Crítica | Outcast: Vol. 1 – Uma Escuridão o Cerca

estrelas 3,5

Obs: O título original do volume 1, que é também o título do primeiro número da publicação – A Darkness Surrounds Him – foi traduzido de maneira livre por mim, já que Outcast ainda não foi publicado no Brasil.

Robert Kirkman tornou-se extremamente conhecido na indústria de quadrinhos quando, já dentro da Image Comics, criou, no mesmo ano de 2003, dois títulos que continuam sendo escritos e publicados mensalmente por ele: Invencível e The Walking Dead. Sucessos absolutos que ajudaram a tornar a Image a prolífica editora que é hoje em dia, esses dois títulos parecem ter sufocado de certa forma a veia criativa do autor, que teve certa dificuldade de emplacar outras criações, como The Astounding Wolf-Man e Super Dinosaur, apenas conseguindo resultado um poco mais duradouro com a criação – mas não roteirização – de O Ladrão dos Ladrões. Mas também pudera, pois sua agenda passou a ficar lotada quando, em 2010, The Walking Dead foi adaptada para a TV, tornando-se uma das séries em andamento mais bem-sucedidas da história.

outcast_volume_1_capa_plano_criticoKirkman só voltou realmente a redigir de maneira constante outra publicação que não suas duas principais em 2014, com o lançamento de Outcast, hoje apenas no seu 18º número, também pela Image Comics. Ele volta ao gênero do horror para abordar, desta vez, a possessão demoníaca, artifício narrativo muito usado no Cinema com resultados irregulares. Devido a seu renome no mercado televisivo, porém, a HQ foi logo adquirida pelo Cinemax, que desenvolveu uma série de TV, objetivo que Kirkman tinha desde seu nascedouro. O primeiro volume, que reúne os seis primeiros números da série, é misterioso e sombrio, gerando muitas perguntas e praticamente nenhuma resposta, o que automaticamente gera enorme curiosidade pelos números seguintes e mostra que a pegada batida de “possessão demoníaca” e “exorcismo” pode oferecer mais do que apenas o óbvio.

Nela, somos apresentados a Kyle Barnes, um homem que vive praticamente no chiqueiro em que se tornou a casa de sua mãe. Ele não cuida de nada e nem de si mesmo, com sua existência se resumindo a um colchão no chão, roupas surradas e nenhuma vontade de interagir com outros seres humanos, nem mesmo sua irmão adotiva que insiste em levá-lo para fora e fazê-lo comer algo mais do que uma linguiça velha mofando na geladeira. O interessante no personagem é que é muito difícil simpatizar com ele, mesmo quando, a conta-gotas, seu passado vai sendo revelado e começamos a ver uma perturbadora e constante conexão de pessoas ao seu redor envolvidas em possessões demoníacas. Apesar de compreendermos o que ele deve passar, Kirkman não facilita a empatia com o personagem e apenas indiretamente – o padre que o recruta, sua irmã que tenta ajudá-lo, seu vizinho idoso e solitário que o convida para jantar – começamos a notar o ser humano que há por trás daquela figura niilista e entristecida que somos obrigados a chamar de “herói” ou, pelo menos, de protagonista. Kyle parece ter habilidades especiais que o torna valioso em exorcismos, ao mesmo tempo em que é visto com um misto de surpresa e raiva pelos demônios ao seu redor, que o chamam de Outcast que, em tradução livre, poderia ser “pária”, “proscrito” ou até mesmo “banido” ou “exilado”. O que isso significa exatamente? Bem, como eu disse, Kirkman só deixa perguntas no ar, não respostas. Portanto, as revelações só virão com o tempo.

O ritmo narrativo é lento e não existe uma preocupação com a ação constante. Há muito mais foco no lado psicológico de Kyle e de seus conhecidos, além da introdução de um sinistro personagem que já mostra a que veio – e potencialmente quem é – no final do volume. Apesar de haver muito sangue e um bom grau de violência, a série não é particularmente violenta ou nojenta como o imaginário popular poderia esperar de exorcismos. Kirkman tenta trabalhar a atmosfera e, ainda que quadrinhos de terror nunca tenham conseguido me assustar de verdade, ele usa uma linguagem cinematográfica que qualquer leitor reparará que, nas telinhas, tem potencial de funcionar bem, com flashbacks bruscos, penumbras constantes e um senso de isolamento aterrador. Vê-se muito claramente – para o mal ou para o bem – que Kirkman escreve algo já embalado para presente para tornar-se uma série de TV.

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A arte, que ficou ao encargo de Paul Azaceta, não tem um estilo que me agrada pessoalmente, com traços simples, poucos detalhes de fundo e rostos tendentes ao caricatural em muitos momentos. Confesso, porém, que o artista foi eficiente em criar a estranheza que a história pedia. Outcast não tem a “vantagem” de ser uma história que diretamente aborda monstros como The Walking Dead ou super-heróis como Invencível. Em termos de criações de Kirkman, ela está muito mais próxima de O Ladrão dos Ladrões, pois lida, em larga escala, com pessoas “normais”. Mas, diferente da criação gatuna do escritor, traços bonitos, altivos e sofisticados não funcionariam em Outcast pois a criação de uma atmosfera bizarra, suja e desagradável era essencial para que a história realmente funcionasse como acaba funcionando. O rosto perturbado e triste de Kyle é marcante e, quando é necessário, Azaceta mostra que sabe criar fisionomias assustadoras sem deformá-las demasiadamente.

Outro aspecto importante da arte é que as cores de Elizabeth Breitweiser fazem com que o volume todo se passe primordialmente na penumbra. Mesmo à luz do dia, a narrativa tem um peso que é puxado para baixo pela paleta entristecida e sinistra da artista. Quando ela realmente mergulha na escuridão, seu trabalho chega ao ponto alto, usando apenas pequenas variações e tons de cinza, azul e preto para alcançar o objetivo de criar tensão no leitor.

Uma Escuridão o Cerca é quase um tira-gosto, um volume feito para eficientemente mostrar o potencial de uma série de horror baseada em exorcismos. O leitor é propositalmente deixado na escuridão, mas Kirkman mostra o suficiente para tornar a leitura do volume seguinte algo quase necessário. Afinal, o autor pode até acertar poucas vezes em suas criações, mas quando ele acerta, o tiro costumeiramente é no centro do alvo.

Outcast: Vol. 1 – Uma Escuridão o Cerca (Outcast: Vol. 1 – A Darkness Surrounds Him, EUA – 2014)
Contendo: Outcast #1 a #6
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Paul Azaceta
Cores: Elizabeth Breitweiser
Letras: Rus Wooton
Capas: Paul Azaceta
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: junho a dezembro de 2014
Editora no Brasil: ainda não publicado no país (na data de publicação da presente crítica)
Páginas: 156

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.