Crítica | Outcast – 1X02: (I Remember) When She Loved Me

estrelas 4

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

Se A Darkness Surrounds Him, o piloto da série, já havia dado o tom da nova criação televisiva de Robert Kirkman, (I Remember) When She Love Me solidifica a pegada forte daquele tipo que não perdoa nada e ninguém. Tivemos espancamento de uma criança no primeiro e, agora, em flashback, uma criança espanca sua mãe depois de sofrer as maiores ignomínias.

E a criança da vez é o próprio Kyle Barnes, vivido por Zach Shirey, cujo passado sendo reconciliado com o presente é o foco principal do episódio. Pela segunda vez seguida, vemos um prelúdio assustador que abre caminho para flashbacks estendidos para o abuso sofrido pelo jovem Kyle depois que sua mãe Sarah (Julia Crockett) foi possuída por alguma entidade demoníaca. Na superfície, temos o comentário claro sobre os abusos sofridos por crianças mundo afora apimentados aqui por uma muito bem construída camada sobrenatural que gera sustos genuínos, algo que reputava completamente ausente da televisão há muito tempo.

Aqui, a simplicidade que mencionei na crítica anterior é chave. Nada de pirotecnias ou efeitos em computação gráfica. O mote da série parecer ser o horror old school, baseado muito mais em maquiagens bem aplicadas, atuações de arrepiar os cabelos e uma montagem dinâmica, abrupta, mas não gratuita, que coloca o espectador como alvo do próximo susto.

No presente, o Kyle Barnes adulto (Patrick Fugit), por sua vez, lida não com o alívio que deveria sentir por ter conseguido desvencilhar-se das garras de sua mãe, mas sim com um forte sentimento de culpa depois do exorcismo do garoto Joshua no primeiro episódio. Ele ainda acha que sua mãe, perpetuamente em estado catatônico, ainda está possuída; que ele, na verdade, quando criança, a fez ficar assim depois que revidou um de seus ataques. A agonia e a frustração de Kyle são palpáveis e perturbadores, revelando que as consequências psicológicas do abuso que ele sofreu não são águas passadas, mas sim claramente presentes na superfície de seus atos. É particularmente claro seu desequilíbrio na ótima sequência na clínica onde sua mãe está internada, quando ele pede – exige – que o aparente vazamento no teto de seu quarto seja consertado. Ele muda imediatamente e seu semblante pacato logo abre espaço para um homem exasperado, inquieto, capaz mesmo de violência.

O que fica claro é que Kyle, com aquele seu jeito apático, é muito mais do que deixa entrever e Fugit, com sua atuação quase blasé entrega cirurgicamente o que o espectador precisa para entendê-lo. Sua pequena explosão na clínica serve para isso, para dar um tira-gosto do que pode estar por vir. Apesar de sua atitude impensada, mas em tese amorosa de levar sua mãe vegetativa para casa, o que fica mais evidente é seu desequilíbrio, seu desespero em talvez sanear um passado tenebroso, passado esse que somente o espectador descobre que tem muitos mais mistérios do que a “mera possessão” de Sarah. O próprio Kyle parece ter sido manipulado pela gosma preta que ela expeliu quando ele estava inconsciente. O que exatamente foi aquilo?

E, mais ainda, quem é o homem misterioso de chapéu (Brent Spiner) que visita sua mãe depois de ouvir o sermão do reverendo Anderson (Philip Glenister)? Ele claramente diz que, apesar de todos os esforços de Sarah, Kyle é dele. Seria ele o próprio Coisa Ruim? Um enviado dele? Algo mais, como alguma entidade não necessariamente sobrenatural? Só o tempo dirá e a esperança é que Kirkman e o showrunner Chris Black tenham um plano bem definido, de forma que não se percam em mistérios insolúveis acavalados em acontecimentos inexplicáveis.

Do lado do reverendo Anderson, vemos como o exorcismo de Joshua o afetou também. Ele agora é um “guerreiro de Deus”, muito mais confrontativo em seu sermão, querendo formar um “exército” para enfrentar as criaturas demoníacas. Apesar de ele ter deixado claro no episódio piloto que tinha experiência com exorcismo, quer parecer que a primeira verdadeira experiência foi com Joshua, graças à interferência de Kyle. Com isso, ele parece ter entrado em uma realidade que, na verdade, era desconhecida dele e não me parece que ele sabe muito bem o que fazer. É interessante, porém, como o roteiro costura as “beatas” locais dentro da estrutura narrativa, aparentemente dando relevância à recrutadora mais velha que desgosta de Kyle e também à um possível interesse romântico para o reverendo. Todas, claro, são possíveis alvos das forças demoníacas e só o futuro dirá como as personagens serão usadas.

De toda forma, a narrativa envolvendo o reverendo, aqui, é o elo mais fraco da história, já que, sozinha, ela não parece seguir um propósito muito firme, funcionando muito melhor quando há o tangenciamento com a narrativa de Kyle, esta sim capaz de manter-se em pé sozinha. Será necessário à série abrir portas interessantes que não tenham relação direta com Kyle e, ainda que a tentativa com Anderson seja válida, creio que o showrunner ainda não encontrou a medida exata. Claro que o terceiro vértice misterioso – os animais eviscerados e pregados nas árvores achados pelo Xerife Giles (Reg E. Cathy) e o policial Mark Holter (David Denman) – também chama muito a atenção, mas quase nada é desenvolvido a partir dali, ainda que o encontro das histórias, especialmente considerando que o xerife e o reverendo são amigos de longa data, provavelmente não demorará a acontecer.

Mas muito além do mistério, o sub-texto que lida com as relações familiares em Outcast nunca fica esquecido. Muito ao contrário até, ele dá a base sobre a qual tudo é construído. É a relação amorosa e depois destrutiva entre Kyle e Sarah, a tentativa de aproximação de Kyle em relação a sua filha, a admiração que sua irmã sente por ele e assim por diante. O horror é a camada mais saliente, o chamariz para a série, mas a família – normalmente fragmentada, mas que naturalmente busca por reparação – é o sustentáculo para a coisa toda. E isso só pode significar o pior para Kyle.

Outcast demonstra que não pretende ser uma série fácil. Chris Black toma decisões difíceis e desagradáveis para tornar seus personagens mais distantes e menos palatáveis ao público, demonstrando que tem coragem para arriscar. Agora é ver até onde ele vai e como as peças sobrenaturais (ou não) vão se encaixando neste quebra-cabeças demoníaco.

Outcast – 1X02: (I Remember) When She Loved Me (EUA, 10 de junho de 2016)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Howard Deutch
Roteiro: Jeff Vlaming (baseado em quadrinhos de Robert Kirkman e Paul Azaceta)
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Canal Fox
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.