Crítica | Outcast – 1X03: All Alone Now

estrelas 4

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

A microscópica cidadezinha fictícia de Roma parece ser o repositório da maldade humana. Kyle Barnes literalmente passou o pão que o diabo amassou por duas vezes em sua vida, a primeira custando-lhe boa parte da infância, a mãe e seu equilíbrio mental e, a segunda, tirando-lhe sua esposa e filha e, ainda por cima, deixando-o com a marca de marido e pai abusivo. Mas Kyle é, pelo que o terceiro episódio de Outcast parece mostrar, apenas a ponta de convergência destes problemas que existem também apesar dele.

O que quero dizer com isso? Simples. A introdução de uma nova sub-trama, agora envolvendo Megan, sua irmã adotiva, reacende a temática geral de abuso, desta feita caminhando para o que parece ser um passado tenebroso em que ela foi estuprada por um ex-namorado ou conhecido que ela volta a ver na cidade e que catalisa grande parte do que vemos em All Alone Now.

Esta sub-trama não parece ter ligação direta com possessões demoníacas – ou seja lá o que estiver passando na cabeça de Robert Kirkman e do showrunner Chris Black para explicar os eventos sobrenaturais – ou com Kyle Barnes, o que é um alívio. Afinal, se ele fosse o para-raios de tudo de ruim que acontece na série, a coisa começaria a ficar um pouco exagerada. Sim, ele tem conexão indireta, já que estamos falando de sua irmã, mas o ponto é que as entidades malignas que o chamam de “exilado”, suspeito, não têm relação com este aspecto específico do passado de Megan (ou, pelo menos, não têm até agora…), mostrando que há vida além de Kyle, ainda que o panorama não seja muito melhor.

Megan ganha bom destaque no episódio, o que abre espaço para Wrenn Schmidt mostrar a que veio, ainda que o resultado final ainda não passe do apenas razoável. Chegando até mesmo a investigar o estuprador em seu quarto de hotel e descobrindo que ele realmente parece querer reconectar com ela, para seu total e compreensível pavor. Megan passa a sofrer com a situação, o que só fica pior com seu aparente desejo de manter a volta de seu atormentador escondida de seu marido pelo máximo de tempo possível. Há uma boa história por traz da narrativa apresentada aqui e, ainda que não tenha havido todo o desenvolvimento esperado, este passado pode ser muito interessante.

Mas voltando ao começo, mais uma vez temos um prelúdio forte em que somos apresentados a dois policiais parceiros de longa data, Luke (J.R. Bourne) e Blake (Lee Tergesen). Depois de uma noite de boliche e bebidas, Blake sente algo estranho e Luke o leva para a casa, deixando-o sozinho com sua esposa para comprar remédios. Grande erro. O que se segue é digno de filmes de terror de boa estirpe, com a tensão sendo muito bem construída com uma fotografia soturna, com cores esmaecidas para evocar uma atmosfera claustrofóbica e inevitável.

O prelúdio, então, abre as portas para mais um exorcismo – uma tentativa, para dizer a verdade – em que somos brindados com uma excelente e desconcertante atuação de Tergesen como o assassino em tese possuído. O interessante do roteiro do próprio showrunner é que ele foge da obviedade, cria dúvidas o tempo todo e inteligentemente usa o reverendo Anderson para ser a voz da incredulidade, já que ele inicialmente tem sérias dúvidas se aquele homem algemado está possuído ou se simplesmente é um psicopata.

Kyle, por sua vez, mesmo antes de as pistas se avolumarem sobre a exata condição de Blake, tem certeza que está diante de uma nova possessão e, no lugar de imediatamente tentar separar a entidade do homem, procura suas respostas, procura entender exatamente o que está acontecendo. Somente quando ele é chamado de “exilado” mais uma vez é que a verdade sobre Blake é efetivamente desvelada, ainda que, mesmo depois disso, suas atitudes continuem a ser facilmente confundíveis com alguém desgarrado de suas faculdades mentais, ainda que sempre de raciocínio esperto e convincente.

O que é interessante, aqui, além da excelente atuação de Tergesen, é ver que as possessões ganham variedade e parecem ter efeitos diferentes em cada pessoa. O exorcismo de Sarah a deixou em estado catatônico; os de Allison e Joshua os curaram completamente (ao que parece) e, agora, o de Blake parece mostrar que existe um ponto sem volta, um momento na possessão em que a entidade está tão envolvida com seu hospedeiro que nem mesmo os poderes de Kyle conseguem separá-los. Será que há relação com o tempo de possessão ou talvez uma combinação disso com a vontade do hospedeiro em se entregar ao demônio (ou parasita…)? Só o tempo dirá, mas essas diferenças e a presença do misterioso senhor de preto em tarefas aparentemente mundanas – reparem o tempo empregado para mostrá-lo apenas fazendo a barba – parecem indicar algo incomum, uma espécie de “bola curva” arremessada por Kirkman a seus espectadores.

Aliás, não podemos esquecer do mistério envolvendo os animais estripados e pregados em árvores que Mark, marido de Megan e policial by the book, faz de tudo para investigar, mesmo com seu chefe, Giles, jogando contra e suspeitamente, ao final, tentando esconder as provas que ele encontrara. Será ele mais um possuído? Ou será que são assuntos completamente separados, parte do plano de Kirkman para nos desviar a atenção?

O terceiro episódio de Outcast faz de Roma um microcosmo de tudo que há de pior com os seres humanos e, de quebra, continua a ótima tendência de não afrouxar a pegada de terror da série suavizando aspectos aqui e ali. Muito ao contrário, parece-me que a nova série do criador de The Walking Dead não terá medo de abordar os assuntos mais tenebrosos e mais difíceis não por particularmente serem sobrenaturais ou misteriosos, mas por estarem, talvez, logo abaixo da superfície da humanidade e, portanto, muito mais próximos de nós do que imaginamos.

Outcast – 1X03: All Alone Now (EUA, 17 de junho de 2016)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Howard Deutch
Roteiro: Chris Black (baseado em quadrinhos de Robert Kirkman e Paul Azaceta)
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Lee Tergesen
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Canal Fox
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.