Crítica | Outcast – 1X08: What Lurks Within

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estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

Já na reta final, Outcast nos joga uma “bola curva” ao desenvolver conceito estranho mencionado no sexto episódio, From the Shadow It Watches. Lá, o reverendo Anderson é surpreendido por uma revelação de um exorcizado Caleb que diz que, ao ser possuído, teve sentimentos bons e não ruins, demonstrando que realmente há algo mais do que apenas uma luta entre o Céu(?) e o Inferno(?) acontecendo na cidadezinha de Roma.

Trabalhando em três frentes, o roteiro de Tony Basgallop desenvolve essa questão usando narrativas paralelas com duplas de personagens. Há Kyle e Sidney, que é preso pelo chefe de polícia Giles por agressão a Anderson (o pentagrama no peito), Anderson e Kat, esposa de Ogden e o próprio Giles com Ogden, todos costurados organicamente no episódio em narrativas co-dependentes e até, diria, redundantes. O crescendo das revelações que Kyle, Anderson e Giles recebem é bem trabalhado, com um diálogo complementando o outro e com a razão ganhando da emoção.

Se Kyle e Giles percebem que não é possível enfrentar a ameaça simplesmente com exorcismos, sob o risco de levar os exorcizados à catatonia, Anderson se recusa a ver a luz e continua em sua arrogância de achar que sabe mais do que todos e sua completa credulidade no dogma religioso. Ele é um homem que se vê completamente sem saída, desacreditado e inseguro de si, agora que reparou que o trabalho de toda uma vida não serviu para absolutamente nada. Sua relutância em entender que muito provavelmente o que se passa não tem relação com seres divinos ou infernais é perfeitamente compreensível e ao mesmo tempo irritante e até mesmo constrangedora. Kyles e Giles entenderam o problema e consegue racionalizar a questão, mas nada que eles fazem é capaz de converter o reverendo que acaba expulso de sua própria igreja.

Perpassando as narrativas principais, o diretor Scott Winant trabalha com flashbacks focados no passado de Sidney e, surpresa, surpresa, ele fora um molestador e assassino de crianças em sua “outra vida”. Pela primeira vez vemos uma possessão no momento em que ela ocorre e as consequências imediatas disso em um interessante suspense que deságua em um final simples, mas eficiente. Toda essa volta ao passado, claro, serve para reiterar o que vemos no presente e o que Caleb sentiu em From the Shadow It Watches. Ao ser dominado por essa “entidade” cuja origem ainda é desconhecida, Sidney tornou-se melhor do que era. Seu impulso agressor e assassino foi suprimido e suas ações na série passam a ser explicadas – talvez até justificadas – como uma forma de fazer tudo pelo que parece ser sua “família”. Se podemos aceitar Giles ameaçando Anderson ao dizer que ele é capaz de “ultrapassar os limites” para defender seus amigos, também podemos entender Sidney usando de expedientes menos do que comuns para salvar o que pode ser percebido como sua própria congregação.

Com isso, todos os acontecimentos da série são relativizados. Kyle pode ser visto como um assassino desses seres estranhos (demônios, extraterrestres, fantasmas, sei lá) e Sidney como seu protetor. Tudo depende do ponto de vista, não é mesmo?

O que não depende de ponto de vista é a atitude enciumada e invejosa de Aaron, que não aceita o envolvimento de sua mãe com o reverendo. O jovem parece disposto a tudo para se livrar de Anderson, até mesmo fazer um pacto com o Dia… Sidney para tanto, em um muito bem engendrado movimento circular do roteiro que traz de volta, ainda que por um momento, a natureza selvagem do hospedeiro. Será que veremos uma luta interior em Sidney? Uma completamente oposta daquilo que normalmente se esperaria?

What Lurks Within não é o episódio mais movimentado da temporada até agora, mas ele é repleto de novas informações e de surpresas, todas bem construídas na narrativa e que fazem os espectadores pensar. Outcast não errou ainda em sua temporada inaugural e não parece que errará. A rasteira filosófica que este episódio nos dá é a prova de que estamos diante de algo especial no gênero do terror televisivo.

Outcast – 1×08: What Lurks Within (EUA, 29 de julho de 2016)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Scott Winant
Roteiro: Tony Basgallop
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Canal Fox
Duração: 50 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.