Crítica | Outcast: Vol. 3 – Este Pouco de Luz

estrelas 4

Obs 1: O título original do volume 3, que é também o título do 13º número da publicação – This Little Light – foi traduzido de maneira livre por mim, já que Outcast ainda não foi publicado no Brasil.

Obs 2: Leia aqui a crítica do volume anterior e aqui as críticas dos episódios da série de TV. Há spoilers

Uma das qualidades mais interessantes do trabalho de Robert Kirkman em Outcast é criar uma história mundana, próxima da realidade, que traz elementos clássicos do terror, mas sem descambar para o óbvio. Há  um plano por trás de tudo que o autor vem trazendo para sua mais nova HQ e ele vem sendo cuidadosamente costurado ao longo de cada edição. O terceiro volume, assim, continua fluidamente a história dos dois anteriores, sem saltos temporais, sem invencionices. É como ler um graphic novel de uma tacada só.

outcast_vol_3_capa_plano_criticoComeçando de onde a história parou em Uma Vasta e Infindável Ruína, o terceiro volume abre com Kyle e o reverendo Anderson tentando exorcisar Megan. São páginas violentas e tensas, em que tudo que a dupla faz dá errado, com Mark chegando – e deixando sua filha sozinha com Sidney! – somente para piorar as coisas e ser jogado pela janela por sua esposa completamente selvagem. A progressão narrativa é lógica e apertada, com um acontecimento levando ao outro muito naturalmente, sem necessidade de saltos lógicos ou suspensão da descrença que vá além da premissa já estabelecida na série.

As revelações, que antes vinham a conta gotas, começam a acelerar, especialmente quando Megan, possuída, diz muito claramente que Kyle nada mais é do que uma ferramenta para as entidades misteriosas. A essa altura, simplesmente etiquetar a série como apenas uma luta dos humanos contra demônios é um erro muito grande, já que cada ato que compõe os clássico exorcismos passam a ser enxergados sob outra luz, como no momento em que Kyle deduz que não é a leitura da Bíblia que incomoda o possuído e sim a entonação das palavras, quaisquer palavras. Assim, fica evidente que há algo bem mais interessante por trás de tudo, com Sidney como mestre de cerimônias para algum evento importante que ainda não foi explicado muito bem. Aliás, falando em Sidney, vale especial nota o momento em que Kyle e ele finalmente se digladiam. Há elegância aqui. Kirkman, no lugar de uma óbvia pancadaria, lida com a situação apenas com um longo aperto de mão em que Sidney tenta disfarçar os efeitos do toque de Kyle e Kyle procura sinais de que ele também é vulnerável a seu “poder”.

É nesse volume, também, que todo o passado de violência entre Kyle e Allison é finalmente revelado para ela, ainda que ela naturalmente lute para acreditar nas aparentes sandices que ele conta. No entanto, uma coisa fica evidente para o leitor: a pequena Amber herdou suas habilidades anti-possessão. O que isso significa para o futuro desses quadrinhos, só o tempo dirá, mas as possibilidades são várias.

outcast_vol_3_paginas_plano_critico

No entanto, parece-me que algo estranho está acontecendo no trabalho de Kirkman: ele está auto-contido demais. Em outras palavras, não há expansividade nesse universo que ele criou. Tudo se resume às possessões na cidadezinha de Roma e ao plano de Sidney comandando um grupo de pessoas possuídas pelas tais entidades misteriosas. Falta algo aqui difícil de apontar o dedo. Percebe-se que há algo grande, de fato, mas a progressão narrativa parece caminhar para uma resolução muito rapidamente. O que justificará a continuidade dessa publicação além de mais um, talvez dois volumes? Afinal, não se trata aqui de uma série limitada ou com fim anunciado em vista. Isso nem mesmo é do feitio de Kirkman, considerando seus trabalhos mais famosos, Invencível e The Walking Dead, sem encerramentos a vista. Das duas uma: ou a série acabará em breve (o que é menos provável) ou o próximo volume abrirá os horizontes para algo muito maior que talvez se relacione com a breve menção a outros “exilados” no mundo. Será que Kyle e Amber conhecerão outros com as mesmas habilidades? Será que eles também estão reunidos em um grupo coeso para enfrentar as entidades misteriosas?

Seja como for, não há dúvida que Outcast é uma leitura engajante que merece ser acompanhada por apreciadores de quadrinhos de horror. Há muita coisa boa para se apreciar aqui, sejam os personagens, seja a arte cada vez mais completa, ainda que sempre crua de Paul Azaceta. Seja qual for o futuro que Kirkman planeja para seus heróis, a jornada com certeza valerá a pena.

Outcast: Vol. 3 – Este Pouco de Luz (Outcast: Vol. 3 – This Little Light, EUA – 2015/6)
Contendo: Outcast #13 a #18
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Paul Azaceta
Cores: Elizabeth Breitweiser
Letras: Rus Wooton
Capas: Paul Azaceta, Elizabeth Breitweiser
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: novembro de 2015 a abril de 2016
Editora no Brasil: ainda não publicado no país (na data de publicação da presente crítica)
Páginas: 127

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.