Crítica | Outcast – 2X09: This Is How It Starts

estrelas 4

Obs: Contém spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui e dos quadrinhos, aqui.

Quase chegando ao final da segunda temporada de Outcast, fica claro que os planos de Chris Black para a série são bem mais abrangentes e ousados do que era possível entrever. Não há qualquer amarra que o impeça de promover mortes importantes que têm o potencial de mudar completamente o status quo ou de introduzir personagens ou fazer revelações que mudam a percepção de determinado grupo e alteram a forma de encarar a série por seus espectadores.

Isso fica mais evidente ainda se olharmos lá para o começo de tudo, quando Outcast era apenas uma série de terror circunscrita a possessões demoníacas em uma cidadezinha do nordeste americano. Todos os elementos do gênero se faziam presentes, ainda que sempre tivesse ficado claro que aquilo que estava acontecendo não era um clássico embate entre o Céu e o Inferno. Quando a mesa vira e a farsa é colocada abertamente diante de todos, o clima de horror continuou, mas a série ganhou quase que imediatamente outra roupagem, agora misturando horror com toques de ficção científica e uma abrangência muito maior e ainda mais sinistra. Recentemente, essa abrangência ganhou camadas, com uma hierarquia dentro da estrutura das “gosmas pretas” e a introdução de “gerações” de combate a elas, além da apresentação do Culto do Farol.

This Is How It Starts vem para mexer mais ainda no que foi estabelecido, ceifando a vida de dois personagens. A primeira morte é a mais trágica, mas narrativamente a menos importante. Rose, esposa de Byron Giles, depois de passar um susto com uma possível possessão, se mata por não aguentar viver com a culpa que sente por ter matado sua melhor amiga, mesmo que possuída. Esse remorso extremo pareceu um tanto quanto repentino, mas ele pode ser explicado pela morte da Chefe Nuñez por Giles e pela febre repentina de Rose, que catalisaram sentimentos de insegurança e de profunda falta de esperança. Além disso, a direção de Howard Deutch usou bem seu maneirismos com ângulos extremos e câmeras viradas para nos passar a angústia sentida pela personagem e, mais até do que isso, uma impressão de inevitabilidade de uma tragédia. Havia, na construção da relação entre Rose e Giles dentro do episódio, quase que uma nuvem negra pairando sobre eles.

A segunda morte é muito mais importante, claro. Afinal, estamos falando do grande vilão, Sidney, que acaba morrendo na igreja do Culto do Farol pelas mãos do reverendo Anderson. A metáfora é clara: Anderson matou o diabo e encontrou-se mais uma vez em sua Igreja ao final. Em sua mente perturbada, ele provavelmente acha que está salvo ou que seu deus finalmente lhe deu um propósito novamente. Mas, voltando para Sidney, ainda que a falta de Brent Spiner tenha potencial para ser sentida, a série merece aplausos por fazer uma modificação desse porte em sua estrutura.

Sim, é bem verdade que já estávamos vendo uma presença mais constante do Dr. Kenneth Park como força de oposição a Sidney dentro da própria hierarquia das gosmas, mas ainda não era possível perceber até que ponto isso iria. Com a volta de Blake Morrow em Mercy, houve um reforço grande desse lado da narrativa e a descoberta da gravidez messiânica de Megan esquentou mais ainda as chances de Park colocar em movimento o seu plano de fazer mais do que apenas a Fusão desejada por Sidney.

Mas, mesmo considerando a construção desse aspecto nessa metade final da segunda temporada, This Is How It Starts realmente não se faz de rogado e, como o título diz, efetivamente “começa” um jogo muito mais amplo, muito mais ameaçador. De certa forma, alguns poderiam achar frustrante que Sidney e seu jogo será apagado, mas tudo o que foi construído até aqui, temos que lembrar, foi em razão desse vilão e o que acontecerá daqui para frente será uma consequências do que ele colocou em movimento, para o bem ou para o mal.

Vale lembrar, ainda, da revelação de que o Culto do Farol é, aparentemente, realmente um “culto” no sentido mais pejorativo da palavra, com um grupo de pessoas esperando o fim do mundo unicamente para poder sobreviver a ele, já que eles são imunes a outras possessões. E, pior ainda, Simon Barnes, pai de Kyle, parece mesmo ser o líder desse grupo, que o trata com enorme deferência. Se, por um lado tivemos uma troca de vilão – Sidney por Park e Blake -, por outro talvez Kyle tenha ganhado não um aliado, mas mais alguém para atrapalhar sua cruzada “anti-gosma”.

No entanto, apesar da quantidade de coisa que acontece no episódio, é engraçado perceber que pouco realmente evoluiu desde o final de Mercy. Megan acaba na mesma situação em que estava antes e o mesmo pode ser dito de Simon, que, estranhamente, ganha sua segunda “entrada misteriosa” aqui. Apenas do lado de Allison e Amber é que há uma pequena mudança, com um mistério sobre o paradeiro delas, mas creio que seja apenas algo para criar suspense e que logo será resolvido sem maiores problemas.

This Is How It Starts, portanto, tem uma qualidade híbrida: ao mesmo tempo ele muda tudo e não muda nada. Parece, em muitos momentos, um episódio ponte entre Mercy e o season finale, ainda que seja impossível classificá-lo apenas assim diante da magnitude do que acontece. Sem dúvida alguma, foi uma bela despedida para Brent Spiner e mais um ótimo episódio em sua carga de suspense, ainda que não tenha alcançado a excelência do anterior.

Outcast – 2X09: This Is How It Starts (EUA, 05 de junho de 2017)
Criação:
Robert Kirkman
Showrunner: Chris Black
Direção: Howard Deutch
Roteiro: Adam Targum
Elenco: Patrick Fugit, Philip Glenister, Wrenn Schmidt, David Denman, Julia Crockett, Kate Lyn Sheil, Reg E. Cathey, Gabriel Bateman, Callie Brook McClincy, Brent Spiner, Zach Shirey, Pete Burris, Debra Christofferson, C.J. Hoff, M.C. Gainey, Hoon Lee, Madelyn Deutch, Lee Tergesen, C. Thomas Howell
Disponibilização no Brasil (à época da elaboração da crítica): Fox Premium 1
Duração: 46 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.