido em que se poderia esperar: ao invés de discursos inflamados, o que Trask traz ao estúdio de TV é uma pequena tropa de robôs gigantes que pretende colocar nas ruas, com autorização governamental, para proteger os cidadãos de bem contra a ameaça dos mutunas. Infelizmente não temos muito tempo para ver Xavier continuar em sua missão pessoal para descreditar Trask, já que os robôs rapidamente perdem o controle e passam a atacar geral sem distinção (“Isso é que dá um antropólogo programando robôs!”, pensa Xavier, hilariamente). Acompanhamos cada um dos X-Men individualmente abandonando suas férias e indo tentar ajudar a controlar a situação, em uma das melhores sequências do arco onde temos os mutantes encarando pela primeira vez seus nemeses de lata.

É uma pena que, com a trama pendendo para os Sentinelas funcionando mal e atacando mutantes e humanos indistintamente, os temas relativos à intolerância e perseguição presentes e bem trabalhados na primeira edição acabem sendo jogados para escanteio, em favor de uma invasão bastante desajeitada dos X-Men à base do Molde Mestre (sério, o plano de invasão deles é tão escuso que surpreende que apenas dois deles acabem capturados na primeira investida!) . Com Hank e Bobby nas mãos do Molde Mestre, os heróis restantes preparam um contra-ataque capitaneado por um assalto mental de Xavier contra os inimigos. Que são robôs. Pois é… A inconsistência dos poderes de Xavier novamente dá as caras aqui, e é um tanto frustrante que o Professor X consiga atacar as máquinas diretamente, ao invés de termos algum tipo de investigação indireta mais interessante de sua parte. Os adolescentes se saem pior, sendo rapidamente capturados e mantidos em uma bolha de alta gravidade que os mantém fora da jogada praticamente por uma edição inteira.

A segunda edição se arrasta ao ponto de termos o primeiro vislumbre de uma “história de origem” de nossos personagens – na verdade uma história de recrutamento para os X-Men. O “felizardo” que recebe destaque desta vez é Hank, que ganha aqui a primeira e mais chocha versão de sua já notadamente chocha origem. Bastante parecido com a versão apresentada em Os Filhos do Átomo, o conto não adiciona muito à trama dos Sentinelas, e inclusive atrapalha a fluência de um já arrastado segundo capítulo, sendo que a necessidade do Molde Mestre em investigar as origens de Hank não se justifica minimamente e acaba sendo um distrativo para a subtrama muito mais interessante envolvendo a rebelião dos Sentinelas contra seu próprio criador.

Um antropólogo nazista X um robô gigante 1965. Os dois querendo proteger a humanidade dos mutantes, você acha que vai ficar um do lado do outro?

Porém nem tudo do potencial contido na premissa é perdido nesta estreia dos robôs assassinos. A trama flerta mais forte do que nunca com a ficção científica, e o faz costurando de forma (talvez surpreendentemente) sólida a conhecida premissa da revolução das máquinas com a temática da intolerância e perseguição. Temos uma boa dose da clássica inteligência artificial robótica trazendo resultados potencialmente desastrosos, com o misterioso Molde Mestre chegando à conclusão de que a forma mais lógica de se proteger a humanidade é tomando o completo controle sobre ela. Embora com isso a culpa pelo conflito acabe deslizando dos humanos cheios de ódio para os robôs que eles criaram e programaram para serem cheios de ódio, a coisa toda ainda se salva na medida em que de certa forma o que a trama traz aqui é uma absolutização da ideia de controle e policiamento por trás do programa Sentinela, que com isso se volta contra o próprio Trask. A ironia com que o vilão se vê às voltas é justamente a de cair na própria armadilha, pois são seus ideais de controle que acabam o depondo do comando e pondo em risco a humanidade que ele teoricamente se preocupava em proteger.

O sacrifício supremo do vilão para dar conta de parar sua própria criação (ao menos temporariamente) tem assim um bom impacto emocional e ressonância temática que justificam a escolha, ainda que ela roube um pouco o protagonismo dos herois mutantes, cuja participação na história acaba sendo a de sobreviver e conseguir escapar ilesos do lugar. Pontos para o plano absurdo de um fugitivo Professor X, que após se arrastar por quilômetros (!) investiga a cena do combate inicial contra o primeiro Sentinela rebelde e cria um plano que é o equivalente dos anos 1960 a hackear a base do Molde Mestre: utilizar um mastodôntico cristal para causar uma disruptura nos sinais de rádio que coordenam as atividades dos robôs. O plano doido se prova essencial tanto para a fuga dos X-Men, quanto para Trask realizar seu sacrifício final. Ponto para o nosso canalha favorito!

A inconsistência da arte talvez seja o que mais ajude a minar o conjunto da obra, agudizando as sequências de ação mal roteirizadas (como a já citada infiltração na base, na edição #15), e chegando a ser um distrativo em relação ao tamanho dos Sentinelas, que é extremamente variável ao longo da história, indo da altura de dois homens até a de um edifício de médio porte em questão de uma página. Tirando tais inconsistências, a história conserva seu valor histórico e tem até seus momentos de brilhantismo, em especial no início e no desfecho. Com uma trama bem interessante, ainda que o roteiro se arraste por alguns momentos, e amarrando bem a ficção científica com os temas da intolerância e perseguição, trata-se de uma estreia bem decente para os icônicos Sentinelas, a qual certamente teria sido melhor se contasse com os já saudosos desenhos de Jack Kirby.

Curiosidades:

  • Primeira aparição dos Sentinelas e do Molde Mestre. Seus status como criações diretas de Trask será alvo de retcons futuros.
  • Primeira aparição de Bolivar Trask. Apesar de encontrar seu fim aqui, o legado do personagem continua através de sua extensa família composta por odiadores de mutantes ou por mutantes propriamente ditos. Nos anos 1990, são vários os retcons envolvendo as origens do personagem, que adicionam ao sentido do que ocorre neste arco, o mais “notável” sendo a edição especial Uncanny X-Men #-1.
  • Morte de Bolivar Trask.
  • Primeira instância do frenesi anti-mutante, com a promoção de discursos de ódio e perseguição pela mídia.
  • Primeira vez em que um inimigo dos X-Men acaba morto.

 

Uncanny X-Men #17 e 18: “…E Ninguém Sobreviverá! / “Se o Homem de Gelo Falhar…”

…And None Shall Survive! / If Iceman Should Fail–  — (Fevereiro – Março de 1966)

Penúltima história de Stan Lee para sua equipe de mutantes, este arco em duas partes é especialmente bizarro. Trata-se da volta dos que não foram de nosso Mestre do Magnetismo favorito, já libertado das garras do Estranho após sua vergonhosa derrota e captura na edição #11. A primeira metade da história lida novamente com os nossos alquebrados heróis, devastados após uma batalha dificílima. Recém saídos das macas e aparatos reabilitadores e já mandados de volta para eles, os X-Men têm tido realmente uma época difícil. É interessante ver os militares comentando sobre a tragédia dos Sentinelas e exaltando o heroísmo dos injustiçados X-Men. Curiosamente, o Professor X nem mesmo necessita se utilizar de seus poderes mentais para que não suspeitem de sua ligação com a equipe! Hank e Bobby acabam tendo que ir para o hospital, o que dá início a uma sequência de eventos um tanto absurda.

Com nossos heróis juntando os cacos no hospital, Anjo descobre que seus pais pretendem visitar a escola, o que deixa todos em alerta. Sem tempo para pensar muito, o jovem voa até a Mansão Xavier apenas para ser alvo de um novo e insuspeito ataque, dentro de sua própria casa. Um misterioso intruso (OK, eu já entreguei o ouro de que era o Magneto) preparou uma série de armadilhas estapafúrdias com as quais derrotou prontamente o Anjo. Xavier e Scott partem para o resgate, e acabam igualmente capturados por paredes invisíveis, queda de energia e um Cérebro sabotado. Por fim, temos Hank e Jean se recuperando milagrosamente (Hank inclusive que duas páginas atrás estava todo enfaixado, e agora saltita e dá cambalhotas rumo à Mansão!) e indo numa terceira investida que acaba igualmente repelida pelo poder absoluto das armadilhas impossivelmente complexas – no caso da vez, envolvendo espelhos e gás do sono. Fazendo em quatro páginas o que não conseguiu em seis edições com a ajuda de outros quatro mutantes, Magneto agora tem a equipe quase inteira sob seu domínio, Professor X incluso, e coloca todos presos em uma cabine esférica de aço amarrada em um balão, rumo à estratosfera.

Infelizmente a coisa toda tem ares de pastelão, não se tratando de uma derrota que se sinta como exatamente ganha, soando mais como uma série de roteirismos baratos, excetuando o ataque de Magneto a Ciclope no escuro, que pelo menos rende uma bela página. A edição funciona mais como seguimento despreocupado ao bom arco dos Sentinelas do que como um retorno à altura do arqui-inimigo da equipe. A grande revelação da identidade do agressor se dá em uma ótima sequência final, com a última página trazendo o vilão ameaçadoramente recebendo os pais do Anjo na Mansão Xavier, logo após o descarte de 90% da equipe rumo ao espaço, com apenas o seu membro mais novo e brincalhão permanecendo entre eles e a completa derrota.

Na segunda metade da história, descobrimos que o vilão pensou em mandar a própria mansão para o espaço, apenas para mudar de ideia e curtir a ironia de utilizar-se do lugar como sua nova base de operações. E que operações seriam essas? Que tal… Sequestrar os pais do Anjo e fazê-los se reproduzirem criando um exército de mutantes particular? Pois é, parece razoável… Este é, hilariamente, o inacreditável plano de Magneto! Aparentemente arrasado após passar por tamanhas dificuldades com seu grupo de mutantes rebeldes (com os gêmeos traindo sua confiança, Mestre Mental transformado em balaustre e Groxo devidamente abandonado no zoológico espacial do Estranho), o Mestre do Magnetismo parece pretender remediar suas ansiedades sociais criando seus próprios seguidores ideais a partir das células do Sr. e Sra. Worthington. Tragicômico!

Quando seu momento favorito no arco é o seu personagem preferido apanhando no escuro: sinal de que a coisa não vai bem.

Em paralelo a isso, um médico visionário heroicamente salva a vida do Homem de Gelo utilizando uma seringa laser calibre 12 para atravessar sua armadura de gelo, a tempo de receber o pedido de ajuda de um libertado Xavier, diretamente do balão da morte. O ponto mais forte do arco todo é a missão de Bobby, que se vê no maior desafio de sua carreira até então, tendo que se provar sozinho contra o maior inimigo dos X-Men, com a vida de todos os outros na balança. A subtrama curiosamente dá seguimento a um breve momento do arco anterior, onde Bobby pede desculpas para Scott pela covarida, ao que o líder responde engrandecendo o crescimento e a coragem de Bobby, que fica feliz por ser chamado de homem (e não garoto) pela primeira vez. É notável o quanto a série já trabalha bem a caracterização de seu elenco. A temática do potencial inexplorado e da necessidade de se provar acabará acompanhando o personagem por praticamente toda sua vida nas publicações, e funciona muito bem aqui neste momento inicial.

É sempre interessante ver o palhaço da turma deixar as brincadeiras de lado e agir com seriedade, e temos um pouco desta outra face de Bobby aqui, recebendo a oportunidade de ter seu momento heróico, ainda que o que ele acabe fazendo seja mais segurar as pontas contra Magneto e retardar seu plano maléfico por tempo suficiente para que o restante da equipe reverta a situação por si só e retorne para então salvá-lo. Uma prova mais de coragem do que de habilidade, mas nesse sentido bastante significativa. A coisa toda acaba um tanto minada pela galhofada que é o plano todo do vilão, mas a derrota de Magneto ainda assim consegue empolgar, com Xavier enviando uma convocação mental para os confins do espaço, trazendo o Estranho de volta à Terra para resgatar seu espécime fugitivo.

É bastante esquisita a decisão de trazer Magneto de volta em uma história que trata basicamente da repercussão do combate contra os Sentinelas. Também surpreende que ele, mediante seu retorno à Terra, ao invés de atacar os Sentinelas de Trask em nome dos mutantes tenha optado por se aproveitar da situação para brincar de Esqueceram de Mim com seus nemeses adolescentes. Porém inacreditável mesmo é que seu plano envolva sequestrar os pais de um X-Men e forçá-los a se reproduzirem para criar um exército de “andróides mutantes” (faltam palavras para comentar esta trama). No todo, um arco que vale mais pelo raro destaque dado ao Homem de Gelo do que por qualquer outra coisa, que exagera a mão na patetada e recicla elementos demais das duas últimas aventuras: invasão e destruição da mansão, nossos heróis cuidando dos ferimentos depois de uma batalha épica, os X-Men presos em uma espécie de balão tentando escapar por uma edição inteira – para ficar apenas nos mais gritantes. Após as seminais criações do Fanático e dos Sentinelas, o título começa a esfriar aqui, e parece claro que o tio Stan esteja já preparando sua partida dos roteiros da série.

 

Uncanny X-Men #19: “Eis Que Surge… O Mímico!”

Lo! Now Shall Appear… The Mimic! — (Abril de 1966)

A última entrada de Stan Lee no título mensal traz também sua última contribuição para o universo mutante, na forma da estreia do relativamente inexpressivo vilão Mímico. Curiosamente a trama é menos sobre os X-Men do que sobre o vilão copiador de poderes, o que faz com que a história seja uma despedida bastante decepcionante dos personagens por parte de seu criador. Calvin Rankin não é um mutante, mas sim um humano comum que ganhou seus poderes em um clássico acidente laboratorial em sua infância. Sua capacidade de copiar habilidades fez com que fosse perseguido e odiado como uma aberração, ao ponto de fazer seu pai se decidir por se mudar para uma caverna. Leia-se: contratar uma empresa de mudanças, pegar toda a mobília da casa e os aparatos de ciência maluca do laboratório e colocar em uma caverna porque isso de alguma forma ajudaria seu filho a lidar com a perseguição. Ah, e desenvolver uma máquina que fizesse com que suas habilidades durassem para sempre, ao invés de depender da proximidade física com aquele que está sendo copiado. Isso certamente ajudaria. Claro…

Encontramos um Calvin já adolescente e muito, muito amargurado e desequilibrado após perder o pai na explosão da malfadado maquinário.  Com seus poderes de cópia de habilidades revelando-se capazes de copiarem até mesmo os superpoderes de mutantes, o jovem acaba desmascarando as identidades secretas dos X-Men ao adquirir seus poderes após se aproximar deles em suas identidades civis, em um uso bastante criativo de sua habilidade. Infelizmente a criatividade acaba por aí, já que toda a forma como o Mímico procede depois simplesmente não faz sentido, tirando pouco proveito de seu potencial como antagonista. Ao invés de exigir entrar para os X-Men ou mesmo chantageá-los ou coisa do gênero, Calvin acaba sequestrando Jean para utilizar seus poderes e reaver a bendita máquina que teoricamente seria capaz de tornar suas habilidades copiadas permanentes. Não precisaríamos nem chegar até o final da edição para imaginar que o que ela faria seria exatamente o oposto…

Mesmo com algumas cenas de ação empolgantes, o confronto entre os X-Men e o Mímico não faz muito sentido. A coisa se salva mais pelo aspecto visual do que pelo roteiro – é bem bacana ver um vilão utilizando as habilidades de nossos próprios heróis contra eles. O amálgama de poderes diferentes normalmente traz visuais bem bacanas (como é o caso nas vezes em que a Vampira se torna uma fusão de toda a equipe – mas isso é no futuro!), porém esse definitivametne não é o caso do pobre Calvin, que mesmo tendo preparado uma roupa de supervilão (e contando aparentemente inclusive com óculos de quartzo-rubi!) acaba apresentando um visual um tanto quanto apatetado.

Uma última formatação mental para marcar o fim de uma era no título!

É interessante que o vilão represente tamanha ameaça para a equipe, uma vez que ele copia não apenas os seus poderes mas também todas as habilidades de uso deles adquiridas, como vimos, através de um árduo e constante treinamento. Este é o grande diferencial do vilão: não se trata apenas, por exemplo, do potencial das rajadas ópticas de Ciclope ou da capacidade telepática de Xavier, mas de conseguir utilizar ambos os poderes, ao mesmo tempo e com a mesma habilidade de ambos. Uma figura trágica e com tamanho poder em suas mãos, infelizmente acaba sendo um potencial bem pouco aproveitado, com o plano do Mímico redundando em um golpe de vilão genérico torcedor de bigodes.

No fim das contas o confronto reedita as batidas básicas das aventuras mais iniciais dos X-Men, inclusive com a total falta de compaixão por parte de Xavier para com o sofrido adolescente, que acaba não recebendo nada além de uma bela e tradicional formatação mental para pôr fim à mais essa dor de cabeça para os X-Men (que nunca conseguem tirar suas malditas férias!). A despedida de Stan Lee (e também partida definitiva de Jack Kirby, que deixa de ser creditado pelos layouts e rascunhos, embora suspeito que grande parte dos lápis eram puramente Werner Roth já há bastante tempo) não se dá de forma bombástica ou significativa, mas sim como um conto sobre este trágico valentão copiador de poderes e seu misterioso maquinário soterrado em uma caverna.

Após o fraco retorno de Magneto, a revista despede-se de seu roteirista criador com uma sequência bastante morna de edições, o que não prenuncia muito bem para o sucessor Roy Thomas, encarregado da tarefa de dar os rumos para este fascinante universo pelos próximos anos. Como ele se sairá? O tempo vai dizer (já disse, na verdade, mas vamos tentar manter algum suspense)!

Curiosidades:

  • Primeira aparição do Mímico (Calvin Rankin). O personagem volta a dar as caras ainda nos anos 1960, apenas para cair no limbo do esquecimento posteriormente. Uma versão de Calvin de um universo paralelo (Terra-12) acabaria tendo muito mais vida nos quadrinhos do que esta versão original da Terra-616, estrelando nas páginas de Exilados. Ao contrário de sua versão original, esta contraparte é na verdade um mutante de nascimento – o que levanta a possibilidade de que o Calvin daqui seja também um mutante, cujos poderes foram simplesmente despertados precocemente pelo acidente no laboratório. Heróico e um grande líder em sua realidade, o Calvin-12 parece ter tido uma carreira muito mais significativa do que sua contraparte mais vilanesca.
  • Primeira vez em que o nome de Bobby é escrito como Robert Drake.
  • Primeira vez em que um vilão descobre a identidade secreta dos X-Men, inclusive sua base de operações e ligação com o Professor X.
  • Última edição que conta com Jack Kirby nos créditos.
  • Última edição roteirizada por Stan Lee.

Uncanny X-Men v1 #14 a 19, (EUA, Novembro de 1965 – Abril de 1966)
Publicações no Brasil: Biblioteca Histórica Marvel – Os X-Men #2 (Ed. Panini, Setembro/2008); Coleção Histórica Marvel: Os X-Men #3 (Ed. Panini, Julho/2014) (Edições #14-16); Edições Gep nº 19 (Ed. Gep, 1970) (Edições #17-19)
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby, Werner Roth (Creditado como Jay Gavin)
Capas: Jack Kirby
Editora: Marvel Comics
Editoria: Stan Lee
Páginas: 23 (cada)

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.