Crítica | Outcast – 2X01: Bad Penny

estrelas 4

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

E a segunda temporada de Outcast começa com um episódio claustrofóbico, sufocante e perfeitamente circular, fazendo referência ao começo da série, em A Darkness Surrounds Him. Voltando para uma pegada quase integral de horror, as portas são abertas para um universo mais vasto do que as fronteiras da cidadezinha de Rome.

Quando a temporada inaugural acabou, Kyle Barnes e sua filha Amber estavam fugindo dali, tentando encontrar algum lugar em que eles não são reconhecidos pelas pessoas possuídas por aquela substância negra. Por outro lado, Megan, irmã de Kyle, estava em choque depois de, possuída, matar seu marido e ser exorcizada pelo irmão. O reverendo Anderson fora expulso de sua igreja e estava em desgraça e ainda havia colocado fogo na casa onde Sidney morava, em tese inadvertidamente matando Aaron, filho de sua namorada Patricia. Allison, ex-esposa de Kyle, confrontada com a verdade, fugiu. Em poucas palavras, a situação estava infernal para os não possuídos, especialmente para Kyle.

E é assim que o primeiro episódio da nova temporada abre. O status quo sombrio se mantém, sem saltos temporais convenientes para resolvê-los. Sidney desapareceu, o que pode ser bom ou ruim, mas Kyle não conseguiu ir longe em sua fuga, descobrindo, no caminho, que a “infestação” vai muito além da cidade em que nasceu. A solução foi voltar para Rome e tentar enfrentar a ameaça a partir dali, algo que, em uma sequência de abertura em flashback para quando ainda era criança, descobrimos ser impossível, considerando que as entidades misteriosas estão presentes em sua vida muito antes do que ele imagina. Se, antes, a impressão que o espectador tinha era de que os possuídos formavam um grupo pequeno e esparso, agora fica mais do que evidente que é exatamente o contrário e são os humanos não possuídos que estão em minoria e uma minoria que, pelo menos em Rome, cada vez diminui mais.

Com isso, a sensação claustrofóbica nasce a partir do roteiro, mas ganha contornos mais severos na fotografia particularmente escura e com pouca profundidade de campo, o que também ajuda na criação de tensão e suspense. A direção de Tricia Brock, que tem prolífica carreira na TV, mas que debuta na série, abusa do ângulo holandês, em que vemos as imagens “viradas”, mantendo-nos sempre desconfortáveis e estranhando tudo. Mas, como disse, ela abusa e, considerando que a técnica tem como objetivo justamente salientar o estranhamento, a partir do momento em que literalmente tudo é estranho, a câmera em ângulo perde um pouco sua razão de ser, ainda que, nos primeiros 20 minutos do episódio, ela alcance seu objetivo de enervar quem assiste.

Há, também, o uso constante de close-ups extremos casados com a pouca profundidade de campo, também de forma a manter o espectador na beirada do sofá, possivelmente roendo as unhas. Apesar dos exageros aqui e ali, esse começo de temporada é exemplar como horror televisivo, desbancando muitos filmes pretensamente do gênero que deságuam no cinema mês a mês prometendo algo de novo, mas se esquecendo do básico: como criar suspense.

Outros dois elementos do roteiro são muito bem trabalhados aqui. O primeiro deles é o que também marcou o final da temporada: o uso de crianças. Chega quase a ser um golpe baixo do showrunner Chris Black, que também escreveu esse roteiro ao dar destaque para Amber, colocando-a em choque com Holly, que a vê, agora, como para-raio de desgraças. O vazio da casa em que estão, a arquitetura sonora estabelecendo o medo com coisas simples e até clichês como o ranger das tábuas de madeira do chão e outros pequenos detalhes são bem sucedidos em criar desespero, mas sem apelações. Nada de sustos fáceis ou trilha sonora invasiva que canta a pedra antes do tempo.

Além das duas meninas, há a volta de Joshua, a primeira pessoa que vemos ser exorcizada na série. O garoto, sozinho em casa, é a encarnação da solidão e, assim como a relação entre Amber e Holly, ele vê Kyle como alguém que o afastou da convivência com sua família, pois, para o horror do protagonista – e nosso! – descobrimos que seus pais, agora, também foram possuídos. O caminho que o roteiro de Black segue é o de colocar Kyle Barnes e o ex-reverendo Anderson contra a parede, na posição de inimigos a partir de atitudes que podemos sim interpretar como condenáveis, considerando, por exemplo, a profunda tristeza que sente Lenny Ogden com a ausência de sua amada Kat, mesmo sabendo de todas as circunstâncias de sua possessão. Falando nisso, sua tentativa de suicídio frustrada – ou será que não? – é aterradora em todos os sentidos, com a câmera mais uma vez inclemente em seu rosto perfurado (por um breve momento, fiz correlação mental com o final de Clube da Luta) em mais um bom momento de horror completo.

O segundo elemento bem abordado no episódio é a “ausência presente” de Sidney. O personagem não dá as caras aqui, mas sua presença é sentida a todo momento, seja no flashback, seja no hospital, seja na antiga casa Kyle. Sabem aquele velho chavão cinematográfico que diz que o quanto menos se mostra de algo, mais aterrorizante esse algo fica? Pois é exatamente o efeito aqui. Sim, Sidney voltará muito provavelmente em breve, mas sua falta no começo da segunda temporada foi mais do que eficiente para estabelecer o tom do episódio e do que poderá vir por aí.

Kyle Barnes, John Anderson e o chefe de polícia Byron Giles estão praticamente sozinhos. E as paredes ao redor estão se fechando. Será muito interessante ver onde é que isso vai dar…

Outcast – 2×01: Episode 1 (EUA, 10 de abril de 2017)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Tricia Brock
Roteiro: Chris Black
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Fox Premium 1
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.