Crítica | Outcast – 2X02: The Day After That

estrelas 3,5

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

Assistir Outcast com impaciência ou querendo ação e revelações a cada episódio é pedir para frustrar-se. A série tem propositalmente um passo lento, como os melhores filmes de horror e não está preocupada com sustos fáceis ou uma pegada sanguinolenta. E o segundo episódio da segunda temporada deixa isso muito claro ao lidar exclusivamente com os personagens já estabelecidos e aprofundando-se em seus sofrimentos.

De um lado, claro, temos Kyle Barnes que a cada episódio que passa parece mais sem rumo em sua busca incessante por Sidney. Sua aparência suja, desgrenhada e com olhos vidrados marca um homem em descendência, alguém que está desesperado para encontrar respostas, mas não sabe nem mesmo quais são as perguntas. Some-se a isso sua filha, Amber, que, como ele, está perdida achando que pode ter sido a culpada pela morte de seu tio Mark, não encontrando socorro no colo de absolutamente ninguém, nem mesmo do pai que a deixa sozinha em uma cabana à beira do lago enquanto sai em sua busca obsessiva por quem ele considera ser o grande vilão juntamente com o chefe de polícia Giles que, sabendo menos ainda com ele, passa a distanciar-se cada vez mais de qualquer semblante de retidão moral.

Do outro lado, temos o ex-reverendo John Anderson, esse talvez o mais isolado personagem de toda a série por se achar culpado pela morte de Aaron, por ter falhado ao tentar deter Sidney e por vagarosamente estar perdendo o resquício de fé que ainda mantinha. As sequências dele na prisão, com um jovem em crise de abstinência de drogas na cela ao lado são de cortar o coração. Usando ainda a palavra de Deus, Anderson faz de tudo para mostrar que ainda é útil, que a Bíblia ainda significa alguma coisa para ele, na tentativa vã de tentar amenizar as dores que o rapaz sente. É particularmente interessante como o roteiro de Adam Targum conta toda uma história da outra vida de Anderson com seu filho, que descobrimos ter sido drogado apenas em diálogos indiretos, que determinam que o rapaz na cela ao lado é também uma forma do ex-reverendo em expiar seus próprios pecados.

Quando, porém, ele pela primeira vez se depara com uma possessão ao vivo, o pouco de fé que tinha vai para o ralo e o Livro Sagrado, que tanto servia para se acalento, é jogado no chão. Ainda é cedo para dizer se as possessões são guiadas ou pré-determinadas, o que poderia explicar o fenômeno acontecer convenientemente ali ao seu lado, possivelmente como parte do plano de Sidney para quebrar Anderson de vez, mas, mesmo que tenha sido algo aleatório, conveniente ao roteiro, o fato é que a sequência foi muito bem utilizada, gerando horror genuíno capaz de estilhaçar a alma do personagem ao ponto de nem mesmo a revelação de que ele, afinal, não matara Aaron, serve para restaurar seu espírito.

Aliás, o mistério sobre a não-morte de Aaron ganha contornos inesperados aqui. Onde afinal está o rapaz, se o vimos pela última vez exatamente no trailer de Sidney logo antes do então reverendo atear fogo a tudo? O que raios é aquele corpo de mulher que há 30 anos está ali, com direito à boca costurada e gosma preta ainda saindo? O que Sidney quer com o corpo e quem, afinal, é aquele sujeito enorme que o rouba do necrotério? Essas são perguntas aparentemente longe de terem uma resposta definitiva e que ampliam sobremaneira a natureza dos mistérios em Rome.

Mas voltando aos personagens, não podemos esquecer de Megan sofrendo com a morte de Mark, ou melhor, sofrendo por ter matado Mark da maneira mais horrível possível, com o bônus de ela lembrar-se ainda de tudo, com detalhes. Será que seu exorcismo foi completo mesmo? Afinal, Amber dá a entender que não foi e a própria Megan, tendo visões no banheiro parece ainda não completamente normal, mesmo que ela não possa mais voltar ao normal depois do ocorrido. E, claro, quando ela finalmente tenta se matar – será que não era óbvio que ela iria tentar algo assim? – a realização de que está grávida novamente a faz acordar tarde demais para o ocorrido, gerando uma enorme agonia no espectador que acaba com um susto e um cliffhanger, com seu resgate de último segundo. Aposto em algo “normal” como Kyle ou Rose surgindo do nada, mas realmente pode ser qualquer coisa.

O que me incomodou no episódio foram os desaparecimentos de Rose e Holly. Elas tiveram boa presença no capítulo de abertura da temporada, mas, aqui, simplesmente não dão as caras e isso apesar de morarem com Amber e Megan. Pode parecer pouca coisa, mas a ausências das duas, notadamente de Rose, que deveria funcionar como guardiã daquele local remoto diante de todos os perigos que conhecemos, quebra a imersão e torna pouco crível a fuga da menina e a tentativa de suicídio de Megan.

Outro elemento que me pareceu fora de esquadro foi a maneira aleatória com que a investigação do paradeiro de Sidney é encarada. O trailer que pegou fogo não mais parece ser de interessa da polícia e Kyle, do nada, aparece lá dentro e acha uma pista que o leva ao hospital onde está sua mãe e ao médico que ajuda Sidney. Não seria o caso de provas como essa terem sido recolhidas pela própria polícia ou que pelo menos Giles estivesse ali com Kyle? Não há um semblante de método e as peças parecem cair muito conveniente demais já na posição de encaixe do quebra-cabeças. Novamente, isso pode ser visto como algo de menor importância, mas, como a série tem um passo efetivamente lento, não custava trabalhar melhor aspectos como esse.

Evidentemente, porém, há um limite para o quanto a série pode continuar nesse passo mais econômico. Os personagens já estão bem estabelecidos e há pouco espaço para mais desdobramentos auto-contidos em relação a cada um deles. Ainda que não espere respostas tão cedo, creio que será necessário alguma aceleração de eventos ou, pelo menos, alguma convergência de propósitos para manter o interesse pela série aceso. Claro que ainda estamos bem no comecinho da temporada e o suspense e a tensão estão bem trabalhados, mas já é bom chamar atenção para algo que pode ser um problema futuramente.

Outcast – 2×02: Episode 2 (EUA, 17 de abril de 2017)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Loni Peristere
Roteiro: Adam Targum
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Fox Premium 1
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.