Crítica | Outcast – 1X07: The Damage Done

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estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

The Damage Done poderia ter facilmente sido um episódio de encerramento de temporada. Tenso. Pesado. Desesperador. Revelador. O status quo é remexido profundamente e as peças no tabuleiro são posicionadas de forma confrontativa, prontas para a mútua destruição.

E é muito interessante notar que ainda faltam três episódios para o encerramento, provando que Outcast, de pouquinho em pouquinho, vai se revelando como uma aposta realmente alta de Chris Black e Robert Kirkman. As fórmulas vão aos poucos sendo jogadas pela janela e este episódio em particular parece ter acelerado a narrativa a passos largos, o que é surpreendente.

The Damage Done começa momentos depois que o reverendo Anderson é marcado no peito à faca e sangue com um pentagrama pelo sinistro Sidney ao final do capítulo anterior. O pouco controle psicológico que Anderson ainda tinha começa a ruir completamente já durante o jogo de pôquer com seus amigos. Afinal, suas dúvidas sobre a eficácia de seus exorcismos parecem ter se dissipado momentaneamente. Em sua cabeça, se o próprio demônio se deu ao trabalho de visitá-lo e ameaçá-lo, isso só pode significar que ele está fazendo algo correto, que o Coisa Ruim tem medo dele por alguma razão. A lógica é perfeita, mas toda a atmosfera do episódio é construída ao redor da ruína de Anderson e isso fica evidente pelo uso angustiante da trilha sonora, por uma câmera inquieta quando ele está presente e por uma atuação perturbadora de Philip Glenister vagarosamente perdendo contato com a realidade e deixando-se levar por seu próprio orgulho.

Esse mergulho na psiquê do reverendo é o grande destaque de The Damage Done e ele ganha ecos na outra ruína do episódio: a realização de Allison que foi ela quem espancou sua filha. O paralelismo da narrativa é, perdoem-me o trocadilho, divino. O espectador sabe que Kyle apenas assumiu a culpa do acontecido para poupar sua esposa do horror e o espectador também sabe – ou sente lá no fundo – que Sidney, ao marcar Anderson, queria justamente levá-lo à loucura, para destruir sua reputação em Roma. Na medida em que Anderson cai, Allison “sobe”, algo também marcado fisicamente pela subida ao segundo andar de sua casa logo antecedendo a descoberta final do assustador desenho de Sarah no fundo do armário (e depois que sua filha revela que não sabe que rosto desenhar para a mãe). São impressionantes momentos convergentes que, porém, nunca realmente se tocam. Muito ao contrário até, eles se passam em locais diferentes e os personagens não tangenciam até depois de todo o acontecido.

O roteiro de Nathaniel Halpern é, assim, um achado narrativo. Um trabalho muito acima da média para obras desse gênero que consolida a série como uma das mais potentes e eficientes séries novas até agora de 2016. Reparem, por exemplo, como o Dia do Memorial é construído vagarosamente no episódio ao mesmo tempo nos dando pistas de um acontecimento trágico de anos atrás, da sobrevivência de Kyle e da revelação, para ele, que um de seus amigos também fora possuído e ele nunca reparara. O discurso do reverendo, a presença de Sidney, a estátua marca (foi Sidney ou o menino?) nos levam ao excruciante momento de queda de Anderson e de vitória do “Demônio” (as aspas se justificam por eu não mais considerar que estamos falando de algo tão prosaico assim). Uma vitória momentânea, claro, mas que provavelmente tornará mais difícil a tarefa dos exorcistas, mesmo com a aparente ajuda do Chefe Giles.

Aliás, a investigação paralela de Giles ganha sua convergência completa com a trama principal aqui, ainda que seja difícil entender qual é a exata relação do paramédico Ogden com Sidney, já que ele não parece ser afetado pelo toque de Kyle. Ainda que possivelmente os planos do “homem do chapéu preto” passem pelo uso de humanos não possuídos, o que pode emprestar um escopo maior ainda à série, talvez seja cedo demais para apontar exatamente o que está acontecendo aqui.

A única narrativa desgarrada da principal é a que envolve Megan, seu marido Mark e seu estuprador Donnie. Mesmo nesse núcleo, porém, a história parece estar sendo fechada, com Mark afastado da polícia e Donnie ingressando com ação contra Mark, o que pode fazer ruir o casamento com Megan. Será interessante ver o que ela é capaz de fazer para manter o status quo e afastar Donnie de sua vida de uma vez por todas, mas me incomoda ainda que Kyle não tenha sido envolvido de uma forma ou de outra nessa história paralela. E, antes que me acusem de querer que tudo tenha relação com a trama principal, já esclareço logo que não é isso. Apenas acho que deve haver um tangenciamento entre as narrativas, para que haja fluidez e não a sensação de duas histórias soltas. Tenho para mim, porém, que isso logo acontecerá, especialmente porque, como mencionei logo no começo, temos, ainda três episódios pela frente.

The Damage Done talvez tenha sido o ponto mais alto até agora de uma série que vem se provando especialmente interessante. O futuro não parece ser muito promissor para Kyle, Anderson e Megan, mas para série ele o é com certeza.

Outcast – 1X07: The Damage Done (EUA, 22 de julho de 2016)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Leigh Janiak
Roteiro: Nathaniel Halpern
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Canal Fox
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.