Crítica | Outra Página de Cada Vez – Motivação Para Hoje e Amanhã, de Adam J. Kurtz

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Mistura de livro para colorir com pseudo-diário (de preguiçoso), autoajuda barata e estupidez de alto nível, Outra Página de Cada Vez – Motivação Para Hoje e Amanhã (2016) é o tipo de livro que você tem contato e se pergunta por que algumas editoras dão bola para bobagens como esta e deixam iniciativas realmente relevantes nas sombras do mercado editorial. Vai ver foi a beleza do autor que serviu como motivador para os editores embarcarem no projeto, porque certamente não foi a qualidade da obra, que não se resolve como livro, nem como diário, nem como autoajuda, nem como livro para colorir, desenhar, etc. Na ânsia de motivar aleatoriamente, Adam J. Kurtz consegue mesmo é irritar. Sem chegar a lugar nenhum.

Meu contato com esta coisa sublime veio de reclamações da Cida Azevedo e minha resolução de ler e escrever sobre veio de uma piada do amigo Umberto Neto sobre uma resenha cômica da obra. O que eu não imaginava é que o livro me daria mais motivos para chorar do que para rir e o resultado crítico acabaria sendo mais colérico do que cômico. Não pude evitar.

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Suas atualizações de “eu gosto de ser enganado” foram realizadas com sucesso.

Adam J. Kurtz parece ter ficado famoso aqui no Brasil (?) com o sucesso de seu livro anterior, Uma Página de Cada Vez (2014) — e não, isso não é piadinha, este é realmente o nome do livro anterior do moço. Dito mais alegre e com dicas realmente marcadas pela maldição da autoajuda (“faça isso para ser feliz. Se você não se sentir feliz, você é um incompetente incorrigível, o problema é seu, seu miserável que não sabe nem seguir as regras de um livro que supostamente deveria te ajudar“), Uma Página de Cada Vez não foi o bastante para o autor deixar a sua marca no território da “ocupação para desocupados”, por isso ele veio com o revolucionário Outra Página de Cada Vez.

Eu fui procurar referências do próprio Coronel Kurtz sobre a obra e ele em pessoa disse que a intenção aqui era fazer com que o leitor tentasse encontrar suas próprias respostas, já que dicas sobre a vida não funcionam igual para todo mundo (oooooh!). De certa forma, há muitas semelhanças entre este livro e outra obra interativa e quase igualmente infame: Destrua Este Diário (2013), de Keri Smith. A diferença é que este Outra Página é absurdamente mais ambicioso. Em sua jornada para fazer o leitor interagir com o livro e se sentir melhor, o autor acaba criando um desafio de mal gosto à própria inteligência humana, pedindo para o público fazer as seguintes coisas:

  1. Cole curativos nesta página para que ela aguente firme.
  2. Desenhe um ovo. Desenhe uma frigideira. Volte logo para esta página, senão você estará frito!
  3. Desenhe xícaras de café, uma mais tremida que a outra.
  4. Desenhe seu corpo e encontre a origem de sua força interior.
  5. É ótimo poder culpar a Lua por nossas variações de humor e por comportamentos meio loucos! / A Lua está: __________ / Me obrigou a: __________.
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Eu desafio Ritter Fan a preencher TODAS essas carinhas.

Eu só consigo imaginar a validade deste livro em dois cenários. O primeiro, como uma atividade de recuperação ou ocupação para pessoas com depressão ou qualquer desordem emocional que precise de inputs periódicos para ajudá-las a se concentrar e seguirem a diante, de pouquinho em pouquinho. O segundo cenário, como um presente para uma criança bastante preguiçosa que quer um diário mas não tem coragem de fazer um. Daí o papai, a mamãe, padrinho, tia, irmão dariam de presente este livro para a tal criança. Fora esses dois casos, manter Outra Página de Cada Vez como diário ou motivação de vida por meses talvez seja apenas um meio fácil para subtrair neurônios gratuitamente. Se este for o caso, um aviso aos fãs da obra e do autor: há meios muito mais eficazes para isso, amigos!

Meu maior espanto foi notar que o público-alvo de Outra Página não é infanto-juvenil. É muito estranho ver esse tipo de infantilização editorial com verniz de “caminho de criatividade e motivação”. Mais eficiente seria se o autor mantivesse uma página dando oficinas de criação. Isso sim seria algo positivo, ao contrário de pedir para que as pessoas desenhem um cheque em branco para si mesmo e depois voltem para a vida real. Este é o nível de “caminhos criativos” que temos nessa obra-prima para adultos que acham que ainda estão com 8 anos.

Existem muitos livros interativos para crianças que constroem muito mais do que Outra Página de Cada Vez. Colocar o dedo para fazer o nariz ou a língua de um animal, fazer com que bichinhos entrem e saiam de casinhas e contar a história através da intervenção da pessoa com o livro é certamente muito mais proveitoso e criativo que transferir coisas que normalmente fazemos em nossas redes sociais para o papel. Me parece uma trollagem do tipo burocracia burra, onde você faz um serviço em um lugar, daí precisa fazer a mesma coisa em outra plataforma, com o objetivo de chegar exatamente no mesmo lugar que você tinha chegado antes.

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Um livro para adultos ou lição de casa do Jardim II? Só faltou pedir para colar macarrão na cartolina.

A conclusão óbvia é: Coronel Kurtz sabe como ganhar dinheiro fazendo adultos acreditarem que a melhor forma de criar, se motivar e desestressar é ler algo como “carregue a página até o final” e então observar o desenho de uma bateria eletrônica com uma barrinha. Pelo visto, a coisa realmente tem funcionado com muita gente. E o errado da história, aquele que não entende este primor da literatura contemporânea, OBVIAMENTE, sou eu.

Outra Página de Cada Vez – Motivação Para Hoje e Amanhã (Pick Me Up: A Pep Talk for Now and Later) — EUA, 2016
Autor: Adam J. Kurtz
Tradução: Henrique de Breia e Szolnoky
No Brasil: Editoria Paralela (Grupo Companhia das Letras)
256 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.