Crítica | Outcast – 2X05: The Common Good

estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

Chegamos à metade da segunda temporada de Outcast que, verdade seja dita, mais pareceu um final de temporada. Tenso, cheio de revelações e repleto de ação, The Common Good parece ser o ponto de virada que a série precisava e que conjuga todas as linhas narrativas em uma só.

Claro que a cereja no bolo é a possessão do chefe Giles diante de todos os cidadãos de Roma e o violento exorcismo por Kyle, que lhe valeu um sobrevoo no estacionamento de ônibus escolares e uma facada na barriga que o deixa às portas da morte. Com isso, finalmente, Megan acreditará nos superpoderes do irmão e em sua própria possessão, o que muito provavelmente a tirará do mesmo – e terrível – teto de seus pais, que fecharam os olhos para seus repetidos estupros. Da mesma maneira, é possível que a cidade toda passe a duvidar de seu vizinhos, levando o caos ao lugar, algo que muito provavelmente não será controlado adequadamente por Giles e sua meia dúzia de policiais, uma delas possuída.

Ah, e como poderia esquecer de Sidney e seu guarda-costas Aaron, louco para matar quem quer que seja? A dupla é assustadora e Bob é o primeiro a sentir o gostinho disso, gosto esse que nos revela que alguém, no passado, amplificou os poderes de pessoas especiais como Kyle, talvez inclusive seu próprio pai. O que exatamente isso significa e em que caminho isso levará a série, ainda é cedo para sabermos, mas é evidente que o showrunner Chris Black continua, a passos largos, aprofundando a mitologia desses misteriosos seres. Foi particularmente revelador o diálogo do prefeito com Kyle e Giles no armazém deserto de Sidney, em que ele menciona, de forma completamente desmistificada, um local de onde “eles” teriam vindo, que não era suficiente e assim por diante. Em outras palavras, o véu de exorcismo clássico é retirado por completo caso alguém porventura ainda achasse que a questão tinha origem bíblica.

Mas o que realmente chama atenção na série é a recusa do showrunner em trilhar o caminho mais fácil. Todos os ambientes que vemos são desagradáveis, escuros, solitários e deprimentes. Quando há luz e cores claras, a hipocrisia bate forte, como é o caso do lar dos pais de Megan. Se começamos com um prelúdio aterrador em que pela primeira vez vemos o pai de Kyle em seu trailer torturando uma mulher possuída, pulamos dali para o sanatório onde está Allison que tem design assustador, retirado dos melhores filmes de casas mal-assombradas. O mesmo vale até para a escola onde há a reunião dos moradores da cidade, em que o teto baixo nos deixa claustrofóbicos e irrequietos.

A fotografia noturna novamente merece destaque, com os já bem estabelecidos tons de verde para lidar com Sidney e seus minions, mantendo-nos sempre com uma sensação enjoada, agressiva mesmo. É possível, por essas razões todas, que Outcast não seja uma série muito falada por aí. Não há uma luz no fim do túnel, não há um herói com que possamos nos identificar. Kyle Barnes é, com ou sem suas habilidades especiais, uma espécie de exilado, que não consegue se adequar a nada e a ninguém, algo que a atuação de Patrick Fugit acerta em cheio com aquele seu olhar perdido. O reverendo Anderson é um sujeito prepotente que só agora percebe de verdade que sua vida inteira foi uma farsa. E o chefe Giles é ele mesmo isolado da comunidade em geral, sempre agindo por contra própria. Com exceção das crianças – e mesmo assim não completamente – é difícil torcer por alguém de verdade, especialmente enquanto a situação mantiver-se enevoada como está.

Essa coragem em não se desviar do plano inicial já automaticamente torna Outcast uma série que merece comenda. Ela não se curva ao óbvio, não tenta agradar um público amplo. Ela nunca se trai. Se, no começo, Kyle tinha um histórico – que hoje sabemos ser falso – de abusador de mulheres, a situação não é lá muito melhor agora. Ao contrário, o cerco dos humanos possuídos é cada vez mais intenso, cada vez mais destruidor. E, agora que sabemos que há mais alguém com as habilidades de Kyle funcionando como um farol para atrair as “gelecas negras”, a tendência é tudo piorar.

Se existe um resquício de esperança nessa espiral de escuridão e morte (além de línguas cortadas) é o tal culto do farol que Anderson acha e que, também neste episódio, descobre ser formado de ex-possuídos. Deve ser a partir dali que sairão mais revelações sobre o passado de Roma e, provavelmente, do pai de Kyle. Mas também existe a possibilidade de eles não serem exatamente o que parecem ser, pois pouco se sabe da natureza da relação do hospedeiro com o parasita.

The Common Good foi, sem dúvida alguma, um  dos melhores episódios da série até agora, impulsionando-a com vontade e, no mesmo diapasão, aprofundando seus mistérios. Com Kyle quase morto, mas potencialmente com suas fileiras engrossando, a vindoura luta entre o bem e o mal nunca foi potencialmente tão interessante.

Outcast – 2×05: The Common Good (EUA, 08 de maio de 2017)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Ti West
Roteiro: Chris Black, Adam Targum
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff, M.C. Gainey
Produtora: Cinemax
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Fox Premium 1
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.