Crítica | Outcast: Vol. 4 – Sob a Asa do Diabo

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estrelas 3,5

Obs: Leiam, aqui, a crítica dos volumes anteriores e, aqui, as críticas dos episódios da série de TV. Há spoilers

Robert Kirkman, sem dúvida alguma, tem o dom da narrativa em quadrinhos protraída no tempo. Ele já comprovou isso com as longevas e bem-sucedidas séries The Walking Dead e Invencível, publicadas ininterruptamente desde 2003. Outcast parece ser seu terceiro grande acerto, mas começo a duvidar de sua capacidade de expandir a história para o nível de suas outras duas criações, ainda que pareça que ele queira fazer exatamente isso.

O volume quatro começa exatamente de onde o anterior parou, com Kyle Barnes finalmente capturado pelo misterioso Sidney que, para o Reverendo Anderson, é o diabo em pessoa. O leitor, no entanto, sabe que há algo mais aí e que a explicação bíblica para os acontecimentos vistos nos volumes anteriores não parecia mais suficiente e uma boa quantidade de pistas já haviam sido deixadas ao longo do caminho nesse sentido. Sob a Asa do Diabo, então, prometia respostas daquelas semelhantes ao que vemos em filmes de James Bond, com o protagonista preso e o grande vilão discorrendo sobre os detalhes de seu plano maléfico de dominação mundial.

E, por diversas vezes, Kirkman dá a impressão que realmente responderá alguma coisa. São pelo menos três falsos começos de uma narrativa mais explicativa que fica só nisso mesmo, no começo. Nada que já não saibamos é dito por Sidney a Kyle ou a Anderson, por mais que haja tempo e páginas suficientes para isso. Sidney precisa da ajuda de Kyle e isso ele diz claramente ao jovem que, claro, se recusa a cair na conversa do sinistro homem do chapéu preto. Mas como confiar em alguém que fala em metáforas e meias verdades? Como compreender a exata dimensão do que ele tenta explicar sem que ele efetivamente pare e demonstre por “A mais B” o que exatamente são as criaturas etéreas negras que possuem humanos desavisados? Como apagar a noção de uma luta entre o Céu e o Inferno – que Kyle nem mais acredita, se é que um dia acreditou – sem que uma alternativa mais, digamos, plausível, seja oferecida?

Em poucas palavras, o que Kirkman oferece a seus leitores neste volume é pura enrolação ou, no linguajar de séries de TV, um longo filler que mais parece um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Mesmo considerando que o status quo é realmente alterado nas últimas páginas, o que somente contribuirá para mais demora e mais enrolação, com um importante jogador saindo de cena e outro zero quilômetro entrando, não há muito mais o que ver aqui. Sim, o reverendo ultrapassa o “ponto sem retorno” e sim, Brian finalmente é exorcizado e entra para o time dos mocinhos, mas nada muito mais relevante efetivamente acontece ao longo das seis edições que compõem o arco.

Kirkman, se realmente quiser manter o interesse do leitor e, por conseguinte, a revista em publicação por um longo tempo, ele precisará o oferecer mais do que voltas e voltas para chegar a lugar nenhum. É compreensível que ele queira atrasar ao máximo eventual grande revelação – que torço muito para ser algo extremamente bem pensando e não só extraterrestres ou seres extra-dimensionais em uma luta milenar, algo mais do que batido – em razão da série de TV que começou a ser produzida quase que simultaneamente aos quadrinhos, mas ele precisa entender que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Nada impede que tudo seja revelado em uma mídia e posteriormente adaptada para outra, até porque os leitores de quadrinhos provavelmente dizem respeito a uma parte ínfima de quem assiste ao seriado.

Ainda há muito o que apreciar em Outcast, porém. O roteiro não economiza em violência crível e bem utilizada dentro da lógica dos acontecimentos e os atos extremos do reverendo Anderson certamente terão repercussões psicológicas potencialmente interessantes. Além disso, o uso da pequena Amber, filha de Kyle, mal começou e isso pode também dar frutos. Outros aspecto que não podemos esquecer é a cada vez mais bonita arte de Paul Azaceta que parece realmente ter acertado no equilíbrio entre o realista e o cartunesco, com traços crus e poderosos, que olham para dentro da negritude da alma humana. As cores de Elizabeth Breitweiser também merecem destaque, pois ela mantém uma atmosfera de “fim do mundo” inevitável por toda a publicação e mesmo as pequenas vitórias de Kyle são enfocadas sob uma luz entristecida, finalista mesmo.

Mas Kirkman precisa ter cuidado para não exagerar na enrolação. Ele não tem muito mais saída agora e precisa entregar algo mais apetitoso ao leitor voraz. A expansividade desse seu universo depende disso, a não ser que, para surpresa geral, ele não tenha um plano tão de longo prazo assim para a jornada de Kyle Barnes.

Outcast: Vol. 4 – Sob a Asa do Diabo (Outcast: Vol. 4 – Under Devil’s Wing, EUA – 2016/7)
Contendo: Outcast #19 a #24
Roteiro: Robert Kirkman
Arte: Paul Azaceta
Cores: Elizabeth Breitweiser
Letras: Rus Wooton
Capas: Paul Azaceta, Elizabeth Breitweiser
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: julho de 2016 a janeiro de 2017
Editora no Brasil: ainda não publicado no país (na data de publicação da presente crítica)
Páginas: 127

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.