Crítica | Outcast – 1X10: This Little Light

Episódio

estrelas 4,5

Temporada

estrelas 4

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

E, como começou, a primeira temporada de Outcast acabou!

Mas calma, não se trata de um comentário negativo. É que Outcast, desde o começo, mostrou-se como uma série de horror que preza o respeito aos clássicos do gênero, mas sem deixar de imprimir a sua própria e muito particular visão sobre possessões e exorcismos. E ela faz tudo isso de maneira muito auto-contida sem grandes “fogos de artifício”, trabalhando muito mais de maneira “velha guarda”, com câmeras bem posicionadas, iluminação lúgubre, personagens que são difíceis de se gostar e uma fotografia sombria e enervante do que com efeitos especiais que, quando aparecem em cena, estão ali realmente cumprindo sua função narrativa específica.

E há mistérios, muitos mistérios, mas não daquele tipo que vai sendo amontoado ao lado de outros que permanecem sem respostas (Lost, estou falando com você!). Existe uma lógica sendo seguida que pode ser resumido na seguinte pergunta: o que estamos vendo são mesmos possessões demoníacas ou é algo diferente? Pelo que passou a ficar claro a partir da metade da temporada, existem dois lados dessa moeda e talvez nenhum dos dois esteja completamente errado. Se Kyle e Anderson lutam para livrar as pessoas do “mal” que as acomete, Sidney parece lutar pela sobrevivência dessas entidades que, conforme já ficou claro, depois de ajustadas ao hospedeiro humano (e até antes disso, vide o que Caleb disse ao reverendo sobre a possessão em From the Shadow It Watches), voltam a um estado próximo do normal. Muito poderiam argumentar que os meios utilizados por Sidney para alcançar seus objetivos são nefastos, mas, se olharmos para trás, o que ele parece ter feito de pior foi matar o vizinho de Kyle. Sem reduzir a relevância de um assassinato, olhemos, porém, para o outro lado, com Giles encobrindo todo o tipo de delito cometido por Anderson, o que muito provavelmente incluirá o incêndio do trailer de Sidney e a provável morte de Aaron. A dubiedade moral (“os fins justificam os meios”, “medidas desesperadas para situações desesperadas”, escolha seu adágio) dos personagens é a linha mestra da série, algo que vem sendo trabalhado com maestria por Chris Black como showrunner. E a questão fica ainda mais intrigante e relevante quando a discussão forçosamente passa pelos dogmas religiosos. Não só vemos Anderson aos poucos perder a crença no que faz – imagine você o trabalho de sua vida ser revelado como uma espécie de farsa -, como reagindo de maneira completamente contrária ao que reza sua religião.

Nesse mundo de sombras criado por Robert Kirkman, Paul Azaceta e Chris Black, não há nada “preto e branco”. Os proverbiais tons de cinza, aqui, ganham contorno e profundidade, estabelecendo um diálogo importante com o espectador, especialmente no gênero terror, mais afeito à divisões claras entre o bem e o mal. Eles praticamente colocam em nosso colo a responsabilidade de decidir de que lado estamos e, enquanto é muito fácil logo correr para se posicionar ao lado de Kyle, temos que fazer isso sabendo que potencialmente, do outro lado, há toda uma espécie que poderá deixar de existir. Sei que estou pulando para conclusões (e, apesar de ter lido os quadrinhos, o que saiu até agora é tão inconclusivo quanto a série de TV), mas a grande verdade é o que Sidney disse a Kyle quando ele o aprisiona com Amber, algo como “meu povo vem de longe e não pode ficar onde está”. Portanto, tirem suas próprias conclusões.

Mas mergulhando no episódio de encerramento em si, reparem como o roteiro do próprio Chris Black propositalmente reflete o prelúdio do episódio piloto, A Darkness Surrounds Him, em que vemos Joshua bater com a cabeça na parede para matar um inseto e depois comê-lo. Agora, é Megan que faz as vezes de Joshua, logo após matar Mark sem querer (poi não, não foi de propósito). Há a enorme poça de sangue e, principalmente, há o olho. Em um super-close-up, vemos uma das cenas mais angustiantes da temporada, quando a Megan possuída toca, com os dedos ensanguentados, o olho de Mark, deixando sua marca ali, como se estivesse tentando entender o que acabou de acontecer. E o semi-flashback para os momentos imediatamente anteriores ao telefonema de Amber para Kyle ao final do episódio anterior, foram angustiantes ao extremo, aqui já usando a fórmula mágica de filmes de horror clássicos que mistura bizarrices, com escuridão e crianças pequenas. A fotografia escura, a câmera subjetiva pulando de perspectivas, o tom azulado vindo de fora merecem especial destaque aqui, demonstrando o cuidado do diretor Loni Peristere em manter os espectadores nas pontas dos sofás e sempre na insegurança do que acontecerá, ainda que saibamos que o telefone acontecerá e que pelo menos Amber em tese ficará bem.

E é nessa possessão que finalmente Wrenn Schmidt tem espaço para brilhar. Se a atriz já vinha se desenvolvendo como Megan, notadamente quando seu passado volta para atormentá-la, no momento em que, no chuveiro, ela é tomada pela tal entidade, ela já consegue mostrar como é versátil. E isso apenas nas poucas cenas finais do episódio anterior. Agora, porém, ela tem seu devido espaço e realmente tira a tarefa de letra, ao mesmo tempo aterrorizante e “vazia”, uma tábula rasa que não compreende exatamente o que está sentido, o que está vendo. Não só vemos mais claramente os efeitos da luz forte e som alto sobre os possuídos, como somos brindados com uma perfeita compreensão do choque que deve ser essas horas ou dias iniciais em outro corpo, potencialmente outra dimensão (Sidney diz que eles vêm do mesmo lugar que Kyle, o que poderia indicar a questão de um multiverso). A sequência dela no campo de futebol americano, com a grama nos pés e a água dos sprinklers, é perfeitamente representativa dessa situação, sem, porém, que a direção de Peristere perca a mão na dosagem do suspense (repare como a mera reação de Megan à água é maximizada na sequência).

Essa pegada de suspense ganha contornos extras quando o foco é em Sidney. Sempre sinistro, mas de uma forma desconfortavelmente “agradável” (como Hannibal Lecter…), o personagem mostra-se disposto a tudo, partindo para sequestrar Amber e Kyle, já que ele sabe que os dois – como descobrimos ao final junto com Kyle e Anderson – têm os mesmos poderes anti-possessão. Apesar de não ter gostado do plano simplista de sequestro de Kyle, já que trancá-lo em uma dispensa justamente no local onde os recém-possuídos são levados para “tratamento” por Kat pareceu-me uma solução barata para matar dois coelhos com uma cajadada só, o fato é que Brent Spinner consegue criar alguém que, se de um lado desgostamos, de outro compreendemos. E a fotografia do episódio, que usa fortemente o chiaroscuro e o backlighting, evoca para Sidney mais fortemente ainda (já que seu figurino foi tirado de lá) a imagem do padre exorcista do clássico O Exorcista. A imagem que ilustra a presente crítica, por exemplo, é claramente retirada de lá, em uma inversão de papéis muito interessante. Sidney é o salvador, é aquele que guia seus pares para a luz. Kyle e Anderson são, por eliminação, as ameaças.

Ainda que muitas perguntas fiquem em aberto não só sobre o que são essas criaturas e de onde exatamente elas vêm, mas também, por exemplo, o que aconteceu com o estuprador de Megan, o que eram aqueles animais pregados ritualisticamente nas árvores e como a esposa de Giles sabia sobre Kat, fato é que This Light Light faz o que o título promete: joga um pouco de luz para que possamos vislumbrar o que vem pela frente. Há um alargamento de escopo com o epílogo em que Kyle e Amber são cercados por possuídos no posto de gasolina, demonstrando que a coisa vai além da fronteira da cidade, mas tudo é ainda mantido em uma estrutura auto-contida, de pouca expansividade (algo que também comentei em relação aos quadrinhos). Foi um belo trabalho de direção, fotografia e atuação e mais do que o suficiente para gerar curiosidade pela 2ª temporada, sem dúvida. No entanto, para a série ser longeva, ela talvez precise ir além e o epílogo dá a impressão de que irá. Só não sabemos como. Agora é aguardar.

CONFISSÃO:

Como sempre, o episódio final de Outcast foi transmitido no domingo à noite pelo Canal Fox. Algumas horas antes, por acaso havia re-assistido o primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o de 1979, com a tripulação original. Pois bem, quando o episódio de Outcast acabou, senti muito claramente um “clique” em meu cérebro que justapôs mentalmente a imagem de Sidney à de Data, o androide de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, mais ou menos como na montagem abaixo. Juro para vocês: não havia feito essa conexão momento algum durante os 10 episódios de Outcast. Algo lá no fundo me dizia que eu conhecia o ator, Brent Spiner, mas nunca somei 2+2. Foi um completo mindblow. Fiquei absolutamente embasbacado por eu ter deixado passar essa por tanto tempo e por mais uma vez ver como é que o cérebro trabalha por vias tortuosas. Só queria compartilhar isso aqui, por ter achado muito inusitado e para deixar registrada minha senilidade avançada…

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Outcast 1×10: This Little Light (EUA, 12 de agosto de 2016)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Loni Peristere
Roteiro: Chris Black
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Canal Fox
Duração: 60 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.