Crítica | “Out Among The Stars” – Johnny Cash

estrelas 3,5

Há mais de 10 anos que uma das maiores vozes da história da música disse adeus a esse mundo. O homem de preto, Johnny Cash, conquistou vários feitos: lançou dezenas de discos, teve um programa de televisão de sucesso, revolucionou a música country, enfim, mudou a história da música. A vida polêmica de Cash já rendeu até filme com direito a indicações ao Oscar (Johnny e June). Com tamanha importância, é impossível não se render ao clichê: sua música permanece mais viva do que nunca. Johnny Carter Cash, filho do cantor com June Carter, parece querer reforçar bastante essa afirmação. Em um momento que revirava os baús de seus pais, ele fez a descoberta que levaria a “Out Among Stars”. Não foram encontrados simplesmente demos ou regravações, mas um álbum inteiro que deixara de ser lançado na década de 80.  A gravadora de Johnny, Columbia Records, teria decidido não lançar o álbum produzido por Billy Sherrill, porém, o Homem de Preto e sua esposa conseguiram guardar as fitas com as gravações. Nessa década ­­­o cantor estava com sua popularidade em baixa, o country escutado pelo público agora tinha uma melodia diferente, um pouco mais pop. Assim, Billy Sherrill ficou responsável por trazer de volta a fama de Cash, o introduzindo nessa nova sonoridade do country.

O álbum claramente se divide em dois níveis de qualidade. As cinco primeiras faixas são o ponto alto do álbum, um prato cheio de boas melodias e canções bem distintas, com ótimas interpretações na voz incrível do homem de preto. O resto do álbum não é ruim, mas cai de qualidade e – com algumas exceções – não alcança o nível estabelecido pelas primeiras canções.

O álbum começa com a ótima faixa-título que, como muitas faixas do álbum, carrega um som country ligeiramente diferente do som que Cash costumava fazer no início de sua carreira. Em seguida, “Baby Ride” tem participação de June Carter, lembrando uma de suas melhores canções, “Jackson”, também cantada com sua esposa. O disco continua com “She Used To Love Me A Lot”, o single do disco, uma canção com uma sonoridade estilo western e uma melodia misteriosa. A melhor faixa do álbum, qualidade tamanha que pode ser comparada aos maiores clássicos do cantor. “Consigo ouvir a voz de meu pai, seu tom de voz, a sua força. Eu ouço o seu espírito se elevando quando ele canta essa música.” diz seu filho sobre a respectiva faixa. Sua opinião pode parecer coisa de doido, mas a verdade é que a canção realmente tem esse aspecto, Johnny Cash nos leva ao seu interior, tamanha é a força que a canção possui. Empatada com “She Used To Love me” no prêmio de melhor música do álbum está “After All”. A instrumentação dessa faixa é excelente, independente da existência de mudanças na versão original, o piano parece se fundir totalmente à voz sincera de Cash tornando a faixa uma das melhores baladas do cantor. Pra acabar com a melancolia chega a dançante “I’m Movin’ On” com a participação de Waylon Jennings, lembrando os tempos da Rockabilly.

As demais canções, apesar de serem boas, não conseguem se destacar ou se distinguir com uma sonoridade muito diferente do que já foi visto por Cash ou outros cantores country. Muitas são salvas pelas suas letras e pela interpretação de Johnny ao cantá-las, que diverte falando de amor, religião, aventuras e histórias da vida no campo. “If I Told Who It Was” e “I Drove Her Out Of My Mind” são algumas dessas faixas. A sonoridade do country oitentista volta em “Call Your Mother” e “Tennessee”, uma melodia bem mais pop do que Cash costumava cantar em sua carreira. Porém, o cantor tenta voltar a seu estilo de origem em “Rock And Roll Shoes” e June retorna para outra boa participação, dessa vez em “Don’t You Think It’s Come Our Time”.

A qualidade da primeira parte do álbum é retomada para encerrar o disco em “I Came To Believe”. Sabe aquelas canções escritas quando os artistas estão na fossa? Bem, esse é um exemplo, Johnny Cash escreveu a canção em uma clínica de reabilitação em um período que passou por diversos problemas. Além de sua queda de popularidade, havia voltado a ser dependente de drogas. Na canção, Cash volta ao íntimo de sua espiritualidade e pede ajuda a uma força maior para que o tire daquela situação. Em seguida, o álbum termina com uma espécie de faixa bônus, uma versão remixada de “She Used To Love Me A Lot” que deixa a música com um ar moderno, mas ainda sombrio.

Parece que a discografia do homem de preto está longe de terminar. Seu filho já revelou que além desse álbum, foi achado material suficiente para mais três ou quatro álbuns. O mínimo que se espera é que esses álbuns possam ser eficientes como “Out Among The Stars”- ainda que este não seja um clássico – e que haja bom senso sobre o material a ser lançado. O que se pode ter certeza é que a voz marcante de Johnny Cash vai continuar viva durante um longo tempo.

Out Among The Stars
Artista: Johnny Cash
País: Estados Unidos
Lançamento: 25 de Março de 2014
Gravadora: Legacy Recordings (Sony Music)
Estilo: Country, Folk, Rock

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.